Fernanda Montenegro

O cantor, compositor e escritor Eric Poète está escrevendo um compêndio literário com retratos biogáficos de artistas brasileiros. Para isso pediu à Fernanda Montenegro um depoimento sobre a minha pessoa, e meu trabalho no Oficina Uzyna Uzona. A grande Dama da Arte do Poder do Teatro escreveu o texto que segue, ao qual eu respondo, também em seguida:

Fernanda Montenegro

“O Brasil tem um vêio de referências cultural e existencial pelo qual o rumo a seguir nos é conscientizado: Gregório de Mattos, Euclides da Cunha, Villa-Lobos, Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues, Glauber Rocha.
Nessa linhagem está Zé Celso. O que os liga? Um clamar, um convocar, um convulsionar, um amar. E mais que amar: proclamar. Esse agir vem de uma alucinada herança ibérica, barroca, mítica, onde, no sagrado e no profano, nós nos perdemos, nos achamos. E nos salvamos.
O Zé pertence a essa temperatura, a essa pulsação. Lembro a figura dele há 50 anos. Nada, fisicamente, demonstrava essa persona que a vida foi lhe acrescentando: um ser extremamente energizado, fustigante, ardido de tanta lucidez, onde a paz do conformismo, em pânico, passa ao largo. O Zé tem, com relação ao Brasil, uma obstinação de lobo faminto.
É um ermitão que não prega no deserto. Aliás,  onde o Zé prega não há deserto. Acompanho suas declarações, vejo suas fotos, leio suas entrevistas, admiro suas barbas, seu cajado, seus olhos de vidente. O Zé é um transformador.
A partir do Bexiga e do Oficina(esses espaços, no meu entender, são um só) o Zé se espraiou por muitas zonas e muitas gerações. Desse Bexiga, o Zé nos imprime o desassossego mais provocador, mais tonitruante, mais triunfante de São Paulo.
O Oficina (o Zé) dá ao Bexiga a dimensão de seu amor à vida e projeta esse bairro à altura da Cidade e do País.
Toda a trajetória votiva desse criador é única na cultura contemporânea do Brasil.”
Fernanda Montenegro

IÓ! FERNANDA MONTENEGRO
IÓ! ERIC POETE

Muito obrigado por me tornarem,
hoje numa tarde cinzenta já fria,
presente,
e me dar energia dando-me este presente:
as palavras de Amantíssima Fernanda Montenegro,
Dama Maior entre as Damas da Dinastia das Cacildas Aristocratas do Poder da Arte de Teatro no Brasil.

Pois para mim o Teatro é acima de tudo uma Arte Nobre,
por cuidar de tudo que é Humano, Trans Humano e até Sub-Humano,
como busca  do real Humano Poder.

O Teatro cultiva esta Alquimia, com Magia Arte e Beleza.

Muito obrigado a você, Amada Fernanda,
por ver,
o que vê em mim,
fruto carinhoso de sua percepção de Grande Atriz Antenada
eu diria mais que da Cidadania,
mas da própria divindade da Arte Teatral, que você sabe o que é.

Sua irmã segurava por você na Umbanda
enquanto você soltava, e solta,
seus anjos e demônios na Cena Ritual do Teatro.

Muito obrigado Eric por estar escrevendo sobre minha pessoa co-criadora com muitas outras, da Potencialização desta Arte do Poder Humano, ainda considerada  descartadável.

Meu cultivo tem a ver com o que fez o “Circo Voador”, “A Fundição Progresso”, o Grupo “Tá na Rua”, de Amir Haddad na LAPA, ponto maior no Mapa-Mundi-Ponto de Encontro de Arte,  Amor, Povo brilhantemente iluminando as Noites da Vida.

Tem a ver também com o que “Os Satyros”, com “Os Parlapatões”, fizeram repovoando a Praça Roosevelt e alongando seus cantos para a fervilhante Rua Augusta, mais inspirada hoje que nunca.

O que Fernanda diz do Bexiga dá muita força neste momento: “Bexiga e Oficina – esses espaços, no meu entender, são um só”.

Noel e eu completamos: “São Paulo da Café, Minas dá Leite, mas o Bixiga dá Teatro”.

Depois de obter entendimento tido como impossível para a grande maioria, com o Grupo SS, e até ter-me tornado amigo do artista Silvio Santos, este depoimento nos dá lastro para se chegar ao Ponto Decisivo da Luta: o Estado.

Tende a ser muito morosa e complexa esta fase da Luta.

Depois da Protagonização de 30 anos do obstáculo “Video-Financeiro”, entra agora em Cena Publica  como Protagonista: O ESTADO.

É preciso que haja entendimento para que haja rapidez na efetivação de uma “Troca de Terrenos” do entorno do Teatro Oficina, que Silvio Santos generosamente propõe, por Terreno em mãos do   Poder Público .

É uma oportunidade que pode vazar com o tempo, para a conquista do “AnhangaBaú da Feliz Cidade“,

do “Teatro de Estádio”,

da “Universidade Antropófaga”,

e do “Reflorestamento do Bixiga”.

O próprio Laudo do Tombamento do Oficina como Patrimônio Artístico e Cultural do Brasil, pelo IPHAN, determina que  haja desapropriação do entorno do Teatro Oficina, compra ou outro meio para que se possa realizar a complementação do projeto Urbano Arquitetônico de um dos Maiores “Arquitetos” do século XX: Lina Bardi.

Silvio Santos trouxe uma solução surpreendente: “A Troca de Terrenos entre Terrenos”, onde entra valor fundiário e não dinheiro em espécie, coisa que os Poderes Públicos submetidos aos Cortes Fiscais neste momento não podem ter.

Por falar em Cortes Fiscais, e por ter recebido esta Outorga de Autoridade da maior Autoridade Viva do Teatro No Brasil, Fernanda Montenegro, tenho a certeza que nós deviamos juntar todos que fazem Teatro,
os que estão na Televisão amando o Teatro,
os que neste momento criam a renovação constante trazida pela Juventude,
os que se aventuram nesta Arte Bela e Cruel,
para conseguirmos suspender o Corte Brutal de 2/3 no Orçamento do Jovem Ministério da Cultura.

Vamos falar com Dilma, que é uma Protagonista Forte à altura do Poder que detêm, acompanhados da Ministra Anna de Hollanda.

Os que recriam, praticam o Teatro em Cartaz ou fora dele,
neste momento,
principalmente os Grupos de Trabalho Permanente de Plantação em Equipe cultivadores do futuro de nossa Arte estão na mais completa Miséria,
que se não for erradicada matará uma geração, como a de “Roda Viva” de 68,
massacrada pelo regime militar.

É muito cruel. Eu vi a situacão dos que ocuparam a Funarte.

Fomos até eles, para entrarmos juntos no movimento de luta pela  Cultura, objetivada na luta pela  liberação dos Cortes no Ministério.

Nós do Oficina Uzyna Uzona, fomos expulsos, por discordarmos das formas de luta que propunham, nas “palavras de ordem”, nos  slogans da velha esquerda carregados agora com um líquido inédito de ressentimento e ódio.

Eles estão num desespero que leva a um estado antagônico ao da Criação. A Fome pode destruir o instinto Criador.

Mas Justiça seja feita , foram os 1ºs a dar este Grito ! A expor publicamente este sintoma de Doença na Cultura Brasileira Atual.

Nós montamos a “Macumba Antropógafa” durante seis meses, pois os atores tinham de fazer outros trabalhos. Não era necessário artisticamente este tempo para o trabalho. Mas havia artistas que não tinham dinheiro para a condução de chegar ao Teatro.

Saí esgotado destes seis meses.

Felizmente tinha feito uma participação numa novela da Globo e recebido idenização por tortura, e pude segurar minhas pontas e a de muitos, como outros que tinham alguma coisa, fizeram o mesmo.

Esta situação é absurda na fase de Crescimento por que passa o Brasil.

O Teatro é um Berço de Criação da Cultura. É democracia estética humana direta e poderosa,
e hoje o Teatro contracena,
como no Oficina e em muitos Grupos,
com Todas as Artes,
a Cyber, a Musical, as Artes Plásticas, a Dança, a Poesia, trazendo-as para a Arte Cênica ao Vivo.

O estímulo energético humano corporal,
que produzimos nós que fazemos Teatro,
verdadeiras Uzynas Humanas,
é para dar aos que vêm nos ver estímulo vital elétrico de Poder Humano Corporal, Pessoal e Coletivo.

Teatro é  o maior Investimento que pode existir na criativa formação para a transformação do que impede a imediata  emersão da Economia Verde que vem vindo, rápida e poderosa.

Vivemos na Era da Inteligência Cyber, da NeuroCiência fazendo milagres, das Células-tronco.

É a Era em que o investimento em Criatividade no Poder Libidinoso, Elétrico e inventivo do ser humano na  Cultura não pode ser negligenciado.

É a Macro Economia da Vida, e é o Cultivo da Cultura que acelerará  a expansão da Economia Verde com velocidade Internética.

A Miséria não será erradicada no Brasil se a Cultura for, sobretudo no Teatro, miserabilizada pelo Estado.

Parece que não há esta percepção, nem nas mais brilhantes “personas políticas”.

Você Fernanda atravessou todos os Períodos da História do Brasil, mantendo viva no TERRITÓRIO DE SEU CORPO, A AUTORIDADE DO PODER TEATRAL.

Em seu Corpo-Alma você traz este Poder que veio de ANTÍGONE.

Vamos juntos dar voz, Poder, aos direitos que ANTÍGONE  clamava, que estão além das leis humanas, e que estão presentes no Corpo Vivo do Teatro.

Estou fazendo do Apê em que moro e trabalho, um SPA. Pois carrego uma exaustão de 2 anos de Trabalho sem férias.

E este ano criamos muito, mas à custa de um esforço Sobre Humano dos nossos Corpos.

Só estamos fazendo sessões aos sábados e aos domingos.

É um trabalho que aconteceu totalmente Domingo passado. Pegou!, como dizemos nós de Teatro.

Hoje é terça, e somente depois do teu texto recuperei meu Roteiro de Vida e Criação.

Temos que lutar juntos pelo Ócio que nosso Neg-Ócio merece e você é nossa Campeã Olímpica.

Vamos nessa.

Todo Amor a você Diva Adorada.

E a você Eric, agricultivando uma colheita tão ambiciosa para a Cultura.

E obrigado por me trazerem a Alma de Volta nesta tarde triste.

Um dos Papéis que eu faço, na “Macumba Urbana Antropófaga”, é do Padre Vieira, e me apaixonei por esta frase dele, bem conhecida:

“Para falar aos ventos
bastam palavras,
mas para falar ao Coração
é preciso Obras.”

Anúncios
13 comentários
  1. Que lindo…fiquei comovido com os dois textos…eu como admirador de arte, vejo como a arte foi importante pra minha vida… e como tenho a agradecer essas pessoas tão superiores como Fernanda Montenegro e Zé Celso… vocês mudam vidas, transformam realidades… a minha vida foi transformada por filmes como “Central do Brasil” e com peças como “As Bacantes” e “O Banquete”…

  2. Fernanda Rêgo disse:

    Bravíssimo!!! Eternos ídolos transformadores!!! Como vivo em Recife, ainda não tive oportunidade de ver a “Macumba” de perto como gostaria e como pude fazê-lo em tantas outras peças deste gênio inovador do teatro brasileiro chamado Zé Celso, mas tõ me virando como posso, acompanhando a transmissão ao vivo pela internet. Parabéns!

  3. eu a vi de perto em “viver sem tempos mortos”. não é que ela tenha tocado minha alma. ela a exaltou! eu não consigo (nem quero!) me desligar daquela comunhão… fernanda é inexplicável. pra ser bem piegas, e tão verdadeiro como só a pieguice permite!, fernanda montenegro é feita de amor.

  4. Vladimir Stallman Magón disse:

    Carta Aberta da Sociedade Civil sobre a Crise do MinC:

    http://www.mobilizacultura.org/2011/09/04/pais-rico-e-pais-com-cultura/

    ———————————————————————————————————————————
    Pelo fim do retrocesso do MinC;
    Pela volta da cultura digital como fundamento do MinC;
    Pelo fim da falta de diálogo;
    Pelo fim dos privilégios do mainstream da industria cultural;
    Chega dessa balela de pós-rancor, vamos fazer política com amor e raiva também (isso é coisa minha, não está na carta…);
    Pela cultura, com a Dilma ou contra a Dilma – sou do movimento independente da cultura. Apóio (ainda!!!!) Dilma, mas não sou pelÊgo não…

    E qual a posição do Zé Celso??? Depois da babaquice com a ocupação do Minc. a coisa ficou meio estranha…..

  5. Vladimir Stallman Magón disse:

    ops. Corrgindo:
    E qual a posição do Zé Celso??? Depois da babaquice com a ocupação da FUNARTE/SP. a coisa ficou meio estranha…..

  6. OI MEU NOME E MATHEUS ESTUDO NO BOAS NOVAS SO DO BRASIL MORO EM NILOPOLIS NA RUA PEDRO ALVARES CABRAL

  7. SOCORRO! SUMIU O CRONOGRAMA!!!!!

    O ministério da cultura (MinC) ainda não tornou público o anteprojeto de lei(APL) de alteração da lei nº 9.610/1998 (a famigerada lei de direitos autorais brasileira).

    Segundo o cronograma formulado pelo próprio MinC, o anteprojeto era para estar publicado desde de 15 de julho de 2011, data em que o texto deveria estar na casa civil.

    Em 15 de julho de 2011, data de publicação prevista pelo cronograma, o APL não foi publicado.

    Hoje, 08/09/2011, ainda não temos idéia de como é este APL. É um mistério total…

    Para pessoas como Glória Braga (ECAD) não representa problema nenhum esta demora. Para ela a lei de direito autoral brasileira, do jeito que está hoje, já uma das melhores leis do mundo.

    Mas para quem quer ver uma lei que seja justa em relação a difusão da cultura e às práticas colaborativas que podem ser condicionádas pela tecnologia atual, não está fácil…

    A lei de direito autoral atual emperra bastante a livre circulação da cultura e seus respectivos arquivos digitais e suportes físicos.

    Por exemplo, hoje são interditados legalmente a grande maioria das atitudes de baixar e disponibilizar arquivos digitais e também a grande maioria das atitudes de tirar xerox.

    Agora sumiu até o cronograma!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    No site do MinC, até alguns dias atrás, O CRONOGRAMA sobre o processo de formulação do anteprojeto de lei de alteração da lei de direito autoral, produzido pelo próprio MinC, logo aparecida quando se abria o link da “Modernização da Lei de Direito Autoral” que fica na página inicial do site do MinC

    http://www.cultura.gov.br/site/

    Só que, a partir no final de agosto, ou começo de setembro, SUMIU O CRONOGRAMA deste link do site do MinC. Provavelmente, se você tiver muito tempo e paciÊncia, você consiguirá achar o cronograma no site do MinC. Mas está claro hoje que o MinC não deseja que este cronograma seja visto facilmente – procure no “busca” e veja como é dificl encontrá-lo.

  8. É lamentavel o estado desestrturante a que chegou o Ministério da Cultura! Como produzir, seguramente,Cultura neste Nosso País, e esperar a colheita de bons frutos, da mesma, com um Ministério da Cultura absolutamente desestruturado e cheio de escabrosidades!!!

  9. Vladimir Stallman Magón disse:

    Venha se perder nesse turbilhão….

    Ódio fecundo ao MinC de Dilma de Hollanda.

  10. Eric Poète disse:

    Resposta que dei para a Fernanda, antes de receber o texto emocionante (e ao mesmo indignante, quando toca na situação que tantos estão passando no mundo da Arte):

    “Lindas palavras. Vou incluí-las com carinho ao retrato de um Zé atemporal, onde quero retratar o Zé de ontem, o Zé de hoje e o Zé de sempre; e acho justamente que esse depoimento seu se encaixa fundamentalmente nisso, no Zé como um todo, antes-agora-depois, integrande por supremacia, do quadro teatral Brasileiro, Brazyliano, e Universal, Multiversal.
    Ligá-lo a Glauber e Oswald, qualquer um é capaz, porque é muito explícita essa ligação; assim como o é com Euclides da Cunha quando de sua montagem de Sertões; mas ligá-lo à imagem de Nelson Rodrigues, também dos maiores representantes teatrais de nosso país, assim como ligá-lo a nosso intelecto-popular-tupiniquim por excelência, Villa-Lobo, e ainda ao grande Gregório de Mattos e suas metafóricas lesmas poéticas; sem dúvida alguma não é tarefa que possa ser dada nas mãos de qualquer um; mas você o soube fazer com exatidão.

    Agradeço muitíssimo mesmo o depoimento, e imagino que o Zé vá gostar muito também quando ler essas suas palavras.

    Abraços,

    Eric Poète”

  11. Na arte teatral, no teatro artistico, o Zé celso é o corpo do teatro, pulsante, a fernanda montenegro, o coração!

  12. Zeh, qto tempo…Vou aparecer na Macumba qualquer tarde de domingo dessas…Bjs…Shi

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: