Roda Viva : Energia Milenar do Coro Aqui Agora

No início de fevereiro o Estado de São Paulo publicou uma matéria sobre Roda Viva realizada a partir de entrevista comigo. Como o repórter não tocou no miolo, no mais importante das minhas declarações, escrevi ao Ubiratan Brasil, pedindo direito de resposta. Ele estava de férias e me respondeu gentilmente que passaria ao novo editor do Caderno 2 o texto. Enfim, não saiu a matéria no Estadão.

Publico aqui essa réplica minha e mais três textos:

_ o que motivou minha réplica

_outro deste mesmo repórter feito especialmente para ULTRAPOP, um blog do Yahoo notícias, q não repliquei

_o meu segundo Texto q foi feito para uma entrevista sobre a polêmica surgida com a publicação do Estadão, a pedido do Jornal O Globo, do Rio, para uma repórter mulher. Só publicaram  uma notinha q segue ao final.

Aí VAI:

Roda Viva no Teatro Princesa Isabel, 1968

Ió! Querido Ubiratan

Q decepção!
Q matéria mais que horrível sobre “Roda Viva” hoje no Estadão!
MEDÍOCRE, VENENOSA.

Só fofoca, escravidão à Mídia doente de Celebritite.
Muita intriga.
Nunca mais farei uma entrevista com este repórter.

Falei horas com ele, e o miolo do que falei nem sequer foi tocado.

O importante no acontecimento “Roda Viva” foi a presença surpreendente dos jovens pagãos de 68, que traziam no corpo toda revolução que hoje reaparece no mundo, ainda que reprimida por este tipo de cabeça de gente como o repórter, que luta contra a passagem desta obscura Idade Mydia para um Renascimento difícil da humanidade na Economia Verde.

Estes jovens do eterno “aqui agora”, em 68, invadiram os testes de “Roda Viva” para um Coro de 4 pessoas, e foram todos admitidos, em número muito maior q 4.

Criaram o ponto luminoso Revolucionário do Retorno do Milagre
do Coro Grego no Teatro Brasileiro.

Eu sempre achei “Roda Viva” de Chico um texto maravilhoso.

Nasceu da própria experiência do corpo do grande artista Chico Buarque de Hollanda, quando ameaçado de ser triturado pela máquina da nascente cultura de marketing da Sociedade de Espetáculos no Brasil.

Para se livrar desta praga Chico criou esta obra de valor imenso para o Brasil e para o Mundo, num texto teatral não linear.

Roteiros, Roteiros, Roteiros Oswaldianos. Numa língua sofisticada de palavras, sílabas, notas musicais, soando Nelson Rodrigues. Musicalmente deslumbrante não somente nas canções, mas na sonoridade dos textos phalados.

68 trouxe a revolução cultural do “aqui agora” no mundo
e o Tsunami de jovens que tomaram pra sí “Roda Viva” .

Foram os jovens que tomaram para si “Roda Viva” os autores da Revolução da Beleza do Ritual do “Roda Viva”.

O Poema Teatral de Chico e meu trabalho de diretor foram possuídos por este Vendaval de crianças de 20 anos em 1968.

“Roda Viva” teve sua grandeza histórica e estética obscurecida pelo ataque do CCC, mas a matéria de hoje vem como um OUTRO MASSACRE de “Roda Viva”.

Felizmente há uma jovem pesquisadora universitária, Nina Hotimsky, que está estudando o acontecimento. Nina trabalha para desenfartar este coágulo da ditadura militar e vencer este tipo de ataque com que a escravidão à Mídia dominante das Celebridades, dos Reality Shows, pretende enterrar a cultura viva do DNA de “RODA VIVA”.

Seria de uma justiça histórica a publicação imediata desta réplica à vulgaridade destas porradas de 2012 em “Roda Viva” pelo CCC: Capacho da Cultura-sub das Celebridades.

Por essas é que mais do que nunca, se o amadíssimo Chico liberar “Roda Viva”, por Amor à Revolução Teatral, eu topo montar.

Jose Celso Martinez Corrêa

“Eu quero te contar
das noites que varei
no escuro a te buscar,
das lutas contra o rei
das discussões com Deus
e agora que eu cheguei
eu quero a recompensa
eu quero a prenda imensa dos carinhos teus” *(Citado de Cabeça)*


Zé Celso questiona decisão de Chico de vetar encenação de ‘Roda Viva’

Musical de 1968 é um dos acontecimentos mais importantes da cultura brasileira

02 de fevereiro de 2012 | 21h 00
Pedro Alexandre Sanches/ESPECIAL PARA O ESTADO

Escrito pelo compositor Chico Buarque e levado aos palcos em janeiro de 1968 pelo encenador José Celso Martinez Corrêa, o musical Roda Viva é visto como um dos mitos fundadores da cultura brasileira contemporânea. Ainda assim, pouquíssimos brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer o texto da peça e presenciar uma montagem sua. Chico tem vetado qualquer reencarnação de Roda Viva. Lançado em 1968 pela (extinta) Editora Sabiá, dos escritores Fernando Sabino e Rubem Braga, o texto também está fora de catálogo há décadas.

“Há um tabu social por trás disso, uma coisa que precisa ser mexida”, provoca Zé Celso. “É um resquício da ditadura, uma sequela, uma doença. O fato de Chico não publicar e não deixar montarr é muito estranho.”

O que parece ser uma autocensura de Chico com relação a Roda Viva soa desconcertante porque se trata de um herói pop da resistência à ditadura militar, ele próprio censurado repetidas vezes pelo regime. O autor de Sabiá (1968), Apesar de Você(1970) e Cálice (1973) não dá detalhes sobre o que motiva a interdição, mas reconhece o veto falando por intermédio de seu assessor de imprensa, Mario Canivello. “A justificativa do Chico é simples: ele considera que as deficiências do texto ficam ainda mais evidentes à medida que o tempo passa. Houve um caso em que, se a memória não me trai, alunos da universidade UniRio tentaram colocar em cartaz uma montagem acadêmica da peça. Só esqueceram o pequeno detalhe de que precisavam antes do consentimento do autor”, afirma Canivello.

“Falei com Marieta Severo, ela diz que Chico acha a peça horrível, fraca”, conta Zé Celso, referindo-se à ex-mulher do artista, que interpretou a protagonista feminina de Roda Viva no Teatro Princesa Isabel, no Rio. “Não é suficiente, não se proíbe uma peça porque ela é fraca ou horrível. O artista não pode proibir a própria obra. Quer dizer, pode, se quiser, mas Chico, um sujeito ligado ao lado libertário, não pode.”

Dirigida por Patrícia Zambiroli, a peça da UniRio a que Canivello se refere estrearia no Teatro Glória, em 2005, mas o autor não liberou. Outro que emperrou em Roda Viva foi Heron Coelho, que já havia reencenado os musicais buarquianos Gota d’Água (1975), em 2006, e Calabar – O Elogio da Traição (1973), em 2008. “Por critérios particulares do querido Chico, atendi ao pedido de não levar adiante o projeto, que estava avançado”, admite Heron, cuidadoso. “Cancelei a montagem e passei adiante o patrocínio que tinha.”

Roda Viva ficou eternizada como uma montagem de alto teor político, principalmente por causa dos episódios que marcaram duas encenações em 1968. Em 17 de julho, numa ação batizada “Quadrado Morto”, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o Teatro Galpão, de Ruth Escobar, onde ocorria a montagem paulistana da peça. Depredaram o espaço, despiram e espancaram o elenco, que incluía Rodrigo Santiago, Marília Pêra (no papel que fora de Marieta), Antônio Pedro e Paulo César Pereio. A agressão se repetiu em 3 de outubro, em Porto Alegre, dessa vez por ação direta do Exército brasileiro, segundo Zé Celso. Roda Viva morreu ali, dois meses antes do AI-5

“Hoje, eu voltaria a fazer Roda Viva, de birra. Deveria ser remontada, porque fez uma revolução no teatro brasileiro”, diz Zé Celso. “Chico vinha de uma formação muito tradicionalista, os Buarque de Holanda eram muito religiosos. A peça não tinha nu, mas ainda assim ele pediu: ‘Olha, Marieta não pode ficar nua’. Voltar a Roda Viva talvez fosse libertador, porque deve ter um trauma. Diziam na época que a peça era minha, que era alienada. Ele acreditou nisso”, afirma. Zé Celso também questiona a suposição de que a indisposição atual do autor com a face “política” de sua obra explica sua guerra pessoal contra a peça, estreada quando ele tinha 23 anos.

Roda Viva é constantemente supervalorizada na obra do Chico”, opina o historiador Gustavo Alonso, autor do livro ensaístico Simonal – Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga” (Record, 2011), em que tece considerações sobre a construção da imagem pública de Chico como herói da resistência esquerdista. “Não é um texto político, é uma crítica à jovem guarda”, Alonso afirma.

A preocupação central de Chico à época era criticar as engrenagens da produção de ídolos pop – podia estar se referindo a Roberto Carlos ou mesmo a si próprio. “Ele trata das metamorfoses a que a máquina de marketing obriga Benedito da Silva, que se transforma em Ben Silver, um ídolo de iê-iê-iê”, evoca Zé Celso. “Mas o personagem fica ultrapassado porque vem a linha da música brasileira, é quando canta Roda Viva. Em seguida, surge a turma de Geraldo Vandré, da militância, da música ideológica. E depois é comido pela máquina. É obrigado a se suicidar, e a mulher dele, Marieta, toma seu lugar, vira uma coisa parecida com Caetano Veloso, mas mais pro hippie.”

Zé Celso credita ao coro de Roda Viva grande parte do sucesso da peça em 1968. “Era toda uma fauna inédita, tinha negro, gay, mulher, gente feia, gente bonita, cientista, ambientalista. De repente, caíam em cima daquele público supercareta do início de 1968. Era um estupro, um estupro com exaltação.” Entre os atores do coro, estavam Pedro Paulo Rangel, Zezé Motta e André Valli. “Nós começamos isso no Brasil. Foi um ano antes de Hair, que não é nada diante de Roda Viva. O Brasil nesse sentido foi vanguarda, porque tudo começou a explodir aqui em 1967. No resto do mundo explodiu em 1968.”


Texto publicado no ULTRAPOP, e replicado de uma certa maneira com a matéria que respondi ao Globo.

Chico Buarque censurou “Roda Viva”?

Por Pedro Alexandre Sanches | Ultrapop – sex, 3 de fev de 2012

Escrita por Chico Buarque e encenada por José Celso Martinez Corrêa, a peça musical “Roda Viva” (1968) sofreu na carne as navalhadas do Brasil sob ditadura civil-militar. Poucos meses antes da decretação do Ato Institucional No 5 (AI-5), em julho de 1968, o teatro paulista onde era encenado foi invadido pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O elenco foi humilhado e espancado. Em setembro, o horror se repetiu após uma única apresentação em Porto Alegre, desta vez por ação direta do Exército brasileiro. Em 13 de dezembro, o AI-5 sacramentou definitivamente a mão pesada da censura sob o país.

Depois de 43 anos e de todos os percalços vividos por “Roda Viva”, quem resta em guerra com o texto é seu próprio autor, cujos olhos azuis Zé Celso gostaria de ter colocado no cartaz da peça, boiando numa posta sangrenta de fígado. Como relatei em reportagem publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”, Chico interditou o texto da peça e não permite que ela seja reencenada no circuito comercial.

As razões da guerra particular só o próprio artista poderia desanuviar – e, por razões para mim misteriosas, ele gosta cada vez menos de responder perguntas. Para o Brasil, é (ou deveria ser) perturbador constatar que, nesse caso, o censurado virou o (auto)censor.

Nos acostumamos às atitudes do supostamente “alienado” Roberto Carlos, que, por transtorno obsessivo-compulsivo ou descompromisso político não apenas não canta mais “Quero Que Vá Tudo Inferno” como fez mutilar a reedição de um disco de Nara Leão que continha a música. Ao longo das décadas, o “Rei” já clamou pela censura de um filme de Jean-Luc Godard, expurgou a palavra “mal” de suas canções (e depois voltou atrás), proibiu a reedição de seu primeiro e hoje obscuro LP, abortou reportagens do jornal “Notícias Populares” e tirou de circulação a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”(2006), de Paulo Cesar de Araújo.

A autocensura de Chico, tomado como herói de esquerda e sempre proclamado como o artista brasileiro mais perseguido pela censura nos anos 1970, soa mais desconcertante. Não só os “alienados”, mas também nossos heróis mais conscienciosos tentam por vezes apagar o próprio passado? Quando são eles que o fazem, perdoamos com maior tolerância que se fosse um general ou um cantor de iê-iê-iê?

A fúria censora de Roberto Carlos é célebre, e eu apostaria que tem muito a ver com TOC. Chico, que se saiba, mandou para o limbo “apenas” uma obra – simplesmente a peça-símbolo de 1968, que hoje Zé Celso considera uma antecipadora de “Hair” (orgulho teatral-musical dos hippies estadunidenses). Gilberto Gil, libertário tropicalista de 1968, mirou-se no conluio de Roberto com um juiz-cantor-fã, e fez brecar uma biografia não-autorizada que estava em curso. Certamente há muitos mais exemplos.

Uns entes públicos vetam-se a si próprios (eventualmente vetam, junto, um trecho da história do lugar de onde vêm). Outros se abatem sobre tentativas alheias, por se acreditarem donos e controladores únicos do que produziram para a fruição pública (e para a própria subsistência). Não são “só” eles. De um jeito ou de outro, todos nós (nos) cesuramos (e aos outros).

Por controverso que seja o assunto, é preciso notar o momento inédito – e positivo – que vivemos. No auge da ditadura, a sociedade outorgou a cidadãos fardados e burocratas a tarefa de determinar o que NÓS podíamos (ou não) encarar em termos ideológicos, políticos, comportamentais. Como se fôssemos incapazes, uma comissão decidia em nosso lugar nossa vontade política e nossos “bons” costumes.

Vários estudiosos (como o historiador Gustavo Alonso, autor do fundamental ensaio “Simonal – Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga”, que a editora Record publicou ano passado, após grande relutância) chamam atenção para um fato desconcertante: arrefecida a censura oficial, na virada dos anos 1970 para os 1980 e adentro, o governo federal recebia toneladas de correspondências de cidadãos “indignados” – que exigiam MAIS censura, e não menos. Como indaga Gustavo, seria mesmo esse povo “vítima” de uma ditadura forçada?

Da redemocratização para cá, a censura instituicional desmoronou no Brasil – devagar e muito aos poucos, mas desmoronou. O Estado ainda intervém aqui e ali, e produz desastres e/ou aberrações vez por outra (pense no Pinheirinho, na Cracolândia, em Belo Monte, na Favela do Moinho, na USP, no Big Brother Brail). No mais das vezes, entretanto, cada um tem de decidir sozinho o que pode tolerar e o que o escandaliza. E tem, acima de tudo, de arcar com as consequências de seus ímpetos e atos libertários e/ou censuradores.

Vale para qualquer um de nós: eu, você, Roberto Carlos, Chico Buarque, a presidenta do Brasil, o papa. E não deixa de ser perturbadoramente eloquente que, mortas e enterradas as tesouras censoras “oficiais” da outrora famosa dona Solange Hernandez & seu pares, Chico Buarque se tenha se convertido no censor oficial de “Roda Viva”.


Resposta por email à entrevista pedida pelo Globo depois da matéria que saiu no Caderno 2, para a repórter Cris Tardáguila. A responsabilidade pela não publicação deve ter sido da edição do Caderno 2. A entrevista além de ser longa não é vendável, não cira a polêmica Zé Celso X Chico Buarque.

Leia com atenção as perguntas da jornalista Cris Tardáguila, minhas respostas, e depois leia e veja o q saiu publicado no Globo:

Existe um plano concreto seu para remontar “Roda Viva”?

Não. Arrisquei uma entrevista longa com um repórter tipo inquisidor, sobre “Roda Viva” para tocar esta “Obra Prima”.

Mas o grande acontecimento teatral de retorno depois de milênios do CORO da Tragédia Grega no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro, abrindo o ano de 1968, foi obscurecido pela Repressão da Ditadura Militar:

Primeiro em São Paulo – através do ataque físico aos artistas, técnicos, equipamentos, ao próprio corpo do Teatro Ruth Escobar, realizado pela “Operação Quadrado Morto” e planejado e executado por um Bando paramilitar auto-denominado CCC = Comando de Caça aos Comunistas.

Depois em Porto Alegre, no dia seguinte à estreia da peça na cidade, pela ação militar do próprio Exército Brasileiro, através do 3º Batalhão de Polícia do Exército, o “Porto Alegre 3º B P E”, que invadiu e cercou o hotel onde o elenco da peça estava hospedado para espancá-los nos quartos, perseguu os que tentavam fugir pelas escadarias e corredores do Hotel, bloqueou os telefones para impedir a comunicação com advogados e imprensa de Porto Alegre e do Brasil e raptou a atriz Elizabeth Gasper e o violonista da peça, levando-os para o mato distante, para ameaçá-los com um estrupo.

Depois de toda esta Ação de Tortura Coletiva, meteu todo elenco ferido, sangrando, aterrorizado, dentro de um ônibus despachado para São Paulo.

Em seguida o próprio Exército Brasileiro proibiu oficiosamente a encenação da peça em todo território nacional.

Hoje, quando existe a “Comissão da Verdade”, estes atos devem ter seus atores revelados pois eles realizaram uma forma inédita de Tortura, a Coletiva, de jovens Artistas e técnicos.

Porque? Por terem dado a Luz à uma Grande Obra de Arte revolucionária, inspirada na Obra de Chico Buarque e na minha direção.

Foram esses jovens mesmos, que com seus Desejos Corais do “aqui agora” de 68 comeram a mim e ao Chico e pariram o Rito Coral “Roda Viva” para o Teatro Brasileiro.

Completando sua pergunta, afirmei num texto em que repliquei a matéria inquisitorial em cima do Chico publicada no “Caderno 2” do Estadão. Declarei que montaria a peça se Chico quisesse. O artista é livre em seu querer, é o óbvio que mais irrita os escravos da mentalidade do rebanho, sempre em busca de um culpado.

Minha intenção foi, e é, transformar o Tabu “Roda Viva” em Totem do Teatro Brasileiro e Mundial.

Chico tem toda liberdade de tomar a posição que quiser. Mas como tenho um carinho imenso pela pessoa dele e pela Obra, estou querendo mostrar a Chico que a peça que escreveu menino, vinda de suas entranhas rebeldes, à Máquina de Massacrar na nascente Cultura de Marketing nos anos 60, é extraordinária.

Aconteceu a mesma coisa comigo. Comecei a fazer Teatro por ter conseguido escrever em 40 minutos minha 1ª peça “Vento Forte para um Papagaio Subir”, que juntamente com “A Ponte”, de Carlos Queiroz Telles, estreou o Oficina em 1958.

Logo a seguir escrevi “A Incubadeira”. As duas peças fizeram junto ao público um sucesso extraordinário. Mas havia em São Paulo, no Teatro de Arena, um “Seminário de Dramaturgia” que indexou as duas peças como “psicológicas e “pequeno-burguesas”. Décio de Almeida Prado, considerado o maior crítico de teatro do Brasil, na época, taxou o “Vento Forte para um Papagaio Subir” uma peça “excessivamente simbolista”.

Essas coisas numa época em que dominava o realismo me fizeram deixar de escrever. Minha escrita virou caligrafia da encenação teatral. Perdi as peças. Somente as reencontrei quando fui pesquisar o repertório de Cacilda Becker para escrever a Teatralogia Cacilda!, !!, !!!, !!!!, no Arquivo da Polícia Estadual de São Paulo. Comprado pela USP lá se encontram todos os textos montados no Brasil do começo do século XX a 1968.

Reli as peças e as achei medíocres. Quando completei 70 anos o SESC de Araraquara, minha terra, me convidou para dirigir “Vento Forte…”. Aceitei, e em contato com o Corpo do Texto, para teatralizá-lo, apaixonei-me. Era como reconhecer minha primeira filha. Percebi aos 70 que tinha feito um Teatro Poesia, e que eu mesmo era antes de tudo um Poeta.

Sinto um paralelismo com a posição do Chico em relação à sua 1ª peça.

Foi muita repressão militar somada às fofocas de egos que achavam que minha encenação tinha roubado a peça do Chico.

Os autores deste Fenômeno não foram nem Chico nem eu, mas sim o CORO de jovens Pagãos de 68, que invadiram o Teatrinho Princesa Isabel no dia de um teste para 4 pessoas, para um Coro convencional, e tomaram a peça pra si. Essas pessoas, de um talento extraordinário para a ação teatral orgyástica coletiva, com grande estratégia de jogadores de Teatro, não distinguiam o Palco da platéia, Atores de Espectadores, e recriou a revolução de tocar no corpo dos espectadores. Como acontece no Candomblé, nos Rituais Indígenas, no Carnaval.

Esta devoração do Publico pelo CORO de “RODA VIVA” trouxe de volta a feitiçaria milenar dos Dytirambos Dionisíacos, e ressucitou o Teatro Brasileiro linkando-o com o maior momento de Potência do Teatro no Mundo: “A Tragédia Musicada Grega”. Oswald de Andrade já desejava para seu teatro “a Grécia Carnavalesca do Brazyl”.

Quem faria (ou seria um bom ator para fazer) Ben Silver?

Na peça é claro que importa muito a Protagonização, que foi soberba em 1968, mas os reais Protagonistas de “RODA VIVA” foram os que fizeram o CORO. Coros Autocoroados de Protagonistas jogando, cantando, dançando, em estratégicas rodas de passes vivos entre si e o Público.

Muito mais difícil hoje, do que encontrar os atores que podem protagonizar as personagens da peça, é encontrar o CORO, com o espírito Orgyástico, de Intensidade Inventiva, Poética, Jogo, Esperteza, Inteligência, Sensualidade, Coragem Coroal do Coro Obra Prima – (no sentido literal). CORO DE CRAQUES, como um time de futebol que com Arte e Ciência Teatral, fora do palco italiano, joga para os 4 cantos, céu e inferno do espaço com o Público tomado como Atuador Ativo. Um Time de Titãs! Cada um brilhava e todos juntos explodiam em galáxias. Tenho trabalhado muito neste milênio egóico, competitivo, de fim do neoliberalismo, com Coros. Consegui com muito trabalho, em muitas Obras que criamos juntos no Oficina Uzyna Uzona, através de muito estudo e de uma desconstrução total dos Corpos e das Mentes.

Em 68 o CORO surgiu com força ctônica, telúrica. Brotou espontâneo na Virada do Mundo no “aqui agora” de 68. Tem dado um trabalho imenso reencontrar esta matéria Coral inicial.

A Ideia Fixa nos jovens hoje é que ser ator é ir para TV protagonizar. Traz esquizofrenia na maior parte dos jovens que vivem esta Medíocre Idade Mydia de Celebritite e submissão ao Big Brother.

Mas temos conseguido muito no Oficina Uzyna Uzona e vamos conseguir cada vez mais. “BACANTES” nasceu inteiramente de “Roda Viva” assim como a “TRAGIKOMÉDIORGYA” e a “ÓPERA DE CARNAVAL ELEKTROKANDOMBLAIKA”.

Hoje vivemos a Obsessão de erguer nestes anos de Copa do Mundo e Olimpíadas o TEATRO DE ESTÁDIO OSWALD DE ANDRADE.

Já tentou conversar pessoalmente com o Chico sobre o assunto? Quando? Qual desfecho?

Não, mas num determinado momento fui ingênuo e comecei a tentar me comunicar por ele por entrevistas e textos. Mas o jornalismo hoje é o Purgatório da Inquisição, da Celebritite, da provocação de Intriga entre os artistas, porque “só isto vende”.

Mesmo as perguntas desta matéria revelam às vezes a armadilha da fissura de se cair na notícia q venda. Pode ser que o conteúdo do que estou escrevendo não caiba na estreiteza dos Cadernos das entediantes fofocas culturais. Não sei se vende o que estou tentando passar.

Pedi a entrevista por email porque é abominável o que vejo publicado como se fosse o que eu disse.

Aconteceu há pouco tempo com uma matéria vagabunda que a “Folha Ilustrada” fez comigo sobre as artistas que fizeram plástica. Foi feito tudo pra saírem de minha boca coisas desagradáveis sobre atrizes de Teatro q estão na TV e que amo.

Chico alega que o tempo revelou que seu texto em “Roda Viva” é fraco. Você concorda? Qual sua opinião? O que há de fraco nele?

Nada de fraco. Só tempos fortes. Cacilda Becker dizia que o único pecado do ser humano é não confiar em si mesmo, em sua potência. “RODA VIVA” tem estrutura não linear Oswaldiana, criada pelas vísceras do jovem fígado de Chico. Daí eu ter sugerido em 68 que o cartaz da peça trouxesse os maravilhosos olhos azuis de Chico numa Posta de Fígado Crú. Para mim “O Rei da Vela” é o Primeiro Ato e “Roda Viva” o segundo de uma mesma peça. Duas obras que marcam a revolução cultural de retorno à Antropofagia, consequentemente aos rituais indígenas, africanos, à Rádio Nacional, às maravilhosas Macacas de Auditório, à Música Ditirâmbica Negra Mundial, à música eletrônica dos “Bárbaros Tecnizados”. O adeus ao Padre Anchieta.

A Tropicália, retomando a Antropofagia, operou a descolonização cultural do Brasil. Esta potência cultural que emerge dos baixos, fora da maioria insossa culturalmente da classe média.

Que memórias você guarda das exibiçoes que fez de “Roda Viva”?

Energia milenar acumulada no cérebro arcaico, no meu útero coração:

“Aqui Agora”.

Paixão da Roda Viva de todas as noites e matinês. A Companhia se auto denominava “CU” = “Companhia Utópica”.

Não está na minha memória. Vive aqui agora em mim e no DNA da cultura brasileira neste dia 10 de fevereiro de 2012.

Qual seu interesse em levar “Roda Viva” aos palcos outra vez? Enxerga um momento político ou artístico adequado?

Não é uma questão de interesse nem de adequação ao momento. É Além do Além, é “aqui”. Liberar “RODA VIVA” com um CORO q nada tem a ver com os dos musicais do momento atual é expurgar uma seqüela, um coágulo de 44 anos produzido pela ditadura no Brasil, que tem sido uma rolha no fluxo da revolução cultural brasileira e mundial.

Chico, como todo ídolo, dificilmente é contrariado ou criticado – menos ainda publicamente. Ao dizer que a decisão dele sobre “Roda Viva” é um caso de auto-censura, você de certa forma acaba criticando-o. Como é estar nesta posição? Tem recebido muitas mensagens e telefonemas em torno dessa história? Pode compartilhar?

Eu não digo que Chico autocensura “Roda Viva”. Ele simplesmente não quer que a peça seja montada como eu não queria saber de minhas primeiras peças. Em Teatro, em Arte, não existe essa de forçar ninguém à nada, de julgar as pessoas. Eu Fiz uma peça do Artaud chamada “Para Dar um Fim ao Juízo de Deus”. Nas entrevistas que tenho feito tento passar o fenômeno Estético, de Revolução Política do Corpo Individual e Coletivo que foi e é “RODA VIVA”.

Quando acontece um fenômeno assim na história jamais ele será esquecido. Está no DNA da espécie este “Eterno Retorno”, como diria Nietzche. Ou esta “Evolução Regressiva” como escreveu Euclides da Cunha em “Os Sertões”.

Quais são seus planos para o futuro próximo? Onde está agora e o que está fazendo profissionalmente?

Vamos reestrear em Março a “MACUMBA ANTROPÓFAGA URBANA”, no Teatro Oficina, q saiu com as casas lotadas porque tivemos que preparar “BACANTES” para o Grand Finale do “Ano do Brasil na Bélgica”. Fizemos a peça em Liége e no Teatro São Luiz em Lisboa, 52 pessoas, retornamos ao Brasil, e fomos todos descansar, estávamos todos exaustos.

Este ano nossa nova criação será “ACORDES”, do jovem Bertolt Brecht e do músico da escola de Frankfurt Paul Hindemith. Retornamos aos nossos estatutos da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona, inpirados nesta obra. No Acordo pela mudança permanente. Esta peça é uma Macumba para que seja trocado, como propôs Silvio Santos, imediatamente, o terreno do entorno do Teatro Oficina, tombado pelo IPHAN, por um terreno de equivalente valor da Prefeitura, para que possamos dar continuidade ao que começamos já nas “Dionisíacas” e na “Macumba Antropófaga Urbana”: a ocupação do entorno para lá levantarmos o “Teatro de Estádio”, a “Universidade Antopófaga”, a “Oficina de Floresta”, e reanimarmos o BAIRRO DO BIXIGA, coração da Metrópole de São Paulo, q chamamos de Sampã.

Confesso que fiquei pasmo de gargalhar com a resposta reacionária que em muita gente provocou esta entrevista feita por um repórter que, para vender a matéria, foi na onda do rebanho que quer julgar, acusar, estigmatizar.

Respondi a matéria que gerou toda a mediocridade destas reações ressentidas, mas até agora não sei se foi publicada pois estou nas ondas de “A Mar” que nos transporta de uma Duna pra outra em Jericoacara.

Abraços carinhosos,

de Zé

EVOÉH

Eu não sabia que tantas perguntas eram para aquela página de “entretenimento”, quer dizer, de “serviço”.

Acho q meu Blog vai ser enormemente insuportável com as imensas publicações que envio e que a Mídia joga no Lixo, sem revelar ao menos um breve resumo do CONTÉUDO.

E isso num dos jornais de maior penetração no Brasil.

Como eu sou Idiota!

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4 comentários
  1. Zé, você não me conhece, mas quero que saibas que quero que a Roda Viva!

    Viva, também, o Coro Milenar (e eterno) Aqui e Agora, porque esse mundo plastificado, de Fantasias, está ficando cada vez mais chato!

    “Vem, mas vem Sem Fantasia”

    Viva o Zé do Oficina e a Oficina do Zé!

    A “apolonização” exacerbada do mundo sufoca-o e massacra as pessoas.
    (Eu, inclusive, que preciso ser resucitado por Dionísio!)

    “Que da noite pro dia
    Você não vai crescer!”

    Tenho, por toda minha vida, apostado no equilíbrio onde todos (sejam homens, mulheres, hermafroditas, viados, lésbicas ou travestís) tenhamos dentro de si um Apolo Tesudo e um Belo Dionísio!

    Não tinha idade para ir ver Roda Viva!
    Com 16 anos, via a montagem de Hair!
    Enlouqueci.

    Hair foi “comprado/vendido” por/para Apolo.
    E assim “fui (fomos) recuando, recolhendo fúrias”.

    Hoje, estou louco pra Viver a Roda Viva do meu “amado” Chico: a obra de Chico foi, em grande parte, responsável pela minha formação AMORAL e ideológica!

    Hoje, talvez tenhamos distanciamento suficiente para VER e viver Roda Viva com maior potência.
    O Brasil precisa!

    Vivamos a Roda, com a força de resgate, numa oitava acima!

    “Vem, por favor não evites,
    Meu amor, meus convites,
    Minha dor, meus apelos!

    (Tudo de memória! Tudo PELA memória!)

    O Brasil PRECISA da Roda Viva de Chico. Ele sabe muito bem “contar/cantar” nossas Tragédias. Gregas ou não.

    Junto com o Paulo, Chico fez as Pontes (perdoe a pobreza do trocadilho) : -) entre Vianinha e eu, nesse instante, com a Roda Viva.

    Por isso, sei que Chico sabe que

    “Tudo está na natureza, encadeado e em movimento!

    Que a Vida Pulsa e não para!

    “… Até agora, eles estavam comandando meu(nosso) destino, e eu fui (nós fomos), fui recuando, recolhendo fúrias!”

    O Oficina/Zé pode Tissunamizar a “onda, tão forte quanto me(nos) imaginam fraco(s)”!

    A Joana era a força da Gota D’água (que Luiz Antonio, teu irmão, Zé, – pra quem não sabe – tão “lindamente” dirigiu).

    Não Jazão, vendido pro mundo chato e sufocante do empreendorismo!

    Zé, pra você e para o Chico:

    “Ah, eu quero te dizer
    Que o instante de te ver
    Custou tanto penar

    Não vou me arrepender
    Só vim te convencer
    Que eu vim pra não morrer”

    Juntemo-nos, Chico, a Dionísio para resucitar nosso Coro, Aqui e Agora, cantando a sua Roda, des-cegando o que as pontas das baionetas, Edipianamente?, nos impediram de Ver, Viver esse capítulo escondido, entalado nas gargantas de quem, nas ruas, gritava contra a truculência!

    Zé, já sou, e sempre fui, espiritualmente, parte do Coro Aqui Agora!
    Você querendo, e eu podendo, ajudarei no que puder!

    Fui eu que te ligou ontem, domingo, dia 4/3/12, no final da tarde.

    Será que essa nova Roda Viva não pode ser uma espécie de documentário da nossa trajetória humana: esse Yin e Yang cósmico Universal, Nacional e Individual, vivida, na polaridade Apolo/Dionísio, no Teatro Estádio para todo o mundo, ver e viver, em 2016!?

    Obrigado por me ouvir, por SER e Criar!
    Estamos aí!
    Evoé!
    Reinaldo Renzo

  2. Vladimir Stallman Magon disse:

    Vamos para o grando coro do Fora Ana de Hollanda, a ministra do ECAD.
    Matéria de Jotabê Medeiros desvenda as já conhecidissimas ligações entre Ana de Hollanda e a corja do Ecad:

    link para a matéria=> http://www.farofafa.com.br/2012/03/12/ministerio-do-ecad/3496

    Pela livre circulação da informação e da cultura!!!!! Fora Ana de Hollanda e Grassi (tucanão).

    Por um Minc de esquerda….

    C O P Y L E F T!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Vladimir Stallman Magon disse:

    O Ecad confecciona uma peça de defesa, o Ministério da Cultura a endossa e agora o Ministério Público Federal sugere, com base nas justificativas apresentadas pelas duas entidades, o arquivamento do processo que o próprio Ecad sofria. Parecer do procurador regional da República Luiz Augusto Santos Lima, representante do MPF no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), entende que o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição e suas associadas têm legitimidade para cobrar os direitos autorais no Brasil, podendo fixar o preço da licença, e não há necessidade de concorrência nesse setor. O blog Farofafá teve acesso ao parecer do MPF, cujo teor traz novas revelações sobre esse intrincado jogo de poder que move a cultura brasileira. É mais um capítulo de Ana de Hollanda no país do Ecad, reportagem exclusiva publicada ontem que mostrou como o MinC vem agindo em defesa do órgão arrecadador de direitos autorais.

  4. Zé Celso, tá surgindo uma nova teologia da libertação.

    O quinto impéryo começará em bom despacho (MG) e o messias é de Araçatuba (SP):

    É fácil entender. Essa visão da história ela parte do princípio da Idéia Absoluta. Toda a história se desenvolve a partir da Idéia Absoluta. E a Idéia Absoluta é Adão e Eva girando em torno de um centro, Deus. Todo o devir histórico é o retorno da Idéia, alienada de si com o pecado original. O retorno de Eva se deu com a religião cristã, e o retorno de Adão com o socialismo marxista. Tese e Antítese. Retornaram ambos mas ainda estão no patamar antitéticos. Eva e Adão AINDA NÃO SE AVISTARAM. Quer dizer, já se avistaram, mas ainda não se encontraram para novamente se abraçar e se amar. Adão avistou Eva através da Escola de Frankfurt, e Eva avistou Adão através da Teologia da Libertação. E o momento em que se encontram e novamente se abraçam e se amam é com o SOCIALISMO CELESTIAL. É o momento glorioso do Casamento do Cordeiro. E bem aventurados os convidados para a sua refeição noturna. O escopo, então, da História é que a Idéia Absoluta está se transformando no Espírito Absoluto, Jesus de Nazaré.

    Vc bem que poderia divulgar o socialismo celestial e montar uma peça divulgando a boa nova:

    http://anovateologiadalibertacao.blogspot.com/

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