Dedeto fenômeno de beleza

Dedétooooo
Luissss
Luis Roberto
Salinas Fortes

Nosso 1º encontro virtual Dedéto
traz o re-Féto
“Retrato Calado”
re-parido agora e phalado.
Na pele, fibras,
escuta-se teu silêncio sutil não calado
no LIVRO
produzido, distribuído
pela Editora Cosac Naify
cozinheira exata pr’esse roast-beef
ser de novo antropofagiado,
mastigado macrobioticamente.

O jornalista Ferraz,
fazendo cumprir a lei novíssima
trouxe documentos inéditos sobre você,
recém liberados pelo Arquivo Nacional,
na esteira da Lei recém-nascida de Acesso à Informação.

FERRAZ
O que gostaria, basicamente, é que você contasse, por favor, sua experiência e amizade com Salinas.

Estava conversando com ele como sempre fizemos e faremos.

Para mim ele está vivo em mim e em todos que receberam sua benção de tolerância, e sobretudo de BELEZA.
Dedeto morreu de repente, ele nem sabia que estava a ponto de seu coração explodir.
Eu não estava presente.

Dedeto era e é, veja a foto, uma Epifania da Beleza.
O homem mais lindo, santo diabólico adorado de minha geração.
Tinha o sangue dançando transparecendo em delicadas teias
nos olhos verdes de mulata,
cambiando pro azul,
mas sempre transparentes,
até de óculos.

O rosto com zonas pintadas por uma deusa pontilista.

Topete imenso
com raízes de nascimento em V,
na testa,
florestado por todo crânio.
Nós todos que o vimos
aproximamo-nos desta beleza Trans Humana,
meninos
meninas
apaixonamo-nos por Ele à primeira vista.

Havia o tempo
antes de Dedeto
e o
depois de Dedeto
e as pessoas mudavam com a simples presença dele,
pra sempre.

Fenômeno de beleza
doçura desengonçada
estoica cataléptica James Dean.
Corpo de Filósofo inCorporando a Filosofia
dançando nela,
não se deixando capturar nunca
pelo Mundo Enfeitiçado que não sabe dar valor
ao amor à sabedoria no próprio Corpo e no do Outro.

Mesmo com o Corpo Torturado pelos Escravos deste Feitiço que é o Capitalismo Patriarcal, Militarizado, Marketizado, caindo pedaços de carne, mas o Corpo-Alma permanecendo mais Fortes que nunca.

Pois é um raro Filósofo que sabe dar valor a tudo que ninguém dá.
Pois sabe da Transvalorização de tudo vinda de Nietzsche e do Tabú Virando Totem do filósofo brasileiro que mais admirava, Oswald de Andrade.

Sua principal potência era a de valorizar. Trabalho difícil que cabe ao filósofo, não ao Economista, que só tem o cálculo abstrato da Moeda.
E quando valorizava investia, se dava, escrevia, atuava, com este Poder esculpido no seu rosto, em seus olhos que viam o fundo de nós mesmos. E nos regava de Afetividade. Acho que Maiakowiski, Cacilda Becker, tinham esta presença arrebatadora. Só que nele era a modéstia total, a absoluta falta de vaidade.

FERRAZ
Quando o conheceu?

Foi em Araracoara, já no Ginásio, depois no “Clássico”,
daí na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, como todos nós representado de óculos escuros, pra dormir nas aulas repetidas por anos, publicadas em apostilas, que decorávamos juntos tomando a anfetamina sartriana: Pervitin.

Carlos Queiroz Telles, como todos nós na Faculdade, estávamos focados em criar o Grupo Oficina. Lançamo-nos no “Teatro Novos Comediantes”, um teatro espírita onde nós acabamos virando a mesa branca e lá estamos há mais de 52 anos.

Dedeto escreveria por um bom tempo, todos nossos programas. Era nosso intérprete. Sabia avaliar nosso trabalho de Teatro, para ele
Teatro Filosófico como Festa Pública, sem representação. Advinhou onde estamos chegando agora depois de 25 anos: às viagens em Pré Teatros de Estádio para Multidões, a “Copa de 2014 no Teatro de Estádio Oswald de Andrade”.

Ele foi o 1º galã da 1ª peça encenada no Oficina: “A Ponte”, de Carlos Queiroz Telles. Seu rosto lindo é uma página grande de perfil, diante da atriz Alzira Cunha, que foi publicada em todos os jornais da Época.

Foi a 1ª Imagem de Ator do Teatro Oficina.

No acervo da Folha deve ter. A estreia foi no dia 28 de outubro de 1958, a crítica deve ter saído com a foto na madrugada do dia seguinte, 29, como era costume naquele tempo. Ou talvez antes no material de lançamento da peça.

Nesse tempo ele já fazia Filosofia na USP e este trabalho dele no Oficina tem tudo a ver com o que escreveu sobre o Teatro de Rousseau.
Teatro Público, de Estádio que é pra onde caminhamos.
Tanto que antes de morrrer repentinamente, diferentemente de nossos colegas de geração, ele sempre esteve no Oficina. Já tinha Cátedra quando voltamos do exílio e ele continuava não somente a nos acompanhar na Pista do Oficina, mas na nossa vida de camarim. Fumando Maconha, tomando ácido, mas tudo muito tranquilo. Levando presentes, até arrumando dinheiro nos momentos mais difíceis da Cia. Éramos Tabú, principalmente no  meio Universitário, quando retornamos do Exílio. O nosso grande público estudantil dos 60 repudiava nosso desregramento de todos os sentidos, o desbunde. Dedeto, como eu, apoiamos nossos amigos que iam pegar em armas, mas nunca abandonamos nosso Corpo em movimento no que nos apaixonava na Arte de Viver, percebendo-nos, tendo nas nossas escolhas, Paixão Absoluta, rimbaudianamente.

Dedeto na Filosofia, eu no Teat(r)o.

A descoberta da grande revolução que se dá hoje em direção a Economia Verde veio muito mais dos desbundados do que dos que pegaram em armas. Pena ele não ter podido ver os Rituais de Arte Pública que desejava, tornando-se visível com a inauguração do Teatro Oficina de Lina Bardi e Edson Elito, com o “Ham-Let” de Shakespeare no Corpo-Alma do Grande Marcelo Drummond.

FERRAZ
A amizade foi frequente? Durou até quando?

ETHERNAMENTE. Não compreendo que, com o convívio diário com esta  Beleza de Pessoa, desde Araraquara, na piscina, onde o tesão da juventude brota no “Esplendor da Herva da Água Verde”, nunca tenhamos nos sentido Amantes Amados. Para nós a Arte, a Filosofia, a Beleza, a Música, compunham uma novidade muito poderosa: a Política da Afetividade, da AMIZADE DOURADA.

Criamos com este amor um Tyazo, como chamavam os gregos as Companhias de Teatro. Roberto Piva lindíssimo, forte, passava as férias conosco em Araraquara. Também Marco Antônio Rocha, morador da “Morada do Sol”, juntamente com Inácio de Loyola, Plínio Pimenta, Antônio Marcos Pimenta Neves e muitos outros.

Foi se formando naturalmente uma corrente de ouro de amigos. Criamos um Centro Cultural. Uns bem à direita. Dedeto sempre à esquerda libertária, absoluto.
Não admitia partidarismo nem bodificação.
Era elegante!
Lemos sincrônicos, comentando juntos, “Ideologia e Utopia”, de Karl Manheim, o que nos afastou dos “ismos”, e começamos a trabalhar com a juventude do PTB (de Brizola, Getúlio, Darcy Ribeiro) no ISEB, “Instituto Superior de Estudos Brasileiros”, de Roland Corbisier, Guerreiro Ramos… Trazíamos os filósofos desta esquerda ligada que incluía o povo brasileiro todo, para conferenciarem em nosso Centro Cultural em Araraquara. Os  marxistas vulgares renegavam a maioria da população brasileira que não tinha carteira assinada, chamavam o povo de lumpenproletariat.

SARTRE E SIMONE NO BRASIL EM 1961
Quando Sartre e Simone de Beauvoir chegaram no Brasil saltamos logaritimicamente os Caminhos da Liberdade, descobrindo novas veredas. A Dupla SS, Simone e Sartre, conseguiu reunir todos os movimentos: estudantes, camponeses, operários, intelectuais, políticos, escritores, artistas plásticos, músicos, sambistas.
E o Grande acontecimento foi em Araraquara.
Depois de uma conferência “técnica” de filosofia para poucas pessoas, veio a  ÁGORA.
Um encontro de um Brasil Bio-Diverso, unido nas Reformas de Base que fervilhavam. Este encontro de movimentos contraditórios encontrou seus roteiros de energias coletivas contraditórias para a AÇÃO, no belíssimo Teatro Municipal, semelhante ao de Fortaleza, todo voltado para os jardins que o cercavam na Praça Central da Cidade.

Este local foi criminosamente derrubado por um prefeito da família Lupo, das meias Lupo, (que uso) para dar lugar a um arranha-céu “moderno porque era o mais alto”, onde instalaram-se os prefeitos da Ditadura Militar.

O Fato Histórico da União dos Contrários em direção à Transmutação do Brasil: Ligas Camponesas, dos Operários Sindicalizados, Cientistas, Estudantes Artistas encontrando-se no Teat(r)o Circular produziu a matéria energética de um Período Intenso de comunicação entre os brasileiros e o Mundo. A Dupla misteriosa trazia o “Furacão de Havana” de Cuba, recém revolucionada, preparando-nos para a Revolução Tri Continental, liberta do Maniqueísmo da  GUERRA FRIA.

Explodíamos de tesão, de amor, de revolução, de reinvenção da filosofia, o Teato, o Cinema, as Arte Plásticas.

REPETINDO O MISTÉRIO DO AMOR
É inacreditável, que nunca tenha passado por mim, que convivia com o mais Belo dos Homens, ter pensado em sermos Amantes, Amados. Éramos sim, mas numa forma de Amizade Dourada, Teatral Filosófica, mais que isso, era a AFETIVIDADE QUÂNTICA E BIOLÓGICA COMO POLÍTICA DA BELEZA DA JUSTIÇA SOCIAL QUE RENASCIA NO BRASIL COM ARTE E CULTURA.

FERRAZ
Sobre o livro “Retrato Calado”, especificamente, impressiona a frieza do relato dele sobre a prisão e tortura. Você conviveu com ele nos 70? Ele falava muito da repressão?

Não era jamais um ressentido. Ele e Flávio Império, de nós, foram os mais torturados e os primeiros.
Dedeto teve ferimentos graves que quase implicaram na amputação de seu pé. Ele e Flávio não criaram um jardim de vinganças, de lamentações.
Dedeto adorava Camus, que tem este sentido estóico da vida.
O Filósofo sofria, mas como Graciliano Ramos, apreendeu a estudar as “Memórias do Cárcere”.

A Tortura, como o assassinato de meu irmão Luis Antônio, 4 meses após a morte de Dedeto, foram os momentos mais Trágicos de minha vida.
Teatralizamos, escrevemos tudo que passamos o mais que pudemos, negando em absoluto a Autopiedade, a Culpa, o Marketing da Vítima da Tortura.
Mas Dedeto no “Retrato Calado”, desdramatiza a Tortura. Não é frieza, ao contrário, não faz a demagogia do Drama da Vítima. Pois se vê que a Tortura era e é ainda uma Indústria, aliás subvencionada por Industriais, Banqueiros e o próprio Estado Brasileiro.
Nós éramos um produto ao mesmo tempo objetos da encenação de um drama.
De nós deviam ser arrancadas informações, então tínhamos que passar por esta máquina de muros falsos, de sermos cobertos com capuzes como os da “Ku Klux Klan” – mas não eram brancos, eram pretos – tomar choques elétricos no nosso escroto, pendurados num Pau de Arara.
Todos os torturadores não são mais que escravos representando o papel de anti-subversivos, e anti-pobreza.
Quando eu estava na Solitária curando as feridas da tortura ouvia todos torturadores dançando e cantando juntos “Qua Qua Ra Qua Qua, fui eu”.
Nos documentos a que você Ferraz teve acesso, você viu. Só tem besteira. SNI que não sabe informar quem era este belíssimo brasileiro, sua contribuição para a Filosofia, para o Teatro, para a Escrita e sobretudo para a POLÍTICA DA AFETIVIDADE. Hoje os neurocientistas afirmam que o átomo, para produzir qualidade, precisa da afetividade humana de quem faz as coisas, seja a comida, seja dar aulas, seja ser político.
E é incrível que até hoje temos que engolir o sapo dos gorilas sem querer enfrentar a realidade da Tortura.
São pessoas que não têm a noção da Beleza e da grandeza deste ser no tempo, o humano, em direção do transhumanos.
São uns coitados, mas que não podem mais ter o Poder de fazer o que fizeram com nossas vidas e continuam fazendo.
O Retrato Calado retorna o poder do LIVRO para escutar o que até agora nunca foi dito, pois continuamos num Grande Enfeitiçamento pelo Fetiche da Mercadoria.
Dedeto é um filósofo que tirou sua filosofia de suas leituras claro, mas sobretudo de sua experiência afetiva de seu Corpo Alma transbordante de Generosidade.
Eu queria escrever muito mais, mas me encontro com o Coração meio Arritimado, excesso de Trabalho.
Quero descansar, meditar mais, estar com Dedeto revendo nossas conversas e recebendo dele Valor, Valor e mais Valor, de sua Generosidade perceptiva.

José Celso Martinez Corrêa

Só hoje me caiu a ficha que Luis Roberto, meu amigo, e Luis Antônio morreram no mesmo ano. A Velhice é uma novidade porque vamos relacionado tudo com tudo e vendo a Grandeza da Vida ser Mediocrizada pelos enfeitiçamentos da Sociedade de Espetáculos e Mercadoria.

Estou louco para reler Dedeto.

EVOÉ

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