Sobre Elia Kazan

Entrevista, na íntegra, para a Revista Monet sobre o cineastra Elia Kazan.
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É inevitável que toda vez que se fale de Elia Kazan, se mencione o episódio da delação dos colegas do Partido Comunista. Você acredita que, de alguma forma, esse episódio influenciou a leitura da obra de Kazan no cinema?

KAZAN, como Chaplin, Brecht, diante da PRESÃO Comunismofóbica do MACARTISMO driblaram o interregatório.

Ele mesmo era membro do Partido Comunista e tomou partido na Guerra Fria com os que queriam a Paz com a URSS.

Todos seus  amigos artistas vinham como ele da Era Rosevelt, do New Deal, que dava um valor incomensurável ao Teatro como forma de Cultura de uma Democracía Social para Crise de 29 nos EEUU.
Criaram Group Theatre, ligado à URSS, principalmente por Stanislawiski, que nem comunista era.
A ligação destes artistas era muito mais pela Paz, e pela importância que a URSS dava ao Freud do Teatro: Stanislawiski.
Foram os introdutores de seu Metodo (Method) de intepretação nos EEUU que deu na maravilha do Actor’s Studium. 
Como diz Martim Scorsese na sua declaração de amor cinematográfica à Kazan” A Letter to Elia”
Kazan cresceu muito depois desta experiência Trágica, desde “O Sindicato de Ladrões” passou a tratar destes temas que o atormentavam como“traição ou não ? “ E seus filmes até o derradeiro cresceram numa progressão exponencial até seu último filme de 1976:“O Último Magnata” .
Eu não tinha idade, nem informação sobre o Marcatismo que fui estudar depois quando fiz a 1º peça de estréia do Teatro Oficina ” A VIDA IMPRESSA EM DOLLAR” (Awake and Sing de Clifford Odets), então muito influenciado pelo Actor’s Studium, Eugênio Kusnet e o Método que Célia Helena, Fauzi Arap, Renato Borghi, Etty Frazer e eu inventamos.
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Então quando ví James Dean, Julie Harris, Jo Van Fleet, Burl Ives, “Vidas Amargas”, “Marlon Brandon e Vivien Leihg” no “Bonde Chamado Desejo” e não somente eles, mas todos atores dirigidos por Kazan, Warren Beat e Natalie Wood no “Splendor in the Grass”, seria uma lista infinita, PIREI!
Eram atuações em que o ator e a atriz, saiam de seus limites humanos demais, clichês,e respiravam suas personagens, numa transfiguração em que se sentía a Poesia da presença deste bruxo Grego-Turco-Americano. Suas personagens abriam-se para o clima, para a temperatura, para a sensualidade numa forma erótica greco-dionizíaca, sua Baby Doll, que ví só no YouTube, trazia a presença da Grande Poesia de Rimbaud e Artaud. Já era a nouvelle Vague, já era o cinema Europeu na Luz, na Imagem, e mais, pois seus atores atuavam em consonância com a Poesia deste mais que diretor, deste Poeta.
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Em seus filmes o erotismo pleno de anima pairava em toda película e nos envolvia em estados de tesão e apaixonadamente que inundava o Cinema de Araraquara.
Foi o diretor que mais me influiu, sem dúvida nenhuma. Fiquei velho, parecido com ele até.
Em entrevista no ano passado para a Trip, você falou que após assistir a Um Bonde Chamado Desejo, descobriu que a subjetividade existia também “lá fora” de você mesmo e que Elia Kazan revelou isso a você. O que Blanche e Stanley manifestaram em você?

Exatamente a existência do Outro, em mim mesmo como Rimbaud que diz  “Eu é um Outro”

Não somente o que disse na TRIP, descubro agora que muito mais. Vivien Leigh por exemplo é uma atriz bipolar, sofreu muito com a esquizofrenia. Mas na realidade este lado louco seu, a fez aproximar-se do Teatro de Artaud através de Kazan. Ela é a personagem, mas a Outra, a mulher porosa ao mundo cósmico, misterioso. Não é uma interpretação psicológica, é uma transfiguração nitzcheana de uma Trans humana. Todos atores de Kazan respiram, são plenos de fendas, por onde entra a luz, a música, a Poesia, mais importante que tudo: o Outro que é o ARTISTA, está em nós mesmos. Eu descobri vendo o “Bonde” que todos tinham esta subjetividade surreal ligada ao Outro. Por ex. Eu sou Zé Celso, meu número de identidade é 1986056-0, mas como artista eu sou o OUTRO, não é o Zé. Odeiam quando estou em cena e me chamam de Zé Celso. É que eu radicalizei tanto este “OUTRO” que chegou nas entrevistas de TV, onde sou transparente e deixo-me comunicar fora do boneco da minha personagem.
Kazan foi co-fundador do Actor’s Studio e fica claro em toda sua filmografia a importância que ele dá ao trabalho de ator. Você acredita que ele poderia ser chamado de um “diretor de ator”?
Não acredito em “diretor de ator”, este termo é muito tecnocrata. Kazan como eu somos Poetas e entramos em contato com os Atores de uma forma  a incitá-los a decobrir eles mesmos seu Poder Xamãnico.

Kazan é muito mais um Feiticeiro, um Xamã. O mundo hoje é enfeitiçado pelo fetiche da mercadoria, do consumo. Kazan faz a bruxaria contraria, ele desvoduza estas personagens “clichês” da sociedade de consumo, como os atores de novela. Por melhores que sejam, não mostram sua alma. Porque suas personagens estão aprisionados em clihês morais. Kazan é além do bem e do mal: BRUXO.

E finalmente, quais os filmes de Kazan que ficaram cravados na tua memória e por que?
Todos que ví e que não ví ainda, como “BABY DOLL”. Amo Kazan como amo cada sílaba de Nelson Rodrigues, cada romance, peça, crítica, filosofia, tudo de Oswald de Andrade e Tenesse Williamns que eu adoro e sonho fazer uma peça dele.

Adorei uma que parece peça de Oswald, Kazan dirigiu no  Teatro “CAMIÑO REAL“.

Não posso me esquecer da tesudíssima Patrícia Neal em “UM Rosto na Multidão”, Gregory Peck em “A LUZ É PRA TODOS”, ” América”, que é Pasolini Puro.
Em minha memória arcaica está Kazan.
Demorei para descobrir que pra mim foi mais importante que Brecht, comparo-o a Meyherhold, Artaud, Pasolini, Godard….a todos os maiores… a tudo que ele consegue através do que quero mais conseguir, já  com 75 anos: O ATOR ELÉTRICO COMO CACILDA BECKER. Ela era uma atriz do mesmo nível das bruxarias deste Xamã Kazan.
Escreví 4 peças sobre ela, montei duas e vou montatr o ano q vem mais duas : O TBC e o TCB.
Cacilda tinha um Carisma, uma presença que engolia toda a tralha teatral e transmutava tudo: os cenários, as péssimas traduções dos diretores do TBC de muitas peças do TBC e do TCB, mas era como uma Xamã que tem muito a nos passar.
Vou rever todo Kazan para fazer Cacilda!!!  e Cacilda !!!!
E vou injetar Kazan na montagem que vou fazer de uma peça que fez 83 anos, há três dias “ACORDES”, de Brecht e do Músico de Vanguarda Paul Hindemith. Vou comer ao molho mix Oswald & Kazan.
Conheci Vivien Leugh, ela ficou muito amiga de Maria Fernanda que fazia a Blanche numa versão do Teatro Oficina em 1962. Ia sempre ao Oficina. Gozei com a peça e com a presença dela e de Madame Morineau (que fez Blanche com Jardel Filho) vendo o espetáculo dirigido por Boal com produção dos meninos da Bigorna.
Era lindo, tão Kazan!
As Vezes deus vem tão depressa!
 
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1 comentário
  1. Meu coração se alegra. Pulsa ao ler tuas palavras. Nossos trabalhos com-juntos como atriz e você diretor, sei bem
    o que dizes. Saudades. Muitas Saudades amado que foste, amigo que és.

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