Carta Aberta a Presidente do Condephaat, Ana Duarte Lanna – parte 3 de 4

Terceira parte da carta aberta a Presidente do Condephaat, Ana Duarte Lanna, respondendo a seu texto apresentado em 9/9/2013 ao órgão que preside, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo que, em maio deste ano, autorizou a construção de duas torres residenciais ao lado do Teatro Oficina, tombado por este mesmo órgão em 1982.

A primeira e a segunda partes da carta já estão publicadas nesse blog. Amanhã será publicada a quarta e última parte.

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Porque Teat(r)o e nunca Teatro?
Sabe porque colocamos em parênteses o “r” do Teat(r)o?
Porque em 1970, no momento em que a repressão impunha a mensagem à força da Tortura e do Inferno Publicitário do “Ame-o ou Deixe-o”, as pessoas estavam sob o impacto violento que o AI-5 impunha ao querer dos brazyleiros. Nos trancamos todos por um mês no Oficina e começamos a tentar descobrir um meio de sair daquela repressão que nos deprimia e nos deixava descrentes. Criamos com nosso Corpo a Lição de Voltar a Querer – a Re-Volição – através do Te-Ato (de Ação) que é o existir fora da representação. Passavamos semanas sem nos falar somente nos comunicando por ações. Nesta época as pessoas não podiam mesmo falar nada, era tempo do “tá legal?”, “estou na minha”, “corta essa” – nem isso falávamos, e fomos descobrindo a energia poderosa do silêncio. Poderíamos nos comunicar com as pessoas simplesmente transmitindo as vibrações de nossos Corpos em Ação, nossos olhares e emanações de nossas eletricidades. Criamos então o Gracias Señor em Te-Ato, quase sem palavras – estávamos contra o Paredão, como o Beco Sem Saída do Oficina. Viajamos o Brasil levando nas capitais “Os Pequenos Burguêses” de Gorki, “O Rei da Vela” de Oswald de Andrade e “Galileu Galiei” de Brecht. Nos embrenhávamos no mato depois de nos apresentarmos nas capitais, penetrávamos os Sertões do Nordeste já pagando com as bilheterias das capitais as pesquisas de Te-Ato que começamos publicamente em Brasília, no Campus da UNB totalmente vigiado por um almirante da Marinha, reitor da Universidade.
Criamos a partir do que observávamos em caminhadas silenciosas pelo Campus com nossas ações ligadas ao que apreendíamos de mais decisivo vitalmente pra aquele momento em que a Universidade era um Campo de Concentração. De lá partimos para o Nordeste até Manaus fazendo, nos momentos comprados com nossos clássicos, ações ligadas ao campo – aos “Sertões” e íamos passando como Conselheiro e os Conselheiristas: mudos, construindo pontes, ligações entre as casas com, por exemplo: Colchas de Retalhos que fabricavam pra vender no Sul e que eram rivais na disputa do mercado. Com pedaços de tecidos de cada casa, sem dizer uma palavra, emendávamos os panos de rivais e fomos formando uma grande caminhada até formar com todos os habitantes um enorme tecido. É difícil dizer o que eram os Te-Atos naquele contexto. Mas é o que acontece, por exemplo, em “Cacilda !!!”, que está em cartaz no Oficina, com uma das 3 atrizes que fazem Cacilda – a Sylvia Prado, que tem um bebê de 7 meses. Se ele chora, ela apanha o filhinho, dá de mamar e continua atuando mas interpretando, incorporando as ações da personagem às novas interpretações que nascem na hora que ela deve dar de mamar. Sem dizer, sem explicar nada, somente incorporando essa circunstância às da personagem. Então são estes os “aspectos essenciais da trajetória recente do teatro brasileiro e paulista e do peso que ele teve…”. Não! Não se trata do passado. Corrija este seu novo equívoco Ana Lanna e troque por o “que ele tem de atual hoje, em 2013, em nossa Vida Cultural”. Não o “das representações que uma parcela da sociedade fez dela toda” como você escreve. Não como num “Museu Histórico” mas com poucas representações e muitas presentações. Quer dizer: muito Te-Ato ou mais precisamente “Teat(r)os” – com ações vitais dos aqui agora de cada instante.

Nós continuamos a influenciar até hoje o Teatro no Brasil e no Mundo. Isso não ficou no passado, ou melhor, é passado futuro presente.

Vocês deviam ver nossas peças para nos entender.

Produzimos DVD’s profissionais e transmitimos pela internet, com legendas em inglês, todos os nossos espetáculos e trabalhos, como foi o encontro com você na USP e a “Audiência Publica” do dia 5/9 em que se percebe, nos vídeos e nas fotos, que você e o Secretário de Cultura estão, mas não estão “presentes”, não estão ouvindo ninguém, paranóicos, achando que todos estão contra vocês. Basta ver suas caras nas inúmeras fotos vindas de muitos fotógrafos que nos enviam.

Essas gravações e transmissões diretas revelam o Te-Ato através de nossos Corpos, nossas posturas. No Teato não existe somente a palavra falada – está mais presente do que nunca no Corpo Presente, em seus Silêncios ou na falta de atenção, concentração, ligação. Tudo isso é muito teatalmente visível. Nos anos 60 a Polícia Federal publicou matéria paga nos jornais com o título:

“Como Eles Agem”

Escreveram que nós tínhamos sido treinados por hipnotismo por comunistas chineses, pois não compreendiam como o público chegava a atuar conosco sem que pronunciássemos uma palavra.

“O tombamento do Teatro Oficina pelo Condephaat não se refere ao valor arquitetônico do edifício”.

Tem razão, pois o edifício que hoje abriga as atividades da Companhia Teat(r)al não existia em 1982. Existia sim, o projeto, que continua a existir, hoje realizado em parte. É este projeto que precisa da complementação no entorno do bem tombado. Agora o Condephaat está ameaçando querer destruir mais o projeto total de Lina e do Oficina Uzyna Uzona.

“A desapropriação do Teatro Oficina, ato diverso do tombamento, ocorreu em 1984 e em nada alterou a resolução de tombamento do Condephaat. Alterou apenas o proprietário do imóvel, que agora é o Estado de São Paulo.”

Sei que você Ana entende o “Teatro Oficina” como uma Propriedade e trabalha Stalinisticamente para as Propriedade do Estado, não para os que cultivam o Local.

Você por acaso já leu a peça de Brecht “Circulo de Giz Caucasiano”?

Esta peça clarifica que as crianças, como a Terra, pertencem não aos seus proprietários, mas a quem as cultivam.

O Oficina cria esse pomar, que são as Obras Primas, os frutos maravilhosos do Oficina Uzyna Uzona.

Não foi mesmo o Estado que criou, nem mesmo quem manteve estes anos todos este local, foram os Tecno-Artistas e o Público, que continuaram, principalmente o enorme Público sempre jovem, que ainda não aburguesou-se e ocupa sempre o Oficina e agora seu Entorno.

Você escreve “Não há nenhum processo ou solicitação junto ao Condephaat para eventual alteração da resolução de tombamento”.

Mas este destombamento foi feito na moita, não nos foi informado.

Você afirma:

1. Não cabe ao Condephaat pronunciar-se sobre possibilidade de desapropriação do terreno vizinho ao Teatro Oficina (processo 57791/2008) . Tratar-se-ia de atribuição de outras instâncias de governo e não do órgão de preservação do patrimônio. 

Mas este Orgão, se tivesse a mínima noção do que lhe cabe ou não, estaria participando, como recomenda o Tombamento pelo Iphan, defendido por Jurema Machado na conclusão de seu parecer, da busca de uma solução para a destinação do terreno envoltório a Cultura. O texto de Jurema:

Considerando o Parecer da Relatora e após discussão do Conselho, foi a seguinte a decisão final: 

Pela inscrição do Teatro Oficina no Livro de Tombo Histórico e no Livro de Tombo das Belas Artes.

Pela re-avaliação posterior, pelo IPHAN, da delimitação do entorno, tendo em vista tratar-se de bem a ser inscrito também no Livro de Belas Artes e não exclusivamente no Livro Histórico.

Pela manifestação, ao Ministro da Cultura, de que o Ministério e o governo federal identifiquem mecanismos que viabilizem a destinação do terreno contiguo ao Teatro Oficina para um equipamento cultural de uso público, utilizando mecanismos tais como a aquisição, a desapropriação ou a conjugação destes com instrumentos urbanísticos a serem identificados em cooperação com o Município e com o Estado de São Paulo. 

2. o projeto substitutivo apresentado pela SISAN em 2008 (processo 53330/2006) , referente a construção de torres no terreno situado a Rua Jaceguai nº 530 pode ser aprovado, do ponto de vista das restrições estabelecidas pelo tombamento, condicionado à apresentação prévia do projeto de servidão”.

Isto é, traduzindo em miúdos, realmente: 1m e 80cm – um muro fazendo desaparecer a paisagem do Janelão; o corte da Árvore Sagrada do Terreiro: a Cesalpina, que não sobrevive nesse corredor de prisão – e ainda o fechamento da perspectiva da fachada mais bela na obra de Lina Bardi e Edson Elito – a do lado da Rua Abolição, que hoje revela a beleza ímpar do edifício. E o pior de tudo, a extinção da contribuição milionária da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona para SamPã, Brasil e Mundo: a Arte Teatal, enfim.

3. Esse item é risível diante do tamanho da Destruição:

 “A empreendedora deve transferir, em caráter permanente e irrevogável, uma faixa de 1, 80 cm de largura em todo o comprimento do lote de forma a instituir uma servidão de passagem para a construção de adequada rota de fuga e proteção a incêndio, para uso do teatro.”

Que magnanimidade de generosa hipocrisia !!!

O projeto apresentado pelo proprietário do terreno já foi aprovado pelo Compresp em 2009, na gestão de Kassab, mas a atual gestão do Prefeito Fernando Haddad, do secretário Juca Ferreira e do Compresp de Nádia Somekh programa tombar de fato todo o Bairro do Bixiga.

Vai haver conflito entre estas visões do Governo Alckmin e sua intimidade com a Especulação Finaceira revelada descaradamente pelo Condephaat.

“Por fim, cabe lembrar que o Estado de São Paulo desapropriou o bem tombado de forma a viabilizar as atividades do Teat(r)o Oficina. Desde então responsabilizou-se pelo bem tombado.”

Minha cara Fonte de Argumentos, somente nas gestões dos Secretários com Cultura, como Ricardo Othake, que concluiu parte do projeto de Lina Bardi e Edson Elito e estabeleceu um convênio com o Teat(r)o Oficina para mantê-lo, exigindo que fizéssemos uma peça por ano que a Secretaria de Cultura bancaria. Este convênio foi considerado inválido na gestão nefasta de Marcos Mendonça, o burocrataço que hoje está no poder na TV Cultura.

Tivemos ainda a gestão ótima de Fernando de Moraes que começou a encaminhar a construção do Terreiro Eletrônico, que agora completa 20 anos, iniciado no Governo Quércia.
Fernando cercou-se não de burocratas nomeados pelo Estado, mas de grandes artistas de SamPã como Mário Prata, Lélia Abramo, Marisa Orth no Teatro; Tadeu Jungle na área do vídeo; Arrigo Barnabé na área da Música.

Nesta gestão ganhei o prêmio máximo de dramaturgia com minha peça Cacilda !-!!-!!!-!!!! exclamações – uma Teatralogia em torno de Cacilda Becker – que já está em sua terceira exclamação e vai comemorar os 20 anos deste Terreiro Eletrôniko no dia 3 de outubro de 2013.

A gestão do cineasta João Batista de Andrade na Secretaria da Cultura e Cláudio Lembo – em seu breve governo interino – encaminhou uma proposta ao Legislativo de ocupação por 99 anos na Rua Jaceguay 520 para a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona.

E mesmo a rápida gestão de Andrea Matarazzo tentou abrir o caminho totalmente fechado nesta Secretaria de Cultura – porque acham que somos do PT. Artista não é de partido nenhum, ponham isso na cabeça, por amor aos fatos!

A Paupérrima Permissão de Uso a Título Precário para a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Sempre me recusei a assinar esta permissão. Óbvio que não assino mesmo. Todos os Tombamentos: o Municipal, o Estadual, o Federal pelo IPHAN, a desapropriação pelo Governo do Estado, todas estas medidas jurídicas foram tomadas para que continuássemos como Companhia Permanente ocupando o Oficina. Desde que fizemos 25 anos, quando ainda não estávamos ameaçados pelo Mega Grupo SS, fomos nós que fizemos o nome do Teatro, que lá produzimos nossas consagradas Obras Primas. Como é que vou assinar a permissão de uso de um lugar onde estamos há mais de 50 anos?

Não somos culpados da mediocridade do Departamento Jurídico e dos Secretários de Cultura do PSDB do interior de SP não criarem instrumentos júrídicos à altura dos Tombamentos e da desapropriação decretados para assegurar a continuidade de nosso trabalho de criação e garantir que não fossêmos destruídos, como se pretende agora, pela especulação burocrática atual do Condephaat somada à Especulação Imobiliária!

Ainda por cima, na gestão Mendonça, queriam que aceitássemos funcionários públicos como os do Teatro Sérgio Cardoso de então, nas áreas de luz, som, maquinistas em que o Estado pagaria salários baixíssimos e que teriam horário pra trabalhar como “funcionários”.

Ora, não aceitamos.

Não somos uma casa de exibição de Teatro como o Teatro Sérgio Cardoso. A Jaceguay 520 é um Lugar de criação, de produção e também exibição do que criamos. Nossa equipe trabalha com pessoas apaixonadas pelo Teat(r)o, como sócios e somos uma Associação auto gerida – anárquica no sentido mais responsável e libertário da palavra.

As mais de 60 pessoas que estão hoje no Oficina Uzyna Uzona ensaiam as vezes mais de 8 horas, como na Cia. Teatro Oficina Ltda nos anos 60 fazíamos – varando noites, criando nossas Obras de Arte.

Vocês do Condephaat, que tem atualmente esta visão Estatista-Stalinista, não compreendem o Oficina Uzyna Uzona ou deliberadamente não querem, nem têm interesse de compreender.

O Stalinismo odiava e invejava, como vocês, os grandes artistas criadores da Arte Pública do começo da Revolução Soviética. Foram todos, com exceção de Eisenstein e Stanislawiski, destruídos, torturados até a morte na URSS, como vocês querem fazer conosco agora.

Nunca assinei este contrato servil de permissão de usufruir do que nós mesmos criamos e muito nos orgulhamos disso.

Quanto ao cumprimento das exigências de segurança do público que frequenta o imóvel (saída de incêndio), quantas vezes nossa auto-coroada produtora Ana Rúbia não se dirigiu ao Estado nestas gestões do PSDB não mais da USP, mas de Sertanejo UniversOtário, dos Coronéis do Estado de São Paulo, pedindo ao Estado que criasse conosco as saídas de segurança e regulassem, como proprietários, as normas de segurança. As saídas reais de incêndio, não esses ridículos 1m e 80cm de agora, que dependem de nossa destruição como Cosmos Cultural para existir!

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