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Arquivo mensal: fevereiro 2014

Todo processo catártico implica em uma pequena morte do corpo, como um orgasmo, onde exaustão e prazer são componentes quase indissociáveis. A partir dessa falência, desse esvaziamento, o corpo está pronto para um renascimento. O ser humano necessita de experiências catárticas e as encontra em festas religiosas, em terreiros, nos bailes funks onde se dança a noite toda, nos ensaios de escola de samba que varam as madrugadas e até na saída semanal para balançar os esqueletos em festas como o Santo Forte do DJ Tutu. A longa duração é característica comum à todos esses eventos e nunca é questionada, pois é condição do processo de transformação por que passa o corpo. A catarse é fundamental, é necessidade física! A apatia a que é submetido o ser humano muitas vezes gera violência pois substitui uma experiência estética que produz catarse e a violência é também uma experiência física, que supre a falta de transformações indispensáveis ao corpo Alma.

As peças Cacilda!!! e !!!! têm longa duração, por volta de 5h30 cada uma. São extenuantes e propiciam ao público a possibilidade de uma revolução nos corpos semelhante à provocada pelas baladas, mas são de outra natureza. São espetáculos de teatro, uzynas geradoras de energia e transformação criadas por um coro, banda, tecnologia, uma pequena multidão da Cia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona que há 55 anos tem como uma das bases de seu trabalho o cultivo do poder humano, das permanentes transformações do corpo.

É catarse com roteiro: começo, meio e fim para as infinitas absorções de cada sessão.

Teat(r)o é atuação ritual com o corpo.

Não foi a toa que Lina Bardi criou cadeiras desconfortáveis em seus teatros: ela desejava as pessoas das multidões com a coluna erguida. Nas cadeiras do Sesc Pompéia apoiam-se em colunas vertebrais, totalmente explícitas no mobiliário. Claro que há pessoas que precisam de um apoio mais confortável, Haroldo Campos ia ver nossos ritos levando um travesseirinho para sua coluna e uma garrafa d’água, o mais esperto exemplo para os que se queixam da falta de conforto.

Nós sempre chamamos o público a vir atuar conosco, pois atuamos com as pessoas do chamado público e não para o público.

O OficinaUzynaUzona  quer cada vez mais música, dança!

O público, quer dizer, as pessoas presentes em nossos espetáculos, têm sempre a possibilidade de entrar na mágica arte da atuação, mas há os que se recusam entrar nas rodas, no coro, na gira. Todos vivem a liberdade de atuar ou atuar vendo, mas perdem um pouco com o poupar de seus corpos, deixam de viver o rito no livre espaço do  “anarquista coroado”

Camila Mota

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Camila Mota interpretando Cacilda Alma em “Anjo de Pedra”, peça da peça de Cacilda!!!! Fábrica de Cinema & Teatro.
Fotografia de Jennifer Glass

 

80 centímetros de escombros da demolição de todos os Prédios do Grupo Silvio Santos cobrem o chão do Entorno do Teat®o Oficina:

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Num local privilegiado do Terreno surge uma formação topográfica que se eleva como o Monte Pascoal que Cabral viu primeiro no Brasíl.

No início, a interpretação era a de um “Monte de Destroços, um monumento da Autodestruição que a Especulação Imobiliária faz em SamPã.

Era um TABÚ

Mas na encenação do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade

“MACUMBA ANTROPÓFAGA”

criou-se uma Cena em que o Elenco e o Público semeavam juntos Girassóis no Monte.

Então …

TABÚ fez-se TOTEM

e demos o nome ao MONTE DE :

SAMBAQUI

(“tamba’kï” vem do tupy – monte de conchas: depósitos construídos pelo homem, constituídos por materiais orgânicos, calcários e que, empilhados ao longo do tempo, vem sofrendo a ação de intempérie; acabaram por sofrer uma fossilização química, já que a chuva deforma as estruturas dos moluscos e dos ossos enterrados)

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Este SAMBAQUI no entorno do Oficina traz toda memória de 33 anos da Epopeia de Luta de humanos entre o X da questão do Planeta Terra:

Terra Vazia a ser cultivada no Centro Periférico de SamPã: o BIXIGA

X

a Construção vencida de um Shopping e depois de Torres enfartando ainda mais a Metrópole 

Sufocados na ameaça da Seca y do Calor de Fevereiro  nos dias 8 y 9/2/2014 o Oficina Uzyna Uzona ritualizou toda a encenação do 3º e o 4ª Episódio de CACILDAS

XAMÂNICAMENTE

XAMANDO XUVA

UM CARRO PIPA FOI COLOCADO AO LADO DO SAMBAQUI para

. molhar o VERDE quase seco que OFICINAUZYNAUZONA Cultiva no Entorno, ocupado por Comodato proposto por Silvio Santos até que se dê a TROCA que ele mesmo propôs por outro terreno do mesmo Valor em SamPã

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. receber o Público e, nos intervalos das peças, festejar sua presença com Banhos do CARRO PIPA, Carnavalizando este Verão tão lamuriado, transmutando-o em FESTA

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Tal era a FÉ CÊNICA do Elenco e do Público que os Céus ficaram negros – Trovões TuPãnicos soaram e algumas gotas d’água caíram dos Céus…

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Quando esse fenômeno aconteceu os atuadores reinterpretaram suas Cenas focando seu Círculo de Atenção ao Céu Escuro e então apuraram seus ouvidos e olhos para as pequenas gotas que caíram…

…e a FARRA DA PIPA devolveu aos que lá estiveram o gosto desta que deve cair esta semana: A TEMPESTADE

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Fotografia: Jennifer Glass