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Arquivo mensal: junho 2014

Chico Buarque no ensaio de Roda Viva 1968

Chico Buarque no ensaio de Roda Viva 1968

Amado Poeta Cantor ,desde 68 ,a única vez q nos encontramos ,foi por acaso , você vindo do Leblon ,eu indo da praia de Ipanema pra onde você caminhava.Era REVEILLON na tradução pro brazyleiro “Vamos acordar crianças, o novo ano está nascendo! “ Não me lembro de que ano, mas tenho gravado vivo na matéria de meu ser emotivo , o abraço q nos demos,sem dizer uma palavra sequer.Foi um “passe” carinhoso como Pixinguinha ,vindo de nossos dois corpos criadores emocionados .Prosseguimos em direções opostas diante do mar , eu arrepiado por aquela elétrica topada tão inesperada!Nuca mais fui o mesmo .

Só trabalhamos duas vezes juntos: na 1ª , você compôs e gravou num com um cello e outras cordas, um tema embriagador de tanta beleza, pros “Os Inimigos “de Gorki. Depois você me convidou pra fazer sua 1ª Obra Prima pro Teatro :“Roda Viva” .Numa generosidade rara ,bancou a Produção magnífica da peça . Havia a previsão de um COROpra 4 artistas cantora(e)s .

No chamado pro Teste ,uma Multidão de Estudantes Artistas, já forjados no Teato das Ruas do Mundo de 68 penetrou e ocupou com seus Corpos o Teatrinho Princesa Isabel. Traziam em si todas as revoluções q hoje se separaram, mas talvez tendam á se reunir novamente como Rimbaud escreveu : num Corpo.Foi uma Ocupação com uma Nova Arte , não um mero Occupy .E sua Produção Chico, acolheu á Todos novos Artistas.Esperado á milênios ,desde do Teatro Grego , sua peça trouxe o Retorno ao Teatro do CORO PAGÃO CANTOR ATUADOR DANÇARINO, tão Protagonista quanto os Protagonistas.Um CORO como um Time de Craques de um outro Futebol.Era tão forte a energia q emanava q abrimos os Ensaios pros nossos amigos artistas de cinema, musica, teatro, artes plásticas.Era Verão e o Rio descobriu uma nova Praia: os ensaios de “Roda Viva” . Lembro d’uma tarde em vieram : o Artista Gráfico Rogério Duarte, lindo ,vestido com um terninho branco com listas vermelhas por todo tecído, Mick Jagger acompanhado de Miriam Makeba…. O CORO tocava nas pessoas que iam festejar , como no Programa do Chacrinha, no Carnaval, no Candomblé. Era uma Festa intensamente Pagã , ignorando Palco e Platéia . Flavio Império com sua luxuosa direção de Arte , fez do Palco um Monitor de TV e cercou as paredes da “platéia” de Projeções. O CORO ocupava todo espaço. Obvio q a Estréia fói um Choque ,mas talvez , em nenhuma noite ou matinée , os Teatros por onde passou “Roda Viva”, deixaram de estar completamente lotados .

Todos sabem dos ataques do Comando de Caça aos Comunistas em São Paulo   e depois o de Porto Alegre feito pelo próprio 3º Exército q proibiu a peça em todo território nacional.Veio o AÍ-5 –q muitos o atribuem pra nos condenar , á “Roda Viva”.Claro que estes fatos fizeram uma sombra imensa sobre a importância Estética Revolucionária q esta peça teve e tem na Cultura do Teatro Brazyleiro e Mundial .

Chico nesta época apesar de muitos amigos teus , acusarem a mim de ser responsável por uma arte q chamavam de “agressão” , você combateu heroicamente os 2 atentados ,assim como Cacilda Becker q na época fez a celebre declaração defendendo “Roda Viva”: “Todos os Teatros são meus Teatros “

Amado Chico hoje você proíbe a encenação da peça , declarando q sua 1ª peça é fraca.Aquele menino lindo de olhos verdes , Astro explodido de repente na   Maquina do Show Businees , imediatamente produziu vindo desta experiência concreta de seu Corpo ,uma Obra de Arte de Forma – Conteúdo originalíssima, sobre á crueldade desta Engrenagem .E não como uma peça panfletária. Você criou uma dramaturgia Alegorica sofisticada e Pop ,mimetizando 4 fases do ShowBusiness dos anos 60 . -A do Rei São Roberto Carlos da “Jovem Guarda” que iniciou com brilho o processo de marketização .

-A da MBP ,penetrando criticamente em si mesmo, com muita corajem, Chico .

-A da “Disparada” Nordestina de Geraldo Vandré

-A da “Tropicália” .

Todas bem enredadas num Roteiro nada naturalista como era moda na época.

A linguagem dos seus diálogos dialóga de igual pra igual com o melhor Nelson Rodrigues.A Musica desde seu pouco conhecido mas delicioso Ieieié passa pelo maravilhoso prelúdio “Sem Fantasia” q tenho orgulho de dizer que fui eu q pedi á você q fizesse a 2ª canção do contraponto ,até as que finalizam sua a peça onde você retorna ao teatro musical de Noel Rosa, na “Opereta TragyCômica “ e na “Revista”.Você brilha nelas tanto nela quanto o gênio de Vila Isabel.

Quando fiz 70 anos ,aconteceu um fenômeno incrível em minha vida. Eu tinha vergonha de minhas primeiras peças que foram tachadas no Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena de “pequeno burguesas”, “alienadas”,“psicológicas”, e pelo critico Decio de Almeida Prado como “simbolistas demais”.Quando escrevi com Marcelo Drummond a “Odisséía das Cacildas” em 1990 ,fui em busca de todo repertório da atriz no melhor arquivo de textos de Teatro de 1900 á 1968: “O Arquivo da Policia de Diversões” pelo qual todas as peças tinham q passar.Minhas “pecinhas” estavam perdidas, nem eu as tinha guardado, tal desprezo e vergonha sentia por elas.Encontrei duas .

Danilo Miranda presenteou meus 70 anos, com a produção de minha 1ª Peça” Vento Forte pra um Papagio Subir”.Ele me convenceu á aceitar,dirigí a atuei na peça. Em 1958, comecei compondo a musica ,cantando no violão ,daí fui pra maquina de datilografia e em 40 minutos escrevi a 1ª coisa finalizada em minha vida.Foi somente aos 70 anos q retornei á obra de meus 21 anos, e descobri q era um Poeta , q a peça era simplesmente Poesia Teat(r)al.Minha vida de Artista mudou completamente.

Hoje dos meus 77 anos contemplo os teus 70 e te pergunto : temos ou não q adotar todos filhos q parímos ? Tenho curiosidade em saber como você escreveu a peça. Esta tua 1ª Obra q tanto entusiasmo despertou na   Multidão do Mundo de 68 q não se acovardou com os ataques do CCC q no dia seguinte ao ataque fez as filas aumentarem ao infinito .Esses Grandes Artistas como Samuka , Corifeu do Coro de “Roda Viva” ,não puderam mais depois do AÍ 5 atuar com a liberdade e invenção que traziam pro Teat(r)o no Brasil.Trouxe todo o CORO pro Oficina mas não podiam em “Galileu Galilei” sequer olhar para o Público. Os q mais talentosamente criaram a Arte da Atuação ao Vivo com o Publico Atuador ,também foram sacrificados.Não suportaram o Recuo do Teatro Brazyleiro aos Palcos Italianos.

Esta tão aclamada e tão massacrada 1ª filha tua, quer o reconhecimento de seu Criador .Claro q você deve ter sofrido muito com ela, como eu, como todos, mas sinto que é o momento de você reler sem preconceito sua Grande Obra de artista quando jovem e libertá-la pra Eternidade Humana, a partir dete teu consagrado aniversário .Este é o maior presente te posso dar como Danilo Miranda me deu aos 70: não censurar nada q nasceu de teu esperma de Gênio .Eisntein diz q os gênios engolem o Universo em seu Corpo e em sua Obra.É o teu caso ,portanto essa filha de 44 anos podia muito bem ser reconhecida.

Ah!Chegar até você/ foi lindo de morrer /mas foi tanto penar/ não vou me arrepender.. .

16 de Junho de 2014 Blooming Day

Roda Viva 1968

Roda Viva 1968

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Cacilda Becker, quando tiver suas cartas, suas entrevistas publicadas, será revelada ao Mundo. Pois sua importância não se refere somente ao Teatro Brasileiro; é UNIVERSAL. No TBC ela fez a melhor dramaturgia do Hemisfério Norte, mas, como João Gilberto na música, antropofagiou com uma interpretação absolutamente inédita, minimalista e original.  

Cacilda eletrificava suas personagens. Criava, como todo grande Artista, a partir da devoração de seu corpo feito de ossos, nervos, artérias à mostra. Era muito magrinha, mas tinha o que é mais precioso e necessário em sua Arte: as entranhas transparentes de seu Corpo Elétrico Quântico Aceso!

Seu Corpo-Vida dedicado todo à Arte Teatral fez dela também uma grande escritora de Teatro. Em seus escritos poderá se constatar uma nova sabedoria na arte da Atuação no Teatro. Ela, em sua escrita, contribui tanto (ou mais) pra esta Arte quanto Stanislavski, como Artaud – só que até no Brasil é desconhecido seu talento também literário.

Pena que parte de sua correspondência amorosa com Céli esteja proibida pelas duas famílias: a de Céli (na Itália, pelo filho do diretor, onde se encontram as cartas) e aqui no Brasil, por seu filho.

Portanto, não é um fenômeno da Cultura Brazyleira, exclusivamente, mas da Cultura Teatral Universal.
 
Escrevemos Marcelo Drummond e eu uma ODISSEIA, que chamam hoje de “série”; mas é mais que uma “série”: é realmente uma obra HOMÉRICA. Foram 900 páginas, em 1990. Mas somente a partir do fim do milênio começaram a ser encenadas: “Cacilda!” com Betti Coelho, Giulia Gam e Alleyona Cavali, hoje Leona Cavalli. Depois veio “Cacilda!! Estrela Brazyleira a Vagar” com a jovem gênio Ana Guilhermina. “Cacilda!!! Glória no TBC e 68 AquiAgora” e “Cacilda!!!! Fábrica de Cinema & Teatro” foram construídas com duas talentosíssimas Atrizes Cacíldicas: Sylvia Prado e Camila Mota. Estamos agora ensaiando a “Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada” (cinco Exclamações), e em Cartaz com grande sucesso “Walmor y Cacilda 64: RoboGolpe”.

As exclamações que nomeiam as peças, além dos subtítulos, revelam a respiração ofegante, quase asmática de uma atuação extremamente ENTUSIASMADA – quer dizer “com o deus Dionísios DENTRO”, projetando seu intenso hálito libidinoso pro Espaço Universal. Acho que montamos no OficinaUzynaUzona 50% da ODISSEIA. Se a vida me permitir, quero montar toda, pois sinto que temos de passar pra todas as gerações que aqui estão – e pras que virão – o fenômeno fascinante que essa Atriz, Matriz, Astro deixou no rastro luminoso de sua passagem pela Terra.

Veio os 50 anos de Golpe de 64 e eu me lembrei (às vezes me esqueço o que tem dentro a ODISSEIA) que havia uma parte que se passava durante o Golpe Militar, onde Cacilda Becker, Maria Della Costa (quase toda Classe Teatral de SamPã) foram depor no DOPS em carros de luxo, vestidas com os grandes figurinistas internacionais da Época, como Dior etc., numa estratégia Política Absolutamente inédita, inesperada.  

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Na imundice que era o DOPS de SP, deram um Show de Elegância Pop, hipnotizando o Delegado com a Arte Teatral e conseguindo que os Teatros fechados pelo Golpe Militar fossem todos reabertos. Ela fazia com Walmor, no Teatro da Federação Paulista de Futebol que sua TCB (Teatro Cacilda Becker) ocupava, “Noites de Iguana”, de Tennessee Williams.  Walmor nesta época quis ir para Porto Alegre somar-se à resistência armada que Leonel Brizola iniciou no R.G.S. – e que foi logo abortada.

Nós fizemos Walmor Marcelo Drummond ser amarrado como a personagem de Williams, pra não se suicidar mergulhando no mar do Pacífico, no México, pra chegar na China. O Grande Ator Walmor, por sua Morte Trágica (suicidando-se como o herói de Tchekhov em “IVANOV”), a partir desta montagem está Intronizado no alto de Pé Direito da Cena do Teat(r)o Oficina, ao lado da  foto que Gringo Cardia nos deixou de Cacilda. Os dois foram os dois primeiros Grandes Trágicos do Teat(r)o Brazyleiro. “Walmor y Cacilda 64: RoboGolpe” faz tanto sucesso junto ao público que, programada pra sair antes da Copa, vai estar em cartaz até a noite de 29 de junho, a das Fogueiras de São Pedro Xangô do Terreiro Eletrônico. Vai enfrentar a Copa.

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Mas já estamos ensaiando “Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada” ( com cinco exclamações) pra estrear dia 26 de julho .Estamos inspirados com um elenco mais reduzido, devido à grave situação econômica do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Então pegamos da ODISSEIA um trecho que passa por três peças importantes do TBC e filmes da Vera Cruz: “Seis personagens à procura de autor”, de Luigi Pirandello, “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, e “Antígone”, de Sófocles. Cacilda fundia sua vida com as peças que fazia; quando Adolfo Céli rompe a relação Paixão & Teatro que tinha com Cacilda, por apaixonar-se por Tônia quando dirige o filme “Tico Tico no Fubá”, na Vera Cruz, o TBC  divide-se então numa espécie de Guerra das 2 Rosas.

Aliás, estamos em busca desesperada da atriz que possa trazer a BELEZA E O TALENTO DE TÔNIA CARRERO enfrentando a RAINHA CACILDA.

Sempre que apanhamos um texto da Obra escrita em 1990, primeiro ouvimos a leitura com os atores atuais e vou antropofagiando as nossas próprias peças pra eletrificá-las ao nosso Tempo. Hoje, quando o Mundo vive uma Crise internacional que ameaça uma 3ª Guerra Mundial (agora não entre nações, mas com os próprios povos que nelas habitam e se rebelam contra o sistema internacional da ditadura financeira internacional que nos sufoca a todos, a favor da renda do Capital de 1% da População), as peças então incorporam o etherno presente.

No Brasil, agora, em plena Copa, a agitação social exige, como dizia Cacilda, que o TEATRO ENTRE EM CENA COM SEU VALOR INCOMENSURÁVEL E SEU PODER – nos dias de hoje imensamente desprezado pelos próprios grandes Atores e Atrizes brasileiras.

Dia 14 de junho, dois dias depois do início da Copa, estamos há 45 anos da morte de Cacilda. Mas sinto cada vez mais viva sua contribuição pro Teatro Mundial.

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A ODISSEIA foi imaginada antes por meu irmão Luiz Antônio Martinez Corrêa, assassinado no Natal de 1987. Quando fui internado com Erizipéla na Ala dos Indigentes na Santa Casa – estava apavorado achando que tinha AIDS –, fiz então uma promessa pra Luiz Antônio e pra Cacilda, de escrever a peça que ele tinha começado a imaginar e colocar a grande atriz – até transcendendo a Arte Teatral – como num desfile imenso de escola de Samba.

Tinha ganhado um computador brasileiro dado pelo saudoso Severo Gomes, que fabricava (então em 1990) computadores parecidos com máquinas de costura. Marcelo e eu partimos pra entrevistar os artistas vivos que tinham vivido a Era Cacilda Becker; juntamos todas as peças em que ela tinha atuado; Maria Tereza Vargas e Cleyde Yáconis nos passaram as inúmeras Cartas de Cacilda e até um Álbum de Capa Dura Cor de Vinho que sua mãe, Dona Alzira, havia criado com críticas, desde os sete anos, da estreia de Cacilda como dançarina nos palcos, com o cabelo da filha gênio em criança colado em uma das páginas. Enfim, um Álbum que somente esta mulher, também artista – Dona Alzira – poderia ter criado, já sabendo, desde que viu a filha dançar com a chuva com dois anos de idade, que Cacilda tinha engolido o Universo dentro de si e que era Gênio.

Nos passaram também o Super 8 de Cacilda – filmado por seu amiguinho de 16 anos Boris Kaufmanna – dançando com o Mar na Ilha do Papagaio, em Santos. Este belíssimo filme está no Arquivo das Grandes Dançarinas do Século XX no Centre Georges Pompidou, o BEAUBOURG: MUSEU DE ARTE MODERNA DE PARIS.

Com todo este material, escrevemos a ODISSEIA.

Teclando o texto eu ouvia a voz de Cacilda psicografando em mim. Foi muito estranho tudo, e a OBRA está sendo revelada na medida do impossível mesmo, pois requer elencos grandes. Mas é um aprendizado de atuação pra todos os artistas de muitas mídias que nela se aventuram.

Pra nós, já é a própria UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA em movimento, inspirada nesta Antropófaga Cacilda Becker.

Em vida, paradoxalmente, teve medo dos dois Shakespeares Dramaturgos Brazyleiros: Nelson Rodrigues e Oswald de Andrade. Oswald a admirava com fervor de quem ama uma Bacante Dionizíaca.

Vamos comemorar dia 14 de junho de 2014 ensaiando estes 45 anos que inicialmente produziram um COMA no Teatro Brasileiro; nós, depois que pusemos na Pista “Cacilda!”,  Ressuscitamos!


VIVA CACILDA BECKER