45 anos da Ethernidade de Cacilda Becker

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Cacilda Becker, quando tiver suas cartas, suas entrevistas publicadas, será revelada ao Mundo. Pois sua importância não se refere somente ao Teatro Brasileiro; é UNIVERSAL. No TBC ela fez a melhor dramaturgia do Hemisfério Norte, mas, como João Gilberto na música, antropofagiou com uma interpretação absolutamente inédita, minimalista e original.  

Cacilda eletrificava suas personagens. Criava, como todo grande Artista, a partir da devoração de seu corpo feito de ossos, nervos, artérias à mostra. Era muito magrinha, mas tinha o que é mais precioso e necessário em sua Arte: as entranhas transparentes de seu Corpo Elétrico Quântico Aceso!

Seu Corpo-Vida dedicado todo à Arte Teatral fez dela também uma grande escritora de Teatro. Em seus escritos poderá se constatar uma nova sabedoria na arte da Atuação no Teatro. Ela, em sua escrita, contribui tanto (ou mais) pra esta Arte quanto Stanislavski, como Artaud – só que até no Brasil é desconhecido seu talento também literário.

Pena que parte de sua correspondência amorosa com Céli esteja proibida pelas duas famílias: a de Céli (na Itália, pelo filho do diretor, onde se encontram as cartas) e aqui no Brasil, por seu filho.

Portanto, não é um fenômeno da Cultura Brazyleira, exclusivamente, mas da Cultura Teatral Universal.
 
Escrevemos Marcelo Drummond e eu uma ODISSEIA, que chamam hoje de “série”; mas é mais que uma “série”: é realmente uma obra HOMÉRICA. Foram 900 páginas, em 1990. Mas somente a partir do fim do milênio começaram a ser encenadas: “Cacilda!” com Betti Coelho, Giulia Gam e Alleyona Cavali, hoje Leona Cavalli. Depois veio “Cacilda!! Estrela Brazyleira a Vagar” com a jovem gênio Ana Guilhermina. “Cacilda!!! Glória no TBC e 68 AquiAgora” e “Cacilda!!!! Fábrica de Cinema & Teatro” foram construídas com duas talentosíssimas Atrizes Cacíldicas: Sylvia Prado e Camila Mota. Estamos agora ensaiando a “Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada” (cinco Exclamações), e em Cartaz com grande sucesso “Walmor y Cacilda 64: RoboGolpe”.

As exclamações que nomeiam as peças, além dos subtítulos, revelam a respiração ofegante, quase asmática de uma atuação extremamente ENTUSIASMADA – quer dizer “com o deus Dionísios DENTRO”, projetando seu intenso hálito libidinoso pro Espaço Universal. Acho que montamos no OficinaUzynaUzona 50% da ODISSEIA. Se a vida me permitir, quero montar toda, pois sinto que temos de passar pra todas as gerações que aqui estão – e pras que virão – o fenômeno fascinante que essa Atriz, Matriz, Astro deixou no rastro luminoso de sua passagem pela Terra.

Veio os 50 anos de Golpe de 64 e eu me lembrei (às vezes me esqueço o que tem dentro a ODISSEIA) que havia uma parte que se passava durante o Golpe Militar, onde Cacilda Becker, Maria Della Costa (quase toda Classe Teatral de SamPã) foram depor no DOPS em carros de luxo, vestidas com os grandes figurinistas internacionais da Época, como Dior etc., numa estratégia Política Absolutamente inédita, inesperada.  

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Na imundice que era o DOPS de SP, deram um Show de Elegância Pop, hipnotizando o Delegado com a Arte Teatral e conseguindo que os Teatros fechados pelo Golpe Militar fossem todos reabertos. Ela fazia com Walmor, no Teatro da Federação Paulista de Futebol que sua TCB (Teatro Cacilda Becker) ocupava, “Noites de Iguana”, de Tennessee Williams.  Walmor nesta época quis ir para Porto Alegre somar-se à resistência armada que Leonel Brizola iniciou no R.G.S. – e que foi logo abortada.

Nós fizemos Walmor Marcelo Drummond ser amarrado como a personagem de Williams, pra não se suicidar mergulhando no mar do Pacífico, no México, pra chegar na China. O Grande Ator Walmor, por sua Morte Trágica (suicidando-se como o herói de Tchekhov em “IVANOV”), a partir desta montagem está Intronizado no alto de Pé Direito da Cena do Teat(r)o Oficina, ao lado da  foto que Gringo Cardia nos deixou de Cacilda. Os dois foram os dois primeiros Grandes Trágicos do Teat(r)o Brazyleiro. “Walmor y Cacilda 64: RoboGolpe” faz tanto sucesso junto ao público que, programada pra sair antes da Copa, vai estar em cartaz até a noite de 29 de junho, a das Fogueiras de São Pedro Xangô do Terreiro Eletrônico. Vai enfrentar a Copa.

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Mas já estamos ensaiando “Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada” ( com cinco exclamações) pra estrear dia 26 de julho .Estamos inspirados com um elenco mais reduzido, devido à grave situação econômica do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Então pegamos da ODISSEIA um trecho que passa por três peças importantes do TBC e filmes da Vera Cruz: “Seis personagens à procura de autor”, de Luigi Pirandello, “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, e “Antígone”, de Sófocles. Cacilda fundia sua vida com as peças que fazia; quando Adolfo Céli rompe a relação Paixão & Teatro que tinha com Cacilda, por apaixonar-se por Tônia quando dirige o filme “Tico Tico no Fubá”, na Vera Cruz, o TBC  divide-se então numa espécie de Guerra das 2 Rosas.

Aliás, estamos em busca desesperada da atriz que possa trazer a BELEZA E O TALENTO DE TÔNIA CARRERO enfrentando a RAINHA CACILDA.

Sempre que apanhamos um texto da Obra escrita em 1990, primeiro ouvimos a leitura com os atores atuais e vou antropofagiando as nossas próprias peças pra eletrificá-las ao nosso Tempo. Hoje, quando o Mundo vive uma Crise internacional que ameaça uma 3ª Guerra Mundial (agora não entre nações, mas com os próprios povos que nelas habitam e se rebelam contra o sistema internacional da ditadura financeira internacional que nos sufoca a todos, a favor da renda do Capital de 1% da População), as peças então incorporam o etherno presente.

No Brasil, agora, em plena Copa, a agitação social exige, como dizia Cacilda, que o TEATRO ENTRE EM CENA COM SEU VALOR INCOMENSURÁVEL E SEU PODER – nos dias de hoje imensamente desprezado pelos próprios grandes Atores e Atrizes brasileiras.

Dia 14 de junho, dois dias depois do início da Copa, estamos há 45 anos da morte de Cacilda. Mas sinto cada vez mais viva sua contribuição pro Teatro Mundial.

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A ODISSEIA foi imaginada antes por meu irmão Luiz Antônio Martinez Corrêa, assassinado no Natal de 1987. Quando fui internado com Erizipéla na Ala dos Indigentes na Santa Casa – estava apavorado achando que tinha AIDS –, fiz então uma promessa pra Luiz Antônio e pra Cacilda, de escrever a peça que ele tinha começado a imaginar e colocar a grande atriz – até transcendendo a Arte Teatral – como num desfile imenso de escola de Samba.

Tinha ganhado um computador brasileiro dado pelo saudoso Severo Gomes, que fabricava (então em 1990) computadores parecidos com máquinas de costura. Marcelo e eu partimos pra entrevistar os artistas vivos que tinham vivido a Era Cacilda Becker; juntamos todas as peças em que ela tinha atuado; Maria Tereza Vargas e Cleyde Yáconis nos passaram as inúmeras Cartas de Cacilda e até um Álbum de Capa Dura Cor de Vinho que sua mãe, Dona Alzira, havia criado com críticas, desde os sete anos, da estreia de Cacilda como dançarina nos palcos, com o cabelo da filha gênio em criança colado em uma das páginas. Enfim, um Álbum que somente esta mulher, também artista – Dona Alzira – poderia ter criado, já sabendo, desde que viu a filha dançar com a chuva com dois anos de idade, que Cacilda tinha engolido o Universo dentro de si e que era Gênio.

Nos passaram também o Super 8 de Cacilda – filmado por seu amiguinho de 16 anos Boris Kaufmanna – dançando com o Mar na Ilha do Papagaio, em Santos. Este belíssimo filme está no Arquivo das Grandes Dançarinas do Século XX no Centre Georges Pompidou, o BEAUBOURG: MUSEU DE ARTE MODERNA DE PARIS.

Com todo este material, escrevemos a ODISSEIA.

Teclando o texto eu ouvia a voz de Cacilda psicografando em mim. Foi muito estranho tudo, e a OBRA está sendo revelada na medida do impossível mesmo, pois requer elencos grandes. Mas é um aprendizado de atuação pra todos os artistas de muitas mídias que nela se aventuram.

Pra nós, já é a própria UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA em movimento, inspirada nesta Antropófaga Cacilda Becker.

Em vida, paradoxalmente, teve medo dos dois Shakespeares Dramaturgos Brazyleiros: Nelson Rodrigues e Oswald de Andrade. Oswald a admirava com fervor de quem ama uma Bacante Dionizíaca.

Vamos comemorar dia 14 de junho de 2014 ensaiando estes 45 anos que inicialmente produziram um COMA no Teatro Brasileiro; nós, depois que pusemos na Pista “Cacilda!”,  Ressuscitamos!


VIVA CACILDA BECKER

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