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Arquivo mensal: março 2015

Matéria publicada em 27/03/2015 no site da Revista Cult, por Welington Andrade:

“Artaud dizia que se uma época se desinteressa do teatro é porque ele não a representa mais. O teatro de Zé Celso sempre interessou a sua época, sempre a representou. Não somente porque ele sempre aplicou o primário ‘princípio da atualidade’ (que consiste, por exemplo, em colocar o Brasil de 1963 numa peça russa de 1902), mas sobretudo porque, bem mais profundamente, ele sempre situou essa atualidade para além dos acontecimentos, num jogo de tensões capaz de traduzir a vida do seu ponto de vista universal, imenso e livre”.
Ana Helena Camargo de Staal,
Primeiro ato: cadernos, depoimentos, entrevistas (1958-1974).

A atriz Camila Mota em cena de "Pra dar um fim no juízo de Deus". foto Jennifer Glass.

A atriz Camila Mota em cena de “Pra dar um fim no juízo de Deus”. foto Jennifer Glass.

Pela segunda vez em menos de vinte anos, o diretor José Celso Martinez Corrêa e o elenco do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona abrem as portas do Bixiga para que Antonin Artaud (1896-1948) – vindo não se sabe bem de onde, talvez do asilo de Rodez ou da sede da Radiodifusão Francesa, talvez ainda da Paris feérica da primeira metade do século XX de cuja cena cultural foi um notável errante ou mais simplesmente de sua Marselha natal – saúde o povo de São Paulo e peça passagem. O criador do teatro da crueldade, segundo mostra Zé Celso, está mais louco do que nunca, quer dizer, mais momo do que nunca. Em ambos os casos, não custa nada lembrar, mais poeta do que nunca.

Pra dar um fim no juízo de deus é o nome da peça radiofônica que Fernand Pouey convidou Artaud a conceber, em novembro de 1947, como um quadro do programa A voz dos poetas. A experiência consistiu na articulação de quatro textos, três que já estavam escritos – “Tutuguri, o rito do sol negro”, “A busca da fecalidade” e “A questão se coloca em” –, e uma introdução geral que Artaud escreveu especialmente para a ocasião, com cujo título, inclusive, a iniciativa foi batizada. Gravada entre 22 e 29 de novembro daquele ano, a peça contou com as participações de Maria Casarès, Paule Thévenin e Roger Blin, além do próprio autor, e seria transmitida publicamente em 2 de fevereiro de 1948.

Seria, não fosse o fato de o diretor da Radiodifusão Francesa, Vladimir Porché, ter se assustado com a “obscenidade” dos textos a ponto de interditar a veiculação do trabalho na emissora. Passados alguns dias nos quais personalidades do mundo artístico e jornalistas foram chamados a debater se a obra deveria ser liberada ou não, Pouey chegou a uma solução intermediária, organizando, em 23 de fevereiro, uma transmissão privada da gravação, somente para convidados, no cinema Le Washington – o que naturalmente deixou Artaud, pouquíssimos dias antes de sua morte, em 4 de março de 1948, bastante desolado. (Vale lembrar que, embora o texto tenha sido publicado já no ano da proibição do programa, somente em 1973 este seria transmitido pelo rádio).

Às vésperas de completar sete décadas de existência, Para dar um fim no juízo de deus transforma-se novamente pelas mãos de Zé Celso e do Oficina (a primeira montagem data de 1996) em um ritual mágico, disposto a impelir o espectador a um “estado de vida poética”, cuja poesia – contrariando o mais equivocado dos lirismos – é, a um só tempo, “negra e radiosa”, como desejava o autor de Heliogábalo.

Leia a matéria completa no Portal da Revista Cult

Coro de Pra dar um fim no juízo de deus, em cartaz nesse momento no Teat(r)o Oficina. Foto Márcio Moraes.

Coro de Pra dar um fim no juízo de deus, em cartaz nesse momento no Teat(r)o Oficina. Foto Márcio Moraes.

Ressurgiu esta palavra em minha mente quando escrevi um texto para um Livro sobre José Wilker, de autoria de Marcelo Laffitte.

regimália – palavra q o diretor argentino Victor García trouxe pra gíria do teatro brasileiro dos anos 60, sinônimo de “os porra loucas”. Era como os Artistas do Partidão (P.C.) chamavam a geração de jovens possuídos em seus Corpos – Neo Pagãos, pela revolução internacional do “aqui agora” de 1968. Assim, “porra loucas” eram, por exemplo, os Coros de “Roda Viva”. Não era uma questão ideológica, mas uma concreta e maravilhosa emersão de uma contradição enriquecedora e nova, não só no Teatro Brasileiro, mas Mundial: o ressurgimento, depois de milênios, dos Coros da Tragédia Grega. Os do Partidão opunham os “regimales” aos “Representativos”, isto é, aos artistas de teatro com repercussão na mídia mesmo nos anos da Ditadura Militar. Os “Representativos” eram celebridades, mas não no sentido desta palavra hoje, pois eram pessoas reconhecidas, muito talentosas, politizadas e adoradas, mas temerosas da revolução que muitos Grupos do Poder Jovem traziam para o Teatro no Brasil, desconhecendo as fronteiras Arte&Vida, Palco&Plateia. Corpos de Atuadores rompendo a 4ª Parede, tocando nos Corpos do Público como no Carnaval, no Candomblé… Quando “Roda Viva” foi atacada pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas), Cacilda Becker superou esta divisão da Classe Teatral declarando na TV Tupy : “Todos os Teatros são meus Teatros”. Vitor Garcia não via um sentido pejorativo em “regimales”, pois trabalhou com muitos “porra loucas” na sua montagem de “Cemitério de Automóveis”, de Arrabal.

Zé Celso

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Entrevista Completa para a “Ilustrada”, da “Folha de São Paulo”, para Gabriela Mellão, complementada hoje, segunda feira, dia 23 de Março de 2015, depois dos dois espetáculos de estreia da peça no Oficina, onde sua grande receptividade , que já na estreia revelou-se um dos Maiores Sucessos de todos os tempos, inspirou-nos a encontrar sentidos até então não revelados a nós mesmos. O que foi acrescentado à entrevista dada a Gabriela, está em negrito.

 1.  O que te atrai nesta peça radiofônica de Artaud?

Zé Celso – Atrai e muito, o fio de palavras concretas emanando vibrações sonoras, saídas do Corpo de Artaud, penetrando nossos Corpos, na acupuntura de pontos específicos, onde resiste  a ideia fixa de mundo, segurando nosso animal erótico, criador de bichos sem nome, como, por exemplo, a arte desta esta peça.

2.  A peça chega ao palco adaptada? O que você eliminou e o que privilegiou nesta adaptação?

Nós, atuadores antropófagos como Artaud, estamos preparando um banquete deliciosamente oportuno e cruel. Estamos fazendo tudo de novo, vivendo a Anatomia do Verbo de Artaud nesses dias tão intensos por que passam o Cosmos, as Sociedades, e que passamos nós mesmos, mortais.

Do que eu sei de mim, estou no meu Inferno Astral.

Hoje mesmo eu estava só com meu Ator; faltei ao ensaio pensado que estava doente, mas saquei que era meu inconsciente que não queria que eu assumisse nessa noite o papel de Diretor, pra ter o prazer de ficar só Ator, estudando com Artaud no original em Francês. Mudei radicalmente minha interpretação,  senti o humor de Artaud Momo fazendo o papel de Alucinado, refiz profundamente na simplicidade a anatomia das palavras q vou phalar ao descobrir, só hoje, a ação teatal contínua da peça.

3.  O que muda nesta montagem de Pra dar um fim no juízo de deus, em relação àquela realizada em 96?

Muda ao nos instalarmos no fluxo da instabilidade de 2015, nessa situação  em que o Teatro sai da desimportância e ganha seu Valor de nos colocar Corpos a  Corpos diante dos que estão vivendo nesses dias de desmascaramento de tudo, no Crash Krrép Cruc da Velha Nova República.

Estamos em  Cena sem  segurar nada  no automático. Artaud rola com nossas Energias, com as dos que vem estar conosco: o Público de cada noite, com os ruídos da Cidade, com o Ser da noite cósmica sempre presente no Janelão de Vidro do Oficina e no Teto Móvel.

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4.  A primeira montagem praticamente não tinha cenário e figurino. Conte sua concepção de encenação, cenário e figurino para esta versão da obra.

É quase a mesma: tínhamos tudo no espaço Artaudiano do Oficina, como temos agora – acrescido  da direção de Arte de duas “arquitetos”, do Cello, da Luz, Câmera, Ação –,  e mais nada, a não ser  o  sangue, esperma y o cocô  novos em cada noite, imersos no poder  da peça de Artaud, onde Investimos  nossos Corpos como formidáveis Putas, botando fé na bilheteria.

5.  Por que decidiu remontar esta peça?

Porque tiramos férias depois das Cacildas e retornamos estes idos de  março tão cruel e excitante, justo pra se fazer Teatro, sentindo a pulsão de estar em Cena o mais rápido possível. Então partimos pra Artaud, que tem uma Intensa Única Hora de duração,com tudo q nossos Corpos querem estar dizendo neste Manifesto de Carne Humana.

6.  Por que você desdobra Artaud em quatro figuras?

Todos os Corpos presentes atuando são Artauds, não só os quem têm falas grandes; os Coros fazem o mais difícil, as Glossolalias de Artaud, a língua que acontece quando as palavras não dão mais conta do que temos a dizer – e assim mesmo injuriamos o indizível e o invisível,  com fonemas vivos.

 7.  Quem são essas quatro figuras e o que cada uma delas representa?

Ninguém representa nada em Artaud; é um Teato de “presentação”. Ninguém está no lugar de uma Personagem; é uma emissão direta  dos Corpos Presentes produzindo bichos sem nome, com os que estão presentes, o chamado Público.

8.  O que defecar em cena representa? Eliminar o lixo do mundo?

 Não, o Lixo se Recicla.

“Onde cheira Merda, cheira Ser”.

E quando se está enfezado, cheio de fezes não cagada, caga-se no inicio da peça, com uma dedicatória aos “Produtos Sintético de Reposição da Natureza”. Mas a peça avança nesse sentido, para uma Missa “Em Busca da FéCalidade”.

9.  O que Deus e a religião representam para Artaud?

Aí, sim, Artaud vê Deus como uma “Representação”, e ao mesmo tempo, como “Micróbios”, em que ele crê como os antigos povos terrenos, deus.

Mas há micróbios q são deus e outros que são Deus – os que justamente representam sua ação da nocividade microbiana nesta aparência sinistra que Deus veste, sempre que se diverte em Tetanizar e Endoidar humanidade, como faz agora.

É o Artaud de “O Teatro e seu Duplo”, o que dá às palavras, por exemplo, Micróbios e Crueldade, sentidos duplo. Há no rigor de seu “Teatro”e há a “Crueldade Mórbida” do Deus remasterizado  monoteísta, mono.

Enfim, Artaud acredita em deus, mas no “deus micróbio… Isso q vocês chamam de ‘micróbios’, é deus. O ser humano, quando não seguram ele, é um Animal Erótico, há nele uma tremedeira inspirada, uma espécie de pulsação criadora de inumeráveis bichos sem nome, que é a forma com que os antigos povos terrenos chamavam deus”.

Conclusão: Artaud acredita no deus micróbio, no deus que está no ato de criação do humano e dos bichos sem nome.

*Fotos acima de Jennifer Glass. Abaixo, O Teat(r)o Oficina lotado na estreia de Pra dar um fim no juízo de deus, em 21/03/2015. Foto Felipe Stucchi.

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