Pra dar um fim no juízo de deus – Entrevista completa para a “Ilustrada” da “Folha de São Paulo”, para Gabriela Mellão.

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Entrevista Completa para a “Ilustrada”, da “Folha de São Paulo”, para Gabriela Mellão, complementada hoje, segunda feira, dia 23 de Março de 2015, depois dos dois espetáculos de estreia da peça no Oficina, onde sua grande receptividade , que já na estreia revelou-se um dos Maiores Sucessos de todos os tempos, inspirou-nos a encontrar sentidos até então não revelados a nós mesmos. O que foi acrescentado à entrevista dada a Gabriela, está em negrito.

 1.  O que te atrai nesta peça radiofônica de Artaud?

Zé Celso – Atrai e muito, o fio de palavras concretas emanando vibrações sonoras, saídas do Corpo de Artaud, penetrando nossos Corpos, na acupuntura de pontos específicos, onde resiste  a ideia fixa de mundo, segurando nosso animal erótico, criador de bichos sem nome, como, por exemplo, a arte desta esta peça.

2.  A peça chega ao palco adaptada? O que você eliminou e o que privilegiou nesta adaptação?

Nós, atuadores antropófagos como Artaud, estamos preparando um banquete deliciosamente oportuno e cruel. Estamos fazendo tudo de novo, vivendo a Anatomia do Verbo de Artaud nesses dias tão intensos por que passam o Cosmos, as Sociedades, e que passamos nós mesmos, mortais.

Do que eu sei de mim, estou no meu Inferno Astral.

Hoje mesmo eu estava só com meu Ator; faltei ao ensaio pensado que estava doente, mas saquei que era meu inconsciente que não queria que eu assumisse nessa noite o papel de Diretor, pra ter o prazer de ficar só Ator, estudando com Artaud no original em Francês. Mudei radicalmente minha interpretação,  senti o humor de Artaud Momo fazendo o papel de Alucinado, refiz profundamente na simplicidade a anatomia das palavras q vou phalar ao descobrir, só hoje, a ação teatal contínua da peça.

3.  O que muda nesta montagem de Pra dar um fim no juízo de deus, em relação àquela realizada em 96?

Muda ao nos instalarmos no fluxo da instabilidade de 2015, nessa situação  em que o Teatro sai da desimportância e ganha seu Valor de nos colocar Corpos a  Corpos diante dos que estão vivendo nesses dias de desmascaramento de tudo, no Crash Krrép Cruc da Velha Nova República.

Estamos em  Cena sem  segurar nada  no automático. Artaud rola com nossas Energias, com as dos que vem estar conosco: o Público de cada noite, com os ruídos da Cidade, com o Ser da noite cósmica sempre presente no Janelão de Vidro do Oficina e no Teto Móvel.

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4.  A primeira montagem praticamente não tinha cenário e figurino. Conte sua concepção de encenação, cenário e figurino para esta versão da obra.

É quase a mesma: tínhamos tudo no espaço Artaudiano do Oficina, como temos agora – acrescido  da direção de Arte de duas “arquitetos”, do Cello, da Luz, Câmera, Ação –,  e mais nada, a não ser  o  sangue, esperma y o cocô  novos em cada noite, imersos no poder  da peça de Artaud, onde Investimos  nossos Corpos como formidáveis Putas, botando fé na bilheteria.

5.  Por que decidiu remontar esta peça?

Porque tiramos férias depois das Cacildas e retornamos estes idos de  março tão cruel e excitante, justo pra se fazer Teatro, sentindo a pulsão de estar em Cena o mais rápido possível. Então partimos pra Artaud, que tem uma Intensa Única Hora de duração,com tudo q nossos Corpos querem estar dizendo neste Manifesto de Carne Humana.

6.  Por que você desdobra Artaud em quatro figuras?

Todos os Corpos presentes atuando são Artauds, não só os quem têm falas grandes; os Coros fazem o mais difícil, as Glossolalias de Artaud, a língua que acontece quando as palavras não dão mais conta do que temos a dizer – e assim mesmo injuriamos o indizível e o invisível,  com fonemas vivos.

 7.  Quem são essas quatro figuras e o que cada uma delas representa?

Ninguém representa nada em Artaud; é um Teato de “presentação”. Ninguém está no lugar de uma Personagem; é uma emissão direta  dos Corpos Presentes produzindo bichos sem nome, com os que estão presentes, o chamado Público.

8.  O que defecar em cena representa? Eliminar o lixo do mundo?

 Não, o Lixo se Recicla.

“Onde cheira Merda, cheira Ser”.

E quando se está enfezado, cheio de fezes não cagada, caga-se no inicio da peça, com uma dedicatória aos “Produtos Sintético de Reposição da Natureza”. Mas a peça avança nesse sentido, para uma Missa “Em Busca da FéCalidade”.

9.  O que Deus e a religião representam para Artaud?

Aí, sim, Artaud vê Deus como uma “Representação”, e ao mesmo tempo, como “Micróbios”, em que ele crê como os antigos povos terrenos, deus.

Mas há micróbios q são deus e outros que são Deus – os que justamente representam sua ação da nocividade microbiana nesta aparência sinistra que Deus veste, sempre que se diverte em Tetanizar e Endoidar humanidade, como faz agora.

É o Artaud de “O Teatro e seu Duplo”, o que dá às palavras, por exemplo, Micróbios e Crueldade, sentidos duplo. Há no rigor de seu “Teatro”e há a “Crueldade Mórbida” do Deus remasterizado  monoteísta, mono.

Enfim, Artaud acredita em deus, mas no “deus micróbio… Isso q vocês chamam de ‘micróbios’, é deus. O ser humano, quando não seguram ele, é um Animal Erótico, há nele uma tremedeira inspirada, uma espécie de pulsação criadora de inumeráveis bichos sem nome, que é a forma com que os antigos povos terrenos chamavam deus”.

Conclusão: Artaud acredita no deus micróbio, no deus que está no ato de criação do humano e dos bichos sem nome.

*Fotos acima de Jennifer Glass. Abaixo, O Teat(r)o Oficina lotado na estreia de Pra dar um fim no juízo de deus, em 21/03/2015. Foto Felipe Stucchi.

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