Aziz Ab´Sáber, o patrimônio e o Teatro Oficina

aziz

Zé Celso me pediu que eu relembrasse um pouco a ação política de meu pai referente ao patrimônio cultural paulista, e também brasileiro, de quando ele esteve à frente do Condephaat, no início dos anos de 1980.

Naquele momento travado da cultura política do Brasil, em que o processo de redemocratização se tonara irreversível, mas também parecia sempre adiado ao infinito pelos interesses bem incrustrados na ditadura militar, que parecia não querer acabar nunca, uma série de buscas políticas renovadoras emergiram desde a sociedade civil que, com um grande esforço pela diferença, e em luta constante contra o poder autoritário, manteve-se viva ao longo dos anos de 1970. Tais ações projetavam esperança em um tempo renovado que estaria por vir, e que, como todos sabemos, hoje podemos dizer que não correspondeu ao que se sonhava. No bojo deste movimento bem mais amplo, meu pai, geógrafo e cientista importante, com obra real que se tornou conhecida em todo mundo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, assumiu o órgão responsável pela memória e a manutenção do patrimônio histórico e cultural do Estado de São Paulo. Ele presidiu o Condephaat por pouco mais de um ano, o suficiente para a produção de uma política fortemente renovadora do entendimento da ideia de patrimônio e do vínculo da gestão pública com a cultura viva, a mais viva possível.

Além de valorizar e buscar acelerar o processo de tombamento de bens tradicionalmente reconhecidos como patrimônio histórico, Aziz Ab’Sáber interveio em dois universos até então desconsiderados no âmbito da preservação, e mesmo do reconhecimento, de valores históricos materiais. Em primeiro lugar, ele promoveu o tombamento de importantes bens coletivos referentes a espaços ambientais de grande escala, de escala propriamente geográfica, como a Serra do Japi e todo o espaço natural remanescente de mata atlântica original da Serra do Mar de São Paulo, desde então felizmente preservada da desastrada intervenção humana – 91,5% da mata nacional foi destruída, e São Paulo, talvez por esta política, é o Estado que mais preservou algo da mata original, contida exatamente no setor da Serra. E, em um segundo e igualmente importante movimento, ele promoveu o surpreendente reconhecimento como patrimônio de bens muito recentes, modernos, ainda em processo histórico vivo e em pleno desenvolvimento, mas que implicavam grande impacto real, de importância irrecusável, na própria cultura brasileira contemporânea.

O exemplo máximo desta nova política foi o tombamento muito especial do Teatro Oficina. Me recordo quando meu pai, em um dia chuvoso me convocou – eu tinha 17 anos – para ir com ele ao Teatro, afirmando enfaticamente tratar-se de uma joia da cultura contemporânea, algo realmente importante. Ele queria de todo modo que eu conhecesse Zé Celso, com uma insistência que era relativamente rara em relação aos seus amigos. Fomos ao teatro, uma vez, para assistir a montagem experimental de Na selva das cidades em pleno espaço do canteiro de obras, daquilo que um dia viria a se tornar outra obra prima de Lina Bo Bardi. E fomos outra vez, em uma noite também muito fria, para uma projeção da filmagem de O rei da vela.

Quando cheguei ao teatro e me deparei com a situação de obra inacabada, que levaria ainda muitos anos para se completar, confesso que então não compreendi o avanço, hoje óbvio, da concepção de cultura que animava meu pai como preservacionista. Para mim, no imaginário conservador de um garoto protegido de classe média intelectualizada – às voltas com as primeiríssimas leituras de Machado, Oswald, Mário, Drummond, Borges, Flaubert, Kafka e Dostoievski, da poesia concreta brasileira, que animava muito os adolescentes da época, e ouvindo muito Caetano e The Clash – patrimônio ainda se referia vagamente a lugares construídos que implicassem em relevante qualidade artística, ou valor cultural, com originalidade histórica. Enfim, qualquer coisa antiga, importante e bonita. Era difícil entender como era possível se tombar, como patrimônio, um canteiro de obras.

Mas meu pai era maduro para estas coisas. Ele já sabia do impactante projeto de Lina Bo Bardi e de Zé Celso para o lugar – então apenas uma maquete – e partilhava fortemente da ideia daquela contribuição à cidade, antecipando o processo e protegendo o teatro dos inimigos já presentes na especulação imobiliária. De algum modo, ele já antevia aquele que seria o melhor teatro do mundo, como o jornal britânico The guardian escreveu a respeito do Oficina em 2015. Era um pacto histórico estratégico de forças e de homens muito diferentes entre si, a um tempo visionários e pragmáticos, que sonhavam mesmo com o atual Teatro Oficina Uzyna Uzona, e sua imensa contribuição à vida da desnaturada cidade de São Paulo.

Além disto, e o mais importante, meu pai me fez ver que aquela obra imensamente atrasada era de fato a representação presente, mas também em perpétua gestação, do Teatro Oficina: o Oficina de José Celso Martinez Corrêa, o Oficina do escândalo brasileiro universal do Rei da Vela de Oswald de Andrade, o Oficina dos atores espancados por paramilitares em 1968, quando da encenação de Roda viva de Chico Buarque! Era de fato, e principalmente, este movimento social e artístico limite, e contemporâneo, do mais forte e exigente do Brasil, que simbolicamente meu pai ajudava a “tombar” quando tombava o que era então o espaço em obras do teatro. A política cultural de patrimônio dava assim uma guinada espetacular, rumo à vida moderna e contemporânea brasileira. Talvez só o Teatro Oficina permitisse de fato tal passo, da criação real de uma nova política de patrimônio. Estes termos possuem todos afinidades eletivas internas.

Aquela ação cultural foi de extrema importância para que pudéssemos chegar a ter este melhor teatro de hoje, com o seu forte impacto na vida do bairro e da cidade. Pois, já naquele tempo, há mais de trinta anos, o teatro era acossado fortemente pelos imensos interesses imobiliários, muito grosseiros, que o cercavam, e que desejavam o seu próprio espaço. E estávamos ainda em uma ditadura militar, em seus estertores, mas que ainda colocava bombas em shows de 1º de maio com milhares de pessoas presentes. Sem o tombamento do movimento do Oficina, bem combinado entre o professor e os artistas, que não foi inteiramente fácil politicamente, talvez hoje nós não tivéssemos o incrível casamento de mais uma obra prima de Lina Bo com a paixão dionisíaca de Zé Celso, que ocupa e que anima o pedaço, mantendo viva a tradição radical moderna brasileira com suas obras fortes.

Como a atual e lindíssima montagem de Mistérios gozosos, baseado no “Santeiro do mangue” do patrono Oswald de Andrade, que comenta com rigor erótico máximo nossa atual situação contemporânea desoladora. Uma peça que fala exatamente a situação que aflige o Teatro mais uma vez. Sem aquela ação pública decisiva no início dos anos 80, daqueles homens de fato modernos, o Grupo Silvio Santos simplesmente teria vencido já na época, e todos nós teríamos perdido para sempre o Teatro Oficina, e tudo o que ele representa.

Era uma concepção de cultura e de vida pública mais radical, mais livre e muito mais relevante que animava aqueles homens, ao final da violenta ditadura militar de 1964-84 brasileira. Ela não passava de nenhum modo por uma cultura geral da mercadoria, mas pelo espaço público, pela arquitetura coletiva e de alto repertório, e pelo teatro crítico radical. Era um movimento político, envolvendo arquitetos, professores universitários, burocracia estatal e artistas, que sonhavam, e que ainda realizavam o melhor. E nós sabemos que aquele movimento fazia parte de um outro movimento, muito mais amplo, o da fundação de um novo e renovado partido nacional de esquerda. Naquele tempo, de algum modo próprio à época, as pessoas sabiam o que estavam fazendo e faziam exatamente o que tinham que fazer. De modo diametralmente diferente das ações erráticas, débeis, dúbias, quando não perversas do campo da política, e da política da cultura contemporâneas. Incluindo aí, agora, o já precocemente envelhecido, vencido pela adesão ao velho Brasil, grande partido de esquerda.

No final de 2015, conforme me contou um conselheiro do Condephaat, o meu amigo e historiador Pedro Puntoni, o Conselho barrou pela segunda vez uma tentativa do governo do Estado de São Paulo de adentar o perímetro tombado da Serra do Mar – por Aziz Ab’Sáber e pelo próprio Estado – para retirar água de um rio, ainda bem protegido no interior da Serra. Assim, mais uma vez, buscou-se somar um erro a outro: além do descaso com o sistema de abastecimento de água da cidade e do Estado de São Paulo, tentava-se destruir, como se fosse letra morta, o patrimônio público tombado do Estado, no caso, um raro patrimônio ambiental. Nas reuniões que barraram aquele processo, como agora, as ideias firmes, que não se enganavam sobre estas coisas, de Aziz Ab’Sáber foram evocadas, e a lei de proteção idealizada por ele foi, no último segundo, ainda protegida. Pedro Puntoni lembrou mesmo o preceito esquecido que Aziz professava: “Não temos o direito de penalizar as gerações futuras com os erros do presente, destruindo patrimônio ambiental que não nos pertence.”

Ao invés de finalmente dar andamento ao importantíssimo e totalmente esquecido Projeto Floram, realizado por uma grande equipe multidisciplinar na Universidade de São Paulo, e coordenado por Aziz Ab`Sáber, ainda em 1990, de reflorestamento sistemático e maciço do Estado de São Paulo e de todo o país, e assim manter e recuperar a flora, a fauna e as águas do Estado, se “pensou” em destruir mais um patrimônio coletivo, matando um rio, em detrimento das gerações futuras, que deverão pagar pela nossa regressão satisfeita, intelectual e ética, como pagamos hoje pelos grandes erros acumulados de nossa modernidade equivocada. Do mesmo modo, ao invés de se realizar um inteligente zoneamento ecológico e econômico da Amazônia, como meu pai escreveu em meados dos anos 90, o governo brasileiro, do qual ele se afastou nos últimos anos de sua vida cidadã, tem que explicar ao mundo, sempre e a cada ano, os constantes e massivos desmatamentos, em uma reiterada destruição de capital social, cultural e ambiental, incalculável, que visa apenas, mais uma vez, o capital privado imediato.

Do mesmo modo, observamos agora, ainda mais uma vez – após trinta anos do tombamento – a tentativa de liberar o espaço em torno do Teatro Oficina – uma obra prima da arquitetura mundial, um trabalho artístico e social de relevância histórica reconhecida, o teatro cuja energia circulante fez dele o melhor de todos, segundo os ingleses – para mais uma rodada de ataque especulativo ao bairro do Bixiga e à cidade de São Paulo. Mais uma vez, se busca reduzir o espaço cultural e público, o espaço da fruição estética e crítica, de experiência vital, para ocupá-lo com o espaço monótono e feio da cidade privativa, desde o projeto especulativo até o uso e a paisagem final, tão pobre.

O Brasil, e a cidade de São Paulo, não fizemos o trabalho de crítica mínima da produção ditatorial sobre as nossas vidas. Pois, ao invés de derrubarmos definitivamente o Minhocão – o elevado Costa e Silva – e tudo o que ele representa de ruim e mal para a cidade, e mantermos a importante praça agregada aos trabalhos profundos do terreiro eletrônico do Teatro Oficina, queremos mais uma vez encarcerar o Teatro com prédios paupérrimos, para a produção mais comum da cidade ruim de todos os dias. A mesma cidade que alimenta hoje os homens muito ruins, política e intelectualmente, de todos os nossos dias.

Tudo parece indicar que, pelo menos em outros tempos, com o trabalho de homens e mulheres como Zé Celso, Lina Bo Bardi e Aziz Ab’Sáber – e ainda tantos outros – o Brasil foi, ou buscava ser, um país inteligente e generoso. Bem mais do que o país muito discutível, esperto, arrogante e oportunista, para não dizer burro, que nos tornamos hoje.

 

Tales Ab’Sáber,

psicanalista , Professor da Universidade Federal de São Paulo.

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