6 de abril d 2016 | CACILDA BECKER FAZ 95 ANOS

cacilda becker

6 de abril d 2016

CACILDA BECKER FAZ 95 ANOS

2.021 já será seu CENTENÁRIO

será q até lá os últimos Capítulos q faltam ser montados da

ODISSÉIA CACILDA

q escreví em 1990 com Marcelo Drummond

sobre esta ATRIZ ELÉTRICA, serão completados com encenações?

Maria Tereza Vargas, sua 1ª Biógrafa me disse q acha q Cacilda está meio esquecida y pediu q eu escrevesse alguma coisa nesta data q a Becker, aniversaría

Também faz anivesário minha adorada irmã Historiadora, Ana Maria Martinez Corrêa

O melhor q eu posso fazer é passar a palavra à própria Cacilda:

 

CARTA DAS CORES DAS CACILDAS

Ela mesma escreveu numa máquina de datilografia, em papel de sêda nos seus 21 anos, eu encenei em Cacilda!! com Ana Guilhermina, Ana Abbot, Luiza Lemmertz y Anthero Montenegro fazendo o Cantor Francês, Jean Sablon, mas aqui cortei este papel mesmo muito importante pra peça como um todo e bem trabalhado na Cena, pra deixar tudo só com Cacilda y com quem for ler.

CACILDA  
(briga com cédulas de dinheiro, livros pretos de contabilidade, tintas coloridas)
DeveHaver.  
Azul-Vermelho
Verde Dollar
Cruzeiro!
Mil Réis!
Pratas! Latas!  
Tostão!
Soma! Saldo!
Pronto Bateu!
 


Não,
quase!

Já é o dia seguinte!

Apólices! já bati mais de vinte!  

Bateu! Bateu! Bateu!
Azul! Vermelho!
O Sol nasceu!

Estourei
Madrugada de Reis.  

Não há mais ninguém aqui.
Cacilda, contabiliza-te a ti!

 

(Em êxtase Iluminada, de põe camélias no cabelo. Examina os dedos e os teclais da máquina)

Dedos Teclem:
Vermelho
preto

branco.
Azul!
Pardo!  
Cinza! CINZA! C I N Z A!
Pardo!
Não.

 

(pra sí) Cacilda contabiliza-te a tí!


O meu maior temor na vida é que descubram
até q ponto sou ignorante e burrinha.
Há muito tempo
que tenho desprezado a minha alma,  

eu tenho três personalidades
ao ponto de não saber mais como é que sou.  

Eu mesma provoco choques tremendos dentro de mim.
Amo
o que não devo amar,
Faço
o que não devo fazer.
 

Entre O Deve e o Haver.  

(as tiras da máquina de calcular, jorram no chão e pinto com cor de asfalto e terra. Do seu cinto saem 5 fios de cores diferentes que fazem uma pauta musical onde três Cacildas viram notas.

A Cacilda Azul pega dois fios azuis,e leva pra cima, bem pro alto.

A Vermelha pega mais dois e leva pra Baixo.

A terceira, Dona Alzira, minha mãe Cinza Amarronzado, pega e leva para o nível médio, faz no Teatro a Pauta da Maquina de Cacilda)

Essa é minha “incontabilidade.”

Uma é a pura essência da arte,
fluida, bela
e tem uma leve Coloração Azul;
Cacilda Azul apanha os dois fios azues e leva pra cima,

nomeio do Público

Sonoplastia: Harpas de Mahler,

Outra muito material,
tem uma cor de
creme,
com riscos avermelhados
e
roxos com um pouco de dourado

(Cacilda Vermelha com baton e pó dourado de maquillagem

e leva dois fios vermelhos para o Buraco do Circulo Central, em tempo de samba)

Outra é minha consciência.  
Parda, pesada, sóbria, severa.  
(Dona Alzira leva a fita parda para a direção, entra a Música da peça “Mayerling”)

Eu distingo perfeitamente.  

Se minha primeira personalidade azul, vencesse!

(Cacilda dança todas outras Cacildas incorporam com falas)

 

CACILDA AZUL

eu sou quase uma deusa, pura, quase inerte,
passo por tudo vibrando,
refletindo como um cristal
e produzo sons,
um pouquinho dissonantes,
sabe como?
Assim como se eu caísse dentro de uma cascata
e as gotas geladas
me fizessem gritar
de susto.
Uns gritos mais agudos
e umas risadas
que a gente dá sem motivo,
um tanto desafinadas,
mas bonitas.
Eu sou impalpável.
Tudo me faz vibrar,
mas tanto sou diáfana,
que nada
é capaz de fazer sulcos muito marcados,
nada é capaz de ferir-me
a ponto de fazer sair sangue
Sou assim
como uma harpa,
esguia,
cheia de beleza,
mas sem intensidade

Vocês gostariam que fosse assim?  

E agora vamos a minha maravilhosa vermelha,
segunda personalidade.

 

CACILDA VERMELHA

Sou notável.
Cheia de dinamismo,
vibrante,
um pouco má
(acende cigarro)
calejada sabe,
ambiciosa,
tremendamente forte.
Sou assim como os pedais de uma harpa
que avolumam o som.
forte,
intensa,
humana,
amo,
choro, mordo.
Brigão lá dentro,
desejo,
anseio
e tenho um prazer imenso
em me encostar como um gigante
em cima da Cacilda Azul e da Cinzento.
Vermelho e Cinza! Beleza!

Me reencosto como num divan,
no fofo azul água de você primeira personalidade.
Brinca com você de primavera
e de vez em quando
tiro um mi bemol
(na tecla piano ela repete a nota e o sentido prolongado que a nota lhe traz )
ou um si sustenido,
(sustenta a emoção desta nota)

forte intenso.
Sou a maravilhosa harpista,
que toca por tocar
para se divertir com a própria brincadeira
e faz um barulho tremendo,
gosto de beijo,
de fumo,
de álcool…

 

(Anda sobre o Pardo. Luz chapada, de serviço, sem mistério, teatro direto do realismo das quedas nos aqui agora de trip de consciência  sem música Retorna Cacilda somando-se às outras duas Cacildas. Silêncio)
 
CACILDA PARDA

Estou sem graça, com a minha terceira personalidade parda:
meu caro, eu quase não distingo,  
sou muito esquisita,  
a pobre coitada sofre tanto  
a força da
azul da vermelha
que ainda não está bem formada.   
É por isso que nem sempre raciocino com muita clareza
Concordo com a audácia da  vermelha
mas discordo dos seus desejos;  
condeno a superficialidade da azulada,  
mas
adoro sua forma,  
a cor e a verdadeira beleza que ela tem.  
É por isso que sou parda.  
Cinzenta quase.  
Vivo uma profunda melancolia:
senho sobrecarregado,  
sempre procurando resolver um problema muito sério,  
decidir como um juiz, imparcial
qual das duas personalidade será a mais forte   
e a mais digna de vitória.  
É essa pobre melancolia  
que você vê agora no meu rosto:
é a consciência  
pasma de mim mesma!

Se você soubesse depois as consequências!
A Azul, A Vermelha a princípio,
ficam cheias de remorso  

e depois começam a rir,
(Silêncio

Cacilda Vermelha pelo espaço todo RÍ)
riem desbravadamente,

(A Azul e A Parda também riem)
loucamente!

E sabe quem sofre?  
É uma coisa que ainda existe lá dentro  
que eu não sei o que é?  
Fica compungida,  
dá um aperto no coração!  
É algo que existe  
mas que quase nunca aparece!  
Nunca, nunca.  
Fica sempre desconhecida,  
mas no momento desse choque  
das minhas três cores  
ela surge de leve,  
mas persistente,  
parece assim,  
uma gotinha d’água  
que treme no canto aos meus olhos 
É uma lágrima que chora 
É esquisito!  
E de repente some de novo…  


E As 3 Cacildas s misturam 
Tudo me mistura,  
se condensa
e dá assim essa confusão nebulosa,  
Parda, Azul,

CACILDA VERMELHA

dourada, avermelhada de som,
melancolia, de um ritmo de swing, samba
de balada,

 

CACILDA PARDA

e as vezes …de inércia   
e espanto!  

 

AS TRÊS CACILDAS

Essa confusão humana,
absolutamente Cacíldica,
minh’ alma?
Não sei,
nunca ninguém descobriu;
nunca alguém atingiu,
nem eu,
mas todas as coisas juntas,
tocam
e fazem vibrar.

 

CACILDA

Por isso
gosto e desgosto de uma coisa só.
Por isso
eu mesma não me encontro.

Cansei de me procurar.
Até parece uma grande orquestra,
de quem não conhece instrumentos,
e não distingue saxofone de clarineta.  

Não me peça para dizer
o que significa
o dó, ré, mi, fá, sol, lá, si
nessa sinfonia…
e muito bemol ou sustenido.
isso será loucura
ou falta de assunto?

Quanta bobagem!
Mas quanta verdade.
(para o público)

Tocador do lá
desta sinfonia confusa,
um beijo para você  

 

Cacilda Becker

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2 comentários
  1. Reinaldo Cotia Braga disse:

    “Meu encontro com Cacilda Becker”caro zé celso. quando vc. virtá ao rio de janeiro. quero contar meu encontro com cacilda no teatro serrador em 1968, durante um ensaio geral de peça de françoise sagan…eu com 21 anos e ela no auge com sua  “martha” de “quem tem medo de virginia woolf”…reinaldo cotia braga

  2. thatyaneccn disse:

    Zé, obrigada por compartilhar esse texto. Sou meio Cacilda também, ariana demais com Vênus em peixes… me vejo, me leio, e peço pra Cacilda lá no astral me abençoar (e de repente enquanto escrevo isso cai uma folha ruidosa de uma árvore bem do meu lado!). Um grande abraço, a gente ainda se vê por esses caminhos da Vida e do Te-at(r)o!

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