Vitória da nossa Paixão

Segunda-feira, 26 de outubro de 2016, o Teatro Oficina goza mais uma Vitória na Luta contra o martírio secular da especulação imobiliária.

Em maioria, conselheiros do CONDEPHAAT, o órgão de preservação do patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do estado de São Paulo, votaram contra a construção das torres que assombrariam o Teat®o Oficina e todo o entorno do bairro tombado do Bixiga.

A votação que poderia passar despercebida foi colocada em cena por atuadores y pelo cordão de amigos dourados do Teat®o – Edson Elito, Guilherme Wisnik, Tales Ab’Saber. Contagiados pela direção de Dionísio e diante de uma votação quente e histórica, o poder da nossa presença desmontou a presença do poder.

CRONOLOGIA E COSMOLOGIA DA RE-EXISTÊNCIA
Há 56 anos o Teat®o Oficina cultiva Ritos Teat®ais na rua Jaceguay 520 do Bixiga. Há 36 anos encena a luta contra o capital financeiro baixado no braço imobiliário do grupo Silvio Santos – a Sisan Empreendimentos Imobiliários. Que há mais de 20 anos tenta aprovar um empreendimento nas terras do entorno do teatro.

2000
É aprovado, pela prefeitura, a construção do Shopping Center Bela Vista Festival Center, a construtora se nega a seguir os parâmetros construtivos do município, e por medida cautelar, a obra é embargada.

pastedimage

2004
Vem a tentativa de aprovar um projeto híbrido de shopping com um teatro que supostamente atenderia a complementação do projeto de Lina Bardi e Edson Elito – o Anhangabaú da Feliz Cidade – mas que só consegue produzir um teatro fechado em si mesmo, fora de toda a concepção do teatro rua, do teatro aberto à cidade, ágora pública, do teatro pra multidão e que não contracena com o bairro de forma que oCONPREP pede alteração no desenho e o grupo abandona o projeto.

pastedimage-1

2008
Baixam as torres – um condomínio residencial de três prédios de quase 100m de altura – dois na lateral oeste do teatro, do janelão de 120m² e da cesalpina – árvore totem plantada por Lina Bardi e ponta de Lança pra possessão do entorno, e um prédio na lateral leste do teatro, com o pomar, as alamedas e o mirante da rua Santo Amaro. O grupo SISANtenta aprovar os prédios nas três estâncias dos órgãos de preservação do patrimônio – CONPRESP, CONDEPHAAT e IPHAN.

pastedimage-2

2013
O conselho do CONDEPHAAT aprova a construção das torres, na ocasião o órgão era presidido por Ana Lucia Duarte Lanna, que entre outros argumentos legalistas, defende o direito à propriedade da empresa, desprezando a própria função do órgão de proteger o patrimônio cultural material e imaterial do Teat®o Oficina e do bairro tombado do Bixiga.

Desde então o grupo vem tentando aprovar os projetos das torres noIPHAN, que na presidência de Jurema Machado, com o brilhante parecer, em 2010, tomba o Teat®o Oficina já na sua perspectiva urbana, incorporando o Anhangabaú da Feliz Cidade e dando direções pra solução do impasse a partir da desapropriação ou troca de terrenos.

O projeto tinha ainda a previsão, indicada por croquis da arquiteta e por vãos deixados na parede de fundos, de desembocar numa praça pública posicionada em lote perpendicular ao do teatro. A importância do Oficina, a escassez de espaços públicos que dêm vazão à riqueza cultural do Bexiga, a intensidade de percursos a pé em um bairro popular e tão próximo do centro de São Paulo eram, e continuam sendo, motivos mais do que suficientes para se almejar essa escala.

O que não fica claro – e deveria merecer uma avaliação mais aprofundada – é porque uma cidade como São Paulo, onde se tem a maior e mais consolidada experiência de aplicação de instrumentos urbanísticos como a transferência do direito de construir e as operações urbanas não elegeu o Bexiga para a aplicação prioritária desses mecanismos, justo uma região tão bem localizada, que tem potencialmente muito mais valor para São Paulo – até mesmo sob o ponto vista estritamente financeiro – pela sua diversidade cultural do que pela quantidade de metros quadrados que se possa construir ali. Edificações com destinações comerciais e de serviços, que não tenham outros requisitos locacionais a não ser a acessibilidade, podem ser deslocadas dentro do espaço da cidade utilizando instrumentos dessa natureza. Já o lugar das práticas culturais é ali, e só ali. Se não for ali, o Bexiga como tal deixará de existir.

Atualmente, o parecer do IPHAN é contrário ao projeto atual da Sisan ao lado do janelão do teatro, mas se manifesta sobre o prédio da rua Santo Amaro.

Ainda em 2008 o grupo tem a aprovação do projeto pelo CONPRESP, que em 2015, depois de uma modificação no desenho pelo próprio grupo, se posiciona contrário ao projeto, desde então os pareceres dos relatores doCONPRESP são desfavoráveis a construção das torres.

2016
Este ano, a Sisan dá nova entrada para aprovação no CONDEPHAAT. A votação entrou em pauta nas reuniões do conselho no dia 29 de agosto e abriu o primeiro ato dos três que tiveram sua apoteose na votação do dia 26 de outubro – com o veto e o xeque mate das torres no quarteirão do Bixiga.

O presidente do CONDEPHAAT e alguns conselheiros insistiam na iniciativa caduca de tomar uma ‘decisão à luz da resolução vigente’, votando com base na situação do teatro em 1982, data do tombamento no CONDEPHAAT, desprezando a obra de arte atual projetada por Lina Bardi e Edson Elito – 3º Teat®o Oficina aberto para o Minhocão, para as Chuvas, as Luas, Estrelas, pra Sol e todas as descobertas da companhia ao longo destes quase 35 anos, vivendo a vida ao vivo no canteyro de obras permanente da Uzyna Uzona.

pastedimage-3
a sól em cena na peça Cailda !!!!

pastedimage-4

o janelão de 120m2 em cena na peça Cacilda !!!!!

As transformações feitas pela companhia foram transformações arquitetônicas substanciais que permitiram a existência contemporânea do teatro e do trabalho na companhia, que extrapola os limites do teatro, pondo em cena o projeto rascunhado na década de 80 e o teatro já projetado na sua perspectiva urbana.

pastedimage-5

pastedimage-6

pastedimage-7pastedimage-8

pastedimage-9

O presidente do CONDEPHAAT chegou a falar sobre um pretenso conforto ambiental gerado pelo assombramento das torres e que na época do tombamento o vão do janelão não existia, interpretando abstratamente o tombamento e desprezando a ousadia do laudo do arquiteto conselheiro na época, o artista Flávio Império, tombando, em 1982, o que ele chamou de O Movimento de expansão da linha de trabalho da companhia.

Sem incorrer na corrente que costuma mitificar e cristalizar valores, considero o próprio edifício do Teatro Oficina de suma importância para documentação de como se deu, nos anos 60, o surto de pesquisas de linguagem teatral que influenciou até hoje o teatro moderno no Brasil.

O teatro oficina passou por vários tipos de organização interna da relação palco e platéia: atuante-espectador. Este fator constitui-se parte integrante das suas pesquisas: o espaço da cena, um dos elementos básicos da sua pesquisa de linguagem eminentemente teatral.

O seu tombamento não deveria, portanto, considerar fixo, congelado o seu equipamento interno para não estrangular as novas ou futuras propostas de pesquisas do grupo.

Flávio teve a grandeza trans humana, de defender em seu Laudo Técnico pro Tombamento, a destruição transmutadora de sua Obra pra dar passagem ao Terreyro Eletrônico.

Os argumentos das votações também vieram, estrategicamente, construindo um equívoco que vem se criando pra engrossar o coro dos que acreditam que o Anhangabaú da FelizCidade é a projeção do ‘ego do Zé Celso’, como se se tratasse da transferência de propriedade do terreno para a associação, surdos ao coro da companhia e das vozes públicas, que já estão mais que sabidas, de que se trata de sagrar este terreno como Terras Públicas, com programa Cultural, sobretudo pros Ritos Teat®ais – o ponto de encontro do corpo a corpo da humanidade – gerido e com curadoria de um conselho onde a companhia tem parte.

O poder da presença de Tales Ab’Saber evocou a ousadia do pai e geógrafo Aziz, presidente do CONDEPHAAT na ocasião do tombamento em 1982, que na sua direção desejava do órgão ousadia e criação de novos paradigmas pros instrumentos de preservação da cultura.

O tombamento do Teatro Oficina processou-se nos fins do ano de 1982, do século passado, em uma época em que o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arqueológico (CONDEPHAAT), conseguiu ampliar o foco das preocupações mais importantes e diversificadas.

Ao invés de se preocupar apenas com prédios e museus históricos, ou igrejas e capelinhas, o conselho naquele momento fixou-se em fatos representativos da natureza no território paulista (Serra do Mar, Serra do Japi, Pedra Grande, Atibaia, entre outros). Em segundo lugar houve uma preocupação especial com os centros históricos de velhas cidades paulistas (Itanhaem e Iguape; Bananal e Cunha; São Luis do Paraitinga entre outras). E por fim os principais teatros existentes na cidade e periferia central de São Paulo.

Em um tempo em que, por razões diversas, grandes e pequenos teatros e cinemas estavam ameaçados de fechamento e perda de funções culturais porque “todo espaço virou mercadoria”, como dizem os jovens geógrafos da Universidade de São Paulo, surgiram os primeiros shoppings e galerias para atendimento dos distritos centrais de negócios, e bairros sócio-econômicos de habitantes mais bem aquinhoados e consumistas.

A dimensão urbana do projeto do Anhangabaú da FelizCidade foi trazida e se entendeu que o impacto das torres não cairiam somente sobre o teatro, mas sobre um conjunto arquitetônico tombado pelo próprioCONDEPHAAT, formado pela Casa da Dona Yayá, a Escola de Primeiras Letras, o Castelinho da Brigadeiro e o Teatro Brasileiro de Comédia.  Já desenhando o território cultural descoberto durante a x Bienal de arquitetura em 2013, com a explosão do programa do Anhangabaú, tornando-o radicalmente público.

pastedimage-10

pastedimage-11

pastedimage-12

pastedimage-13

Apesar da manipulação e da parcialidade de como foi conduzida a votação e da convicção divina do presidente do Condephaat – de que arranha-céus de cem metros de altura são a melhor opção pra um bairro com 900 casarios tombados, e que sombra é a melhor caminho higiênico pro interior de um teatro que tem como maior diretor das encenações , a Sol – muitos conselheiro deram pareceres e se manifestaram de forma brilhante, apaixonada, defendendo o teatro e o bairro com o que ultrapassa a tecnicidade das leis e o patrimônio – a VIDA, ECOLOGIA DA NÃO EXTINÇÃO DOS SERES VIVOS Y MORTOS, HUMANOS Y NÃOHUMANOS.

Anúncios
2 comentários
  1. RENATO ARAUJO DA SILVA disse:

    Vislumbrado de tanto poder da presença “Haja hoje para tanto ontem”, disse transfigurado Paulo Leminski, nosso TAO. Vivam, portanto, os janelões do oficina como transparência humana! Vivam o espaço do entorno como o palco da propria vida. Vivam a Lina, vivam o Bexiga, o mais vivo de aqui/agora do que nunca, vivam os corajosos do presente e do passado que se levantaram contra forças do pensamento único que se pretenderam absolutas. Vivam aqueles como o também translúcido, um outro TAO do oriente na luta contra o império da compra e venda que disse: “As dificuldades seråo muitas, mas confiamos em nossas próprias forças”. Phạm Văn Đồng. Vivam o tombamento da FelizCidade, Vivam o TAO (Teatro Aberto Oficina).

  2. Lenir Vicente disse:

    teatro oficina é patrimônio nacional da cultura.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: