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Anhangabaú da Feliz Cidade

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foto: Cafi

4ª Feira de Cinzas

CORIFEU DOS DEVEDORES

(Música de Vila Lobos. Cena do “Rei da Vela”  de Oswald de Andrade q vai pro encontro de Ação com o Público – “Estar em Cena ao Vivo pra Viver”

q devo estrear antes do dia 19 numa segunda feira… não sei ainda… 

TyZÉ-RÍAs

Eu Sou o Corifeu dos Devedores Relápsos!

Dos Maus Pagadores!

Dos desonrados da sociedade capitalista!

Os q tem o nome tingido pra sempre pela má tinta dos protestos!

Os q mandam dizer q não estão em casa aos Oficinais de Justiça!

Os q pedem envergonhadamente tostões pra dar de comer aos filhos!

Os aflitos q não dormem pensando nas penhoras!

A Amé-ri-ca-é-um blefe!!!

Nós todos mudamos de continente pra enriquecer.

Só encontramos aqui escravidão e trabalho!

Sob as garras do Imperialismo!

Hoje morremos de miséria e de vergonha!

Somos os recrutas da pobreza!

Milhões de falidos transatlânticos!

Para as nossas famílias educadas na Ilusão da

A-mé-ri-ca  só há á escolher a cadeia ou o rende vouz!

Há o sui-cí-dio também!

O sui-ci-do…

Sou a maioria da população mundial!

Não vou pro suicídio… mas parto pra Estar em Cena ao Vivo para Viver”

parto como Ham-let pra

Ação 

TyZÉrias

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Grandes jovens Pensadores como o jovem Psicanalista Tales Ab’Saber, o mais jovem ainda, Silas Martí, crítico de artes plásticas da Ilustrada, Rudifran, o dinâmico diretor da Cooperativa de Teatro de São Paulo, o jovem advogado Hugo Albuquerqueestão criando um Cerco de Amigos Dourados do Teatro Oficina ao $erco das Torres, feito de Inteligência, Amor à Vida, à Terra, em Indústrias Reunidas de Poesías como um Levante do Poder das Línguas da Cultura Brazileira y Mundial.

 

 

A cidade vista “pelo mais”

Por Guilherme Wisnik

O Teatro Oficina é hoje, em certa medida, ainda mais relevante do que foi nos gloriosos anos 1960. É o edifício radical de Lina Bo Bardi e Edson Elito, com sua generosa visão urbanística, que foi escolhido pelo jornal britânico “The Guardian”, no final do 2015, como “o melhor teatro do mundo”, à frente, inclusive, do anfiteatro de Epidauro, na Grécia.

Quando reaberto ao público em 1993, depois de 20 anos fechado, o novo Oficina passou a contracenar com uma cidade muito distinta da que existia no auge da contracultura e da repressão militar.

Hoje, ele se tornou não apenas um polo de experimentação teatral de vanguarda mas também uma importantíssima referência de urbanidade, na contramão da cidade-empresa neoliberal que se tornou hegemônica desde então.

Acuado pelo avanço especulativo que vai destruindo o bairro do Bexiga e ameaça emparedar o próprio teatro, o Oficina se associou aos movimentos de sem-teto do entorno, trazendo-os para o palco, passou a defender a gestão pública e coletiva da terra urbana com uma visão ecológica, propondo um parque e uma universidade no seu entorno, e colocou claramente os valores culturais, educacionais e de lazer como paradigma de resistência à pura especulação privada da terra.

Sua presença na cidade é, assim, essencialmente política.

O traço que une fortemente o Oficina aos movimentos por moradia, e que os torna muito exemplares, é a afronta ao sacrossanto direito de propriedade privada.

Zé Celso é antropófago. Atacado, ameaçado de desaparecimento, ele reage em grande estilo, querendo incorporar aquilo que é do outro: os terrenos do Grupo Silvio Santos. Não para o seu próprio bem, mas para o da coletividade. Sei que não é algo muito “razoável”. Mas representa a resistência necessária, e muito minoritária, hoje, contra o cálculo burocrático, contra a ideia de inevitabilidade do mercado, contra a desistência da política. Foi com a consciência antecipada disso, baseada em uma grandeza intelectual ímpar, que Aziz Ab’Saber tombou o teatro no Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), em 1982.

Hoje, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) permite a construção de enormes torres vizinhas ao teatro. O que, se acontecer, obscurecerá a sua enorme fachada lateral de vidro, por onde passa uma árvore, soterrando sua dimensão urbana.

Sofrendo forte pressão do Ministério Público, o Iphan liberou a construção do empreendimento, em contradição aberta com o laudo de tombamento do teatro feito pelo órgão em 2010, alegando não ter instrumentos jurídicos para barrá-lo.

Trata-se de um processo crescente de judicialização da política, com consequências terríveis para as nossas cidades. Em nome de um suposto maior controle da sociedade sobre as decisões na cidade, acaba-se submetendo a política à burrice mesquinha da burocracia. É o que tem travado, também, muitas das importantes propostas urbanas da gestão Haddad.

Vamos assistir a isso de forma resignada, alegando que se conseguiu fazer “pelo menos” algumas ações paliativas? Ou vamos agir “pelo mais” e defender o Teatro Oficina e sua ambiciosa e exigente visão de cidade?

 

Da arte de celebrar e vilipendiar Lina Bo Bardi

Por Silas Martí

Nos últimos tempos, Lina Bo Bardi vem sendo redescoberta pelo meio artístico do Brasil e do mundo, inspirando mostras, livros e debates. No Masp, o resgate de seus cavaletes de vidro, que voltaram a fazer os quadros flutuar na galeria de pinturas do maior museu da América Latina, foi o gesto mais autêntico e radical da nova administração da instituição, mostrando que um olhar para o passado às vezes pode pavimentar a rota para um futuro menos cruel com a memória.

 

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Teatro Oficina, obra de Lina Bo Bardi, em São Paulo

Mas a confirmação recente de que o Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, deve autorizar em breve a construção de três torres de até 28 andares no terreno ao lado do Teatro Oficina, uma das obras mais poderosas de Bo Bardi, é um tanto chocante. Talvez mais chocante seja a justificativa esfarrapada desse órgão de que o tombamento que deveria proteger o teatro na Bela Vista diz respeito só ao interior do prédio e não à preservação da vista de seu janelão de cem metros quadrados. Letras miúdas à parte, os burocratas lotados ali parecem não saber que a transparência —nunca viram a Casa de Vidro?— é um dos maiores valores que pautam as obras dessa arquiteta. A construção de um paredão de prédios colado ao Oficina será a morte de sua maior virtude, que é ser ao mesmo tempo uma rua e uma plataforma cênica aberta à cidade, penetrada pela metrópole e ao mesmo tempo deixando vazar para a rua a fúria de seus espetáculos.

 

Não sou do time que resiste a qualquer mudança na cidade, nem acho que tudo deve ser cristalizado como está. Mas o Oficina precisa ser preservado, quem sabe ganhando a praça externa que Bo Bardi idealizou em vida. Entendo que o espaço é também protegido pelos órgãos de defesa do patrimônio do Estado e do município de São Paulo, o que atravanca um pouco os planos do Grupo Silvio Santos de construir suas torres ali. Acontece que com o aval da esfera federal, essas entidades regionais têm poder reduzido e podem acabar cedendo.

 

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Cavaletes de Lina Bo Bardi na Galeria de pinturas do Masp

É no mínimo paradoxal que Bo Bardi seja ao mesmo tempo celebrada e vilipendiada na mesma cidade, a São Paulo que absorveu sua obra do jeito desengonçado e atravessado que as coisas acontecem por aqui. Esse não deixa de ser mais um marco na paisagem que pode sofrer um arranhão. Evitar a construção de um paredão ali pode evitar o que já ocorre na Vila Mariana, onde um prédio gigantesco de escritórios foi construído atrás das casas que Gregori Warchavchik construiu na rua Berta, hoje quase esmagadas pelo vizinho. Pelo visto, a memória da arquitetura em São Paulo parece sobreviver só da porta para dentro, em fotografias, reproduções e resgates historicistas. Enquanto isso, empreiteiras vão reduzindo a pó pedaços da história da cidade.

 

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Perspectiva de como deve ficar o Teatro Oficina junto às novas torres

 

Estamos desaparecendo! Ou reagimos ou sumimos… puff!

Por Rudifran Almeida Pompeu

O IPHAN, órgão do Ministério da Cultura que tem a missão de preservar o patrimônio cultural brasileiro, diz que não tem instrumentos jurídicos para conter a mão pesada e endinheirada da especulação imobiliária e, com isso, declara sua incapacidade de preservar o Teatro Oficina das ambições milionárias da SISAN.

O “Oficina de José Celso Martinez Corrêa, o Oficina do escândalo brasileiro universal do Rei da Vela de Oswald de Andrade, o Oficina dos atores espancados por paramilitares em 1968, quando da encenação de Roda viva de Chico Buarque!” como bem disse o Tales Ab’Sáber.

Portanto, sugerimos ao Ministro Juca Ferreira que não entre nessa esparrela jurídica da impossibilidade instrumental sempre utilizada pelos poderosos para nos suprimir do mapa e que reaja com firmeza nessa ação que se torna emergencial e urgente.
Que o ministro se interponha de todas as maneiras junto a presidenta da republica e aos órgãos de governo para esse enfrentamento contra a especulação imobiliária que todos sabem servir de dinheiro as campanhas políticas de quase tudo quanto é legenda desse país! Que a luta pela preservação de nosso patrimônio seja mais forte que as forças financeiras que só visam o lucro e beneficies particulares.

Se isso não for possível, então que se feche o IPHAN já que não serve pra defender o óbvio…

Bora pra luta! Bora brigar um pouco, porque os governos sempre passam e nós continuaremos aqui. Seguimos na luta pelo não encaixotamento do oficina! ‪#‎juntoscomzecelso‬ ‪#‎teatrooficinaresiste‬ ‪#‎reageoficinauzinauzona‬

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foto: Nancy Mora

Sou Cégo d’Teat(r)o

q vê

da Terra do Bixíga

onde Teatro

em se plantando

sempre deu

a quem se dá 

mas…

q está $ercado

por $oldados Engravatados Executivos Executores

do Holocausto Repetitivo

do Direito Romano de Propriedade

q diferença existe

entre fundamentalistas destruidores de Santuários,

cortadores de Cabeças

y

os Fundamentalista$ da Especulação Imobiliária Néo Bandeirantes:

Caçadores Destruidores de santuários y cortadores d cabeças q não querem ser capturadas?

 

Estes pretendem destruir o último pedaço de terra livre do Centro d SamPã.

Pra isso tem de Cortar Cabeças

d Artistas,

d’ Autoridades d Defesa do Patrimônio,

d’ Jornalistas das Mídias, Midiinhas, Midionas,

d’ Cabecinhas, Cabeçonas

q não cabem nas suas toscas estruturas de captura:

no seu Carandirú Pobreza

“Trê$ Torre$ Prisões

Nessa Terra “perdida

há Cabeças Coroadas de Héras, se Fazendo ,

se dando às mitolo(r)gias

q os povos noite y dia

criam,

cantam,

dançam,

na terra

no ar

pássaros voadores

des-assombrando

pensamentos livres

q vôam

mas

q sabem se erguer do chão

com seus Bastões,

Tyrsos Báquicos

y conceber suas estratégias

num piscar da voz da

Marechal de Nossa Tropa:

Madame Morineau:

O Teatro Recuou, Meu Filho! Ohpuf …realmente…

No, No, No, assí no dá …

 

Ah! E aí, sentir o desejo de passar do “recuo” ,

ao AVANÇO

com seu Bastão de Bacantes y Satyrxs Guerreirxs

y

proferir na própria carne

a palavra mágica Ham-let:

AÇÃO

Estes tem o Phoder de enfrentar estes Exército$ de Pentheus y Drs. Abobrinhas

 

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foto: Mário Pizzi

 

Ió! Os Artistas de Todas as Artes

 

Ió! Gente q phala pra Gente,

Na língua direta de Gente,

 

Ió! Dytirambistas (todos os Tambores)

 Músicxs

Arquitetxs, Urbanistxs, Cientistxs, …

Façam esse favor pra todos…

Mas a Protagonização da Arte Aglutinadora Física dos Teatros onde Todos

os Teatros são nossos Teatros

é, quer se queira ou não,

a gente de teatro

mesmo combalida.

É só se apoiar no Tyrso d Dionisios y ficar de Pé Dançante

Somos peões satyrxs de SamPã

da Tropa de Choque Cultural q pode Acordar

no Bixiga

não só o Brasil,

mas o Mundo.

 

IÓ! Amantes d Dionizios do Mundo Inteiro,

Vamos criar uma Orgya da Arte d Teatro do Bárbaro Tecnizado Total da Terra!

 

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foto: Mário Pizzi

 

 

IÓ! Estrategistas d todas as Artes

 

IÓ! Amantes do estar em cena com o Público diretamente

 

IÓ! Anônimos nas revistas caras, esbanjando poder de aventureiros teatrais nos teatros de rua, cultivando as Metrópoles engasgadas quase subterrados;

 

IÓ! Cooperativas de Teatros q se tornam Comunas Teatais

 

IÓ! Celebridades de Televisão q tem Sangue de Teatro no Corpo

 

IÓ! Poder da Imaginação, d Atrizes, Atores, Palhaços do Brasil y do Mundo

 

Muitos me perguntam

como ajudar” ?

 

Não, ajuda”, não,

não tem “ ajuda

nem dar uma força,

mas atuar

até se espatifar

pra poder voar

 

IÓ! É o Xamado Báquico

À Massa d Sangue dos Corpos em Possessão q vem se juntar aos Posseiros impedindo os Carrascos da Propriedade Privada

É o q

TIRIAS

Vê hoje

 

Terça-Feira GORDA DE CARNAVAL DE 2016 em SamPã

 

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foto: Mário Pizzi

 

Amadxs Beth Viviani y Guilherme Wisnik

Antes de TUDO

Guilherme:

Teu texto é Maravilhoso

Corajoso

Claro

Luminoso

Inspirador

de TiZÉrias o Antropófago

nesta Terça Gorda de Carnaval

depois de te ler y quebrar meu útero coração de criar um Diário do $erco no meu Blogg, mas pra espalhar, não ficar lá dormindo …

Acordei hoje animado por Momo

Y inpirado em Vossos Textos:
Guile y Beth

Inaugurei um

Diário d “TyZÉrias $ercado

Mas há correção de um Erro de má compreensão desta Entidade q baixou em mim, desde q soube do $erco:

y Beth, foi você com teu corajoso, lúcido texto quem me fez ver, após você ler o texto de Guilherme, y me escrever y botar o dedo na contribuição enorme deste erro.

quando fui avisado à 22 de Janeiro deste ano de 2016, q este era o último dia do prazo para que a Presidente do Iphan, a Arquitetx e Urbanistx Jurema Machado, liberasse ou não,

à Sizan Empreendimentos Imobiliários” do Grupo Silvio Santos,

a construção das Gigantescas Torres, Prisões do Entorno Tombado do Teat(r)o Oficina; comecei a ligar desesperado pra pessoas mais próximas à luta por esse último terreno respirável de SamPã.

Liguei pra você meu amigo dourado Arquiteto Urbanista Guilherme Wisnik, no seu celular.

Você estava na Praia em Férias no Litoral da Bahia, eu devo ter dito por telefone a você Gui, q o Ministério Público era o responsável pela Ação de Reintegracão de Posse.

Acho q foi assim q eu, doido d TyZérias, recebi ou ouvi a notícia do $erco

Mas eu mesmo achava muito estranho q justamente este órgão q tem o papel de defender o Patrimônio Cultural do Brasil, tivesse tomado esta medida.

Somente antes do Carnaval, Juca Ferreira, Ministro da Cultura esclareceu minha cegueira, dizendo q se tratava de uma Ação da Justiça, vencida pela $isan e me aconselhou a procurar Nabil Bonduki Secretário Municipal de Cultura de São Paulo. Este teria informações mais precisas.

É o q eu vou fazer na 4ª Feira de Cinzas, mas acho q entendi. Tive conhecimento deste $erco quando já era aparentemente “vitorioso”, nem deu pra lamentar, porque não adianta reclamar do leite derramado.

Claro q se trata do famoso Direito de Propriedade Romano, o único direito q aprendi na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, como um Dogma, um Tabu, um Axioma Indiscutível, aquele em que ainda se baseia toda a Ordem Mundial Capitali$ta

Mas me recordo de uma citação em latim de um jurista do ex-Império: “ut eleganter Celsus dixit, ius est ars boni et equi” = como o elegante jurista Celsus disse: o direito é a arte do bom e do equitativo.

Nunca acreditei neste Mito da Propriedade Privada, e sempre vi a Justiça como uma questão de Interpretação, como no Teat(r)o, dependendo de cada situação concreta.

Grandes jovens Pensadores como o jovem Psicanalista Tales Ab’Saber, o mais jovem ainda, Silas Martí, crítico de artes plásticas da Ilustrada, Rudifran, o dinâmico diretor da Cooperativa de Teatro de São Paulo, estão criando como você Guile, como você Beth, um Cerco de Amigos Dourados do Teatro Oficina ao $erco das Torres, feito de Inteligência, Amor à Vida, à Terra, em Indústrias Reunidas de Poesías como um Levante do Poder das Línguas da Cultura Brazileira y Mundial.

Por isso no ontem do sempre hoje,

passo a palavra à minha amiga, escritora Beth Viviani:

“Por coincidência, depois de pensar em você e te escrever um email, leio agora à meia noite o texto do Wisnik na Folha.”

Aí , Yo, TiZÉrias intervenho, pois é o q me levou a entender a questão mais profundamente:

“Não entendi a ‘forte pressão do Ministério Público’ sobre o Iphan.

Baseado em que argumento o MP fez a pressão?

O que significa 

‘um suposto maior controle da sociedade 

sobre as decisões na cidade’?

Não é  o contrário?

Temos que fazer política.

O movimento do capital não pode ocorrer no vácuo.

Existem controles e regras que o poder público pode impor, que foram incorporados em legislações criadas pelos movimentos da sociedade ao longo da história.

Acho que há espaço e toda a legitimidade na defesa de nosso patrimônio cultural.

Ninguém vai pretender abolir a propriedade privada, mas ela deve se curvar à história da nossa cidade.

Me explica essa postura do MP.”

(ainda não sei do Caso na Justiça, sabendo ponho na Ágora)

Vitória na guerra!

Podemos usar esse bordão da novela sensação da Globo! 

 Querido Zé Celso = TyZÉrias,

enviei um recado para você e Marcelo pelo Whatsapp, no contato do Oficina que apareceu na lista. Mas vou repetir aqui o que falei. É grande minha preocupação com a decisão legal (?) sobre o destino do terreno que, por direito de cidadania, de prioridade cultural, de ocupação urbanística civilizatória de São Paulo, pertence ao Oficina e ao povo paulista.

Qual a reação mais adequada para reverter mais esse golpe do capital imobiliário e de autoridades servis?  

Citando a famosa frase,

o que fazer?

Nós, cidadãos revoltados, podemos fazer algo?

Estou neste momento em São Sebastião de férias, 

volto em torno do dia 22.

Com o afeto da

Beth Viviani”

Beth, muita gente me pergunta, só agora sei responder, TyZÉrias vai saber esta semana, é importantíssimo termos acesso aos Autos deste Processo, q redunda neste Crime Ecológico Cultural.

Dr. Gustavo Neves Fortes do Escritório de Advogados do Grande Criminalista Dr. Tales Castelo Branco está já investigando.

TyZÉrias 

EVOÉS

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Foto: Janine Moraes

Segundo matéria publicada hoje na Folha Ilustrada:

“Órgão (IPHAN) vai liberar Torres perto do Oficina” 

Estas Torres são as da Sisan Empreendimentos Imobiliários, q faz parte do Grupo Silvio Santos, e irão, se aprovadas, sufocar o Teat(r)o Oficina y o Bixiga.

Jurema Machado, no seu Laudo do Tombamento do Teat(r)o Oficinatem a réplica necessária à matéria da Ilustrada de hoje, dia 1 de fevereiro d 2016

Tenho certeza q ela acredita até hoje totalmente no q escreveu. Mas, de uma maneira ou de outra, sinto q paira sobre a cabeça de Jurema a inquisição como a q caiu  sobre a cabeça de Galileu Galilei, ou mesmo a ameaça de ser queimada como Joana d’Arc.

É um escândalo  Cultural e Político isso acontecer com uma Autoridade e Pessoa tão fundamental na Presidência do Instituto de Preservação do Patrimônio Histórico e Artístico do Brasil, não poder fazer o q pensa pro bem do Patrimônio Histórico y Artístico Brasileiro.

Leiam com atenção estas palavras q resumem seu parecer do Tombamento de 2010.

É o q Jurema,  como arquiteta, urbanista, técnica e pessoa afetiva, pensa, sente e vive hoje ainda:

 

RESUMO DO Q IMPORTA AGORA

A relação entre o Teatro Oficina e o Bexiga e as recomendações quanto ao entorno:
Os imigrantes italianos pobres, que se instalaram nos pequenos lotes do parcelamento da Chácara do Bexiga no final do século XIX, encontraram ali o núcleo semi-rural de Saracura, onde existia um remanescente de quilombo. Uma situação topográfica complicada, a proximidade do centro e da Avenida Paulista, fizeram do Bexiga um reduto de trabalhadores domésticos das casas de alto padrão, operários, trabalhadores informais, pequenos comerciantes. Esse modelo, que, segundo Raquel Rolnik em A Cidade e a Lei – legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo, se reproduziu em vários bairros da cidade, explica porque o Bexiga é hoje, não apenas o bairro dos italianos, mas o lugar das festas populares, do samba paulista, de uma das mais importantes escolas de samba do país – a Vai Vai, e dos terreiros de candomblé. Em torno dos anos 1960/70, o Bexiga se tornou um pólo da vida boêmia da cidade, lugar dos teatros (ainda hoje são mais de dez), bares e cantinas, hoje integrados a um circuito turistico-cultural de São Paulo.

Encontra-se em desenvolvimento, pelo Departamento de Patrimônio Imaterial do IPHAN, o inventário de Referências Culturais da região, que poderá oferecer insumos importantes para a salvaguarda desses valores culturais.

Tombamentos municipais (cerca de 900 imóveis) e zonas especiais (ZEPCs – Zonas de Especialis de Patrimônio Cultural e ZEIS – Zonas Especiais de Interesse Social) previstas pelo Plano Diretor atestam a importância do bairro e o interesse de se preservar ali, não apenas edificações, mas os usos e a diversidade que são o seu maior valor.
É imediato associar o Teatro Oficina a esse contexto por duas vias: tanto o Oficina pode ser tomado como elemento chave de um processo de reabilitação, quanto a preservação dos valores do bairro é essencial à vitalidade do Oficina.

O que não fica claro – e deveria merecer uma avaliação mais aprofundada – é porque uma cidade como São Paulo, onde se tem a maior e mais consolidada experiência de aplicação de instrumentos urbanísticos como a transferência do direito de construir e as operações urbanas não elegeu o Bexiga para a aplicação prioritária desses mecanismos, justo uma região tão bem localizada, que tem potencialmente muito mais valor para São Paulo – até mesmo sob o ponto vista estritamente financeiro – pela sua diversidade cultural do que pela quantidade de metros quadrados que se possa construir ali. Edificações com destinações comerciais e de serviços, que não tenham outros requisitos locacionais a não ser a acessibilidade, podem ser deslocadas dentro do espaço da cidade utilizando instrumentos dessa natureza. Já o lugar das práticas culturais é ali, e só ali. Se não for ali, o Bexiga como tal deixará de existir.

Jurema Machado
Rio de Janeiro, 24 de junho de 2010

Conclusão
Considerando o Parecer da Relatora e após discussão do Conselho, foi a seguinte a decisão final:

  • Pela inscrição do Teatro Oficina no Livro de Tombo Histórico e no Livro de Tombo das Belas Artes.

  • Pela re-avaliação posterior, pelo IPHAN, da delimitação do entorno, tendo em vista tratar-se de bem a ser inscrito também no Livro de Belas Artes e não exclusivamente no Livro Histórico,e

  • Pela manifestação, ao Ministro da Cultura, de que o Ministério e o governo federal identifiquem mecanismos que viabilizem a destinação do terreno contiguo ao Teatro Oficina para um equipamento cultural de uso público, utilizando mecanismos tais como a aquisição, a desapropriação ou a conjugação destes com instrumentos urbanísticos a serem identificados em cooperação com o Município e com o Estado de São Paulo.

 

Processo de tombamento N 1.515-T-04

Teatro Oficina, de São Paulo

 

Zé Celso

…a Terra gira… stá girando 

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Zé Celso me pediu que eu relembrasse um pouco a ação política de meu pai referente ao patrimônio cultural paulista, e também brasileiro, de quando ele esteve à frente do Condephaat, no início dos anos de 1980.

Naquele momento travado da cultura política do Brasil, em que o processo de redemocratização se tonara irreversível, mas também parecia sempre adiado ao infinito pelos interesses bem incrustrados na ditadura militar, que parecia não querer acabar nunca, uma série de buscas políticas renovadoras emergiram desde a sociedade civil que, com um grande esforço pela diferença, e em luta constante contra o poder autoritário, manteve-se viva ao longo dos anos de 1970. Tais ações projetavam esperança em um tempo renovado que estaria por vir, e que, como todos sabemos, hoje podemos dizer que não correspondeu ao que se sonhava. No bojo deste movimento bem mais amplo, meu pai, geógrafo e cientista importante, com obra real que se tornou conhecida em todo mundo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, assumiu o órgão responsável pela memória e a manutenção do patrimônio histórico e cultural do Estado de São Paulo. Ele presidiu o Condephaat por pouco mais de um ano, o suficiente para a produção de uma política fortemente renovadora do entendimento da ideia de patrimônio e do vínculo da gestão pública com a cultura viva, a mais viva possível.

Além de valorizar e buscar acelerar o processo de tombamento de bens tradicionalmente reconhecidos como patrimônio histórico, Aziz Ab’Sáber interveio em dois universos até então desconsiderados no âmbito da preservação, e mesmo do reconhecimento, de valores históricos materiais. Em primeiro lugar, ele promoveu o tombamento de importantes bens coletivos referentes a espaços ambientais de grande escala, de escala propriamente geográfica, como a Serra do Japi e todo o espaço natural remanescente de mata atlântica original da Serra do Mar de São Paulo, desde então felizmente preservada da desastrada intervenção humana – 91,5% da mata nacional foi destruída, e São Paulo, talvez por esta política, é o Estado que mais preservou algo da mata original, contida exatamente no setor da Serra. E, em um segundo e igualmente importante movimento, ele promoveu o surpreendente reconhecimento como patrimônio de bens muito recentes, modernos, ainda em processo histórico vivo e em pleno desenvolvimento, mas que implicavam grande impacto real, de importância irrecusável, na própria cultura brasileira contemporânea.

O exemplo máximo desta nova política foi o tombamento muito especial do Teatro Oficina. Me recordo quando meu pai, em um dia chuvoso me convocou – eu tinha 17 anos – para ir com ele ao Teatro, afirmando enfaticamente tratar-se de uma joia da cultura contemporânea, algo realmente importante. Ele queria de todo modo que eu conhecesse Zé Celso, com uma insistência que era relativamente rara em relação aos seus amigos. Fomos ao teatro, uma vez, para assistir a montagem experimental de Na selva das cidades em pleno espaço do canteiro de obras, daquilo que um dia viria a se tornar outra obra prima de Lina Bo Bardi. E fomos outra vez, em uma noite também muito fria, para uma projeção da filmagem de O rei da vela.

Quando cheguei ao teatro e me deparei com a situação de obra inacabada, que levaria ainda muitos anos para se completar, confesso que então não compreendi o avanço, hoje óbvio, da concepção de cultura que animava meu pai como preservacionista. Para mim, no imaginário conservador de um garoto protegido de classe média intelectualizada – às voltas com as primeiríssimas leituras de Machado, Oswald, Mário, Drummond, Borges, Flaubert, Kafka e Dostoievski, da poesia concreta brasileira, que animava muito os adolescentes da época, e ouvindo muito Caetano e The Clash – patrimônio ainda se referia vagamente a lugares construídos que implicassem em relevante qualidade artística, ou valor cultural, com originalidade histórica. Enfim, qualquer coisa antiga, importante e bonita. Era difícil entender como era possível se tombar, como patrimônio, um canteiro de obras.

Mas meu pai era maduro para estas coisas. Ele já sabia do impactante projeto de Lina Bo Bardi e de Zé Celso para o lugar – então apenas uma maquete – e partilhava fortemente da ideia daquela contribuição à cidade, antecipando o processo e protegendo o teatro dos inimigos já presentes na especulação imobiliária. De algum modo, ele já antevia aquele que seria o melhor teatro do mundo, como o jornal britânico The guardian escreveu a respeito do Oficina em 2015. Era um pacto histórico estratégico de forças e de homens muito diferentes entre si, a um tempo visionários e pragmáticos, que sonhavam mesmo com o atual Teatro Oficina Uzyna Uzona, e sua imensa contribuição à vida da desnaturada cidade de São Paulo.

Além disto, e o mais importante, meu pai me fez ver que aquela obra imensamente atrasada era de fato a representação presente, mas também em perpétua gestação, do Teatro Oficina: o Oficina de José Celso Martinez Corrêa, o Oficina do escândalo brasileiro universal do Rei da Vela de Oswald de Andrade, o Oficina dos atores espancados por paramilitares em 1968, quando da encenação de Roda viva de Chico Buarque! Era de fato, e principalmente, este movimento social e artístico limite, e contemporâneo, do mais forte e exigente do Brasil, que simbolicamente meu pai ajudava a “tombar” quando tombava o que era então o espaço em obras do teatro. A política cultural de patrimônio dava assim uma guinada espetacular, rumo à vida moderna e contemporânea brasileira. Talvez só o Teatro Oficina permitisse de fato tal passo, da criação real de uma nova política de patrimônio. Estes termos possuem todos afinidades eletivas internas.

Aquela ação cultural foi de extrema importância para que pudéssemos chegar a ter este melhor teatro de hoje, com o seu forte impacto na vida do bairro e da cidade. Pois, já naquele tempo, há mais de trinta anos, o teatro era acossado fortemente pelos imensos interesses imobiliários, muito grosseiros, que o cercavam, e que desejavam o seu próprio espaço. E estávamos ainda em uma ditadura militar, em seus estertores, mas que ainda colocava bombas em shows de 1º de maio com milhares de pessoas presentes. Sem o tombamento do movimento do Oficina, bem combinado entre o professor e os artistas, que não foi inteiramente fácil politicamente, talvez hoje nós não tivéssemos o incrível casamento de mais uma obra prima de Lina Bo com a paixão dionisíaca de Zé Celso, que ocupa e que anima o pedaço, mantendo viva a tradição radical moderna brasileira com suas obras fortes.

Como a atual e lindíssima montagem de Mistérios gozosos, baseado no “Santeiro do mangue” do patrono Oswald de Andrade, que comenta com rigor erótico máximo nossa atual situação contemporânea desoladora. Uma peça que fala exatamente a situação que aflige o Teatro mais uma vez. Sem aquela ação pública decisiva no início dos anos 80, daqueles homens de fato modernos, o Grupo Silvio Santos simplesmente teria vencido já na época, e todos nós teríamos perdido para sempre o Teatro Oficina, e tudo o que ele representa.

Era uma concepção de cultura e de vida pública mais radical, mais livre e muito mais relevante que animava aqueles homens, ao final da violenta ditadura militar de 1964-84 brasileira. Ela não passava de nenhum modo por uma cultura geral da mercadoria, mas pelo espaço público, pela arquitetura coletiva e de alto repertório, e pelo teatro crítico radical. Era um movimento político, envolvendo arquitetos, professores universitários, burocracia estatal e artistas, que sonhavam, e que ainda realizavam o melhor. E nós sabemos que aquele movimento fazia parte de um outro movimento, muito mais amplo, o da fundação de um novo e renovado partido nacional de esquerda. Naquele tempo, de algum modo próprio à época, as pessoas sabiam o que estavam fazendo e faziam exatamente o que tinham que fazer. De modo diametralmente diferente das ações erráticas, débeis, dúbias, quando não perversas do campo da política, e da política da cultura contemporâneas. Incluindo aí, agora, o já precocemente envelhecido, vencido pela adesão ao velho Brasil, grande partido de esquerda.

No final de 2015, conforme me contou um conselheiro do Condephaat, o meu amigo e historiador Pedro Puntoni, o Conselho barrou pela segunda vez uma tentativa do governo do Estado de São Paulo de adentar o perímetro tombado da Serra do Mar – por Aziz Ab’Sáber e pelo próprio Estado – para retirar água de um rio, ainda bem protegido no interior da Serra. Assim, mais uma vez, buscou-se somar um erro a outro: além do descaso com o sistema de abastecimento de água da cidade e do Estado de São Paulo, tentava-se destruir, como se fosse letra morta, o patrimônio público tombado do Estado, no caso, um raro patrimônio ambiental. Nas reuniões que barraram aquele processo, como agora, as ideias firmes, que não se enganavam sobre estas coisas, de Aziz Ab’Sáber foram evocadas, e a lei de proteção idealizada por ele foi, no último segundo, ainda protegida. Pedro Puntoni lembrou mesmo o preceito esquecido que Aziz professava: “Não temos o direito de penalizar as gerações futuras com os erros do presente, destruindo patrimônio ambiental que não nos pertence.”

Ao invés de finalmente dar andamento ao importantíssimo e totalmente esquecido Projeto Floram, realizado por uma grande equipe multidisciplinar na Universidade de São Paulo, e coordenado por Aziz Ab`Sáber, ainda em 1990, de reflorestamento sistemático e maciço do Estado de São Paulo e de todo o país, e assim manter e recuperar a flora, a fauna e as águas do Estado, se “pensou” em destruir mais um patrimônio coletivo, matando um rio, em detrimento das gerações futuras, que deverão pagar pela nossa regressão satisfeita, intelectual e ética, como pagamos hoje pelos grandes erros acumulados de nossa modernidade equivocada. Do mesmo modo, ao invés de se realizar um inteligente zoneamento ecológico e econômico da Amazônia, como meu pai escreveu em meados dos anos 90, o governo brasileiro, do qual ele se afastou nos últimos anos de sua vida cidadã, tem que explicar ao mundo, sempre e a cada ano, os constantes e massivos desmatamentos, em uma reiterada destruição de capital social, cultural e ambiental, incalculável, que visa apenas, mais uma vez, o capital privado imediato.

Do mesmo modo, observamos agora, ainda mais uma vez – após trinta anos do tombamento – a tentativa de liberar o espaço em torno do Teatro Oficina – uma obra prima da arquitetura mundial, um trabalho artístico e social de relevância histórica reconhecida, o teatro cuja energia circulante fez dele o melhor de todos, segundo os ingleses – para mais uma rodada de ataque especulativo ao bairro do Bixiga e à cidade de São Paulo. Mais uma vez, se busca reduzir o espaço cultural e público, o espaço da fruição estética e crítica, de experiência vital, para ocupá-lo com o espaço monótono e feio da cidade privativa, desde o projeto especulativo até o uso e a paisagem final, tão pobre.

O Brasil, e a cidade de São Paulo, não fizemos o trabalho de crítica mínima da produção ditatorial sobre as nossas vidas. Pois, ao invés de derrubarmos definitivamente o Minhocão – o elevado Costa e Silva – e tudo o que ele representa de ruim e mal para a cidade, e mantermos a importante praça agregada aos trabalhos profundos do terreiro eletrônico do Teatro Oficina, queremos mais uma vez encarcerar o Teatro com prédios paupérrimos, para a produção mais comum da cidade ruim de todos os dias. A mesma cidade que alimenta hoje os homens muito ruins, política e intelectualmente, de todos os nossos dias.

Tudo parece indicar que, pelo menos em outros tempos, com o trabalho de homens e mulheres como Zé Celso, Lina Bo Bardi e Aziz Ab’Sáber – e ainda tantos outros – o Brasil foi, ou buscava ser, um país inteligente e generoso. Bem mais do que o país muito discutível, esperto, arrogante e oportunista, para não dizer burro, que nos tornamos hoje.

 

Tales Ab’Sáber,

psicanalista , Professor da Universidade Federal de São Paulo.

Resposta a seu, texto apresentado em 9/9/2013 ao órgão que preside, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo que, em maio deste ano, autorizou a construção de duas torres residenciais ao lado do Teatro Oficina, tombado por este mesmo órgão em 1982.

entorno

Ter a Cabeça do Inimigo nas mãos
e a sabedoria de tocar
pra ele ver de pé
a nossa Vitória

– Versos cantados de BACANTES, Eurípedes, antropofagiados pela Cia. de Artistas do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona.

Agradeço à Dionísio, a você Ana Duarte Lanna, esse texto tão revelador enfim de sua posição, de seu Viewpoint, sua Posição Ideólogica, sua Interpretação dos Direitos, suas Vontades em relação ao Patrimônio Cultural Teat(r)o Oficina. Agradeço a bela foto que o acompanha, onde se vê o Janelão de Vidro que dá para a Cidade e o Cosmos, o Jardim do Oficina com o tronco da Árvore Cezalpina nascido nele e seu tronco já penetrando no entorno deste Bem Cultural Tombado que agora recebe também, além do Tombamento Material, a declaração de seu Valor Imaterial, proposta em Projeto de Lei por deputados da Comissão de Cultura da Assembléia Estadual onde o Oficina Uzyna Uzona será finalmente reconhecido como, por exemplo, a Mangueira: Escola de Samba do Rio de Janeiro.

Quem somos
Você estava inspirada na reunião do Condephaat de 20 de maio de 2013 que deliberava sobre o Teat(r)o Oficina e a sua área envoltória. De acordo com a legislação tem toda razão: A área envoltória nunca é bem tombado. Mas o tombamento configura uma área envoltória de 195 metros e as intervenções em área envoltória são objeto de análise pelo Condephaat. Nesta reunião, vocês trataram desta análise.

Em seu texto você logo revela um engano, a partir de seu ponto de vista, que eu posso revelar com precisão: não existe “Companhia de Teatro Uzyna Uzona, que ocupa o Teatro Oficina”. Quem ocupa este lugar é a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, registrada desde 19 de janeiro de 1984 em Cartório – sucessora das Cia. Teatro Oficina Ltda., Oficina Samba (durante o exílio em Portugal), Oficina 5º Tempo (no retorno ao Brasil durante a abertura lenta, restrita e gradual). Portanto não existe também o “Grupo Uzyna Uzona”. O que juridicamente nos qualifica é esta Associação de Tecno-Artistas Multimídia, que nos obriga a cada ano criarmos Atas das Assembleias Ordinárias testemunhando todas o cumprimento de nossa tarefa principal: construir em faina diuturna a História Viva do Teat(r)o Oficina, criando sempre espetáculos que dêem continuidade ao momento revolucionário da encenação de “O Rei da Vela” do Poeta paulistano Oswald de Andrade.

A Revolução Cultural trazida pelo Rei da Vela
Esta peça, que estreou o segundo Teatro Oficina, dos arquitetos Flávio Império e Rodrigo Lefévre, viu ao mesmo tempo superado o próprio Espaço de Teatro inaugurado por ela.
A peça encenada trouxe a religação com a Antropofagia de Oswald, que por sua vez religou o Teat(r)o a toda Cultura Popular Brazyleira – o retorno a Arcaica Cultura Sagrada Pagã dos Rituais Teat(r)ais dos Caetés, dos indígenas de todo o Planeta em suas muitas Eras, aos rituais de incorporação na dança e canto das culturas Afro-brasileiras, à Cultura da Musica Popular, Pop, Erudita Brazyleira e Internacional. Trouxe no Brasil a sua descolonização, desde 1967, num dos movimentos culturais mais celebrados no fim do século XX: a Tropicália.

Os Coros Tragicomicorgiásticos
O mesmo acontecendo logo a seguir com o glorioso retorno dos Coros Pagãos milenares de Teat(r)o, criadores na Grécia dos Ritos explicitamente chamados de teat(r)ais. Há milênios os Coros tinham desaparecido e por séculos foram buscados em todos os grandes momentos da Arte Teat(r)al.
Nietzsche, na sua 1ª grande obra conhecida, “A Origem da Tragédia no Espírito da Musica”, lembrando os Coros da Tragédia Grega, aponta seu retorno para o futuro.
Aconteceu no Brasil, no Rio de Janeiro em 68, com o retorno dos Coros em “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda. A grandeza do acontecimento cultural foi obscurecida pelos ataques à Peça perpetrados pelo Comando de Caça aos Comunistas em SP e depois pelo próprio 3º Exército Brasileiro, em Porto Alegre.
Estas duas peças pra mim são como se fossem a mesma, com os protagonistas de “O Rei da Vela” e os Coros de “Roda Viva” – são o Ponto Galilaico da Revolução da Arte do Teat(r)o acontecida no Brasil de 1967 a 1968 e dando seus frutos até hoje.

Antropofagia
Na Audiência Pública realizada em 05 de setembro de 2013, Camila Mota, atriz há 16 anos associada à Companhia permanente do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona pedia a desapropriação do terreno para a implantação do projeto antropofágico do grupo, o Anhangabaú da Feliz Cidade, não como você escreve Ana Lanna, “segundo uma terminologia do grupo”. Tente apagar o seu novo engano, amada Ana Lanna. A Antropofagia não é a terminologia, a gíria de um “grupo”, como você nos chama.

Não é invenção de um gueto ou de um grupelho. Os poetas concretos paulistanos, os consagrados irmãos Haroldo e Augusto de Campos consideram “A Antropofagia Oswaldiana como o único pensamento filosófico original brasileiro”. E está sendo estudada no mundo inteiro como uma filosofia que pode transformar os apartheides – os racismos, os fundamentalismos, os especulativismos, os preconceitos na relação entre os povos de diferentes culturas – pelo modo de vida da maior parte do povo brazyleiro: a miscigenacão democrática das culturas. Tanto que em 2006 aconteceu no Teatro de duas platéias de Lina Bardi, no Sesc Pompeia, o EIA, Encontro Internacional de Antropofagia, em que antropólogos, artistas, historiadores, filósofos, músicos de várias partes do mundo, durante uma semana, criaram, phalaram, sobre este tema tabú desde o início da colonização do Brazyl.
Não é portanto uma linguagem de uma gangue de privilegiados, mas de povos arcaicos e presentes no mundo todo que almejam o fim das barreiras culturais, raciais, sexuais, religiosas, fundamentalistas, que tem causado tantas guerras à humanidade, sobretudo nos dias de Hoje.

Tombamento Revolucionário
Veio o AI-5. Estreamos com o quê? Nada mais nada menos que “Galileu Galilei”, no dia 13 de dezembro de 1968 – data da implantação da fase mais sangrenta da Ditadura Militar. Narro este ponto da história porque foi através desta peça que começamos a entender que a Cultura cria Cosmos – não grupos. Cria maneiras de ler, interpretar, viver a Vida no Mundo.

Começamos a perceber que o Oficina era um Cosmos, uma trajetória que desenhava um Discurso do Movimento, nome de um dos trabalhos do físico Galileu, que atravessou clandestinamente as fronteiras onde a Inquisição dominava nas mãos de um jovem físico que havia trabalhado com ele. Galileu o havia escrito nas noite de lua escondido da filha que era freira da Inquisição. Este trabalho o deixou cego e ele o escondia num Astrolábio – instrumento que em toda sua vida renegou, pois era constituído de tiras de bronze em que os astros todos giravam em torno da Terra.

Aconteceu o mesmo conosco. Quando fomos exilados em 1974, a grande cantora de Brecht e grande atriz Maria Alice Vergueiro fez passar todo o Arquivo do Oficina – inclusive o audiovisual porque tínhamos “O Rei da Vela” já filmado, mas ainda não montado – através do Consulado Francês de SP para ser desembarcado em Paris. Chamávamos este pacote embalado em muitas malas de “Todo o Discurso do Movimento”, do Oficina que começávamos a estudar. Sabíamos que estávamos descobrindo o retorno ao Teat(r)o como arte milenar orgânica da Humanidade em plena violência da Ditadura Brazyleira. Precisamos cuidar de todo o material para estudarmos a continuação de nossa história não terminada aí, como você Ana Lanna, pensa. Daí vem sua concepção de Tombamento Histórico o Teatro Oficina como um túmulo.

A violenta interrupção de um processo em plena floração nesta fase com a invasão do Teat(r)o Oficina, prisão, tortura de muitos de seus Tecno-Artistas, foi um capítulo heróico – continuado no exílio em países que passavam por movimentos revolucionários.

Esta peça, que combatia o pico da Ditadura Militar no Brasil, se hoje encenada, espelharia a luta em que os “sábios de Florença”, transfigurados em sábios do Condephaat de hoje, não querem acreditar no que seus olhos vêem.

Mesmo dentro do Terreiro Eletrôniko de Lina Bardi e Edson Elito, na Audiência Pública do dia 5/9/2013, não viam diante de si os seres vivos como a árvore Cesalpina plantada por Lina atravessar os muros e chegar ao entorno avançando muito mais do que o ridículo 1m e 80 cm, oferecido por estes “sábios” que não levam em conta sequer o janelão que dá pra Cidade e pro Cosmos, mesmo diante da presença das coisas em si, construídas pelo Oficina Uzyna Uzona, pelo próprio Governo de SP, pelo Ministério da Cultura na gestão do economista e humanista Celso Furtado, pela Sociedade Civil e até por Paulo Maluf, que pagou os fundamentos do edifício do Teat(r)o para fortalecer as paredes do pé direito alto do Oficina.
Estes momentos de construção da obra de Lina, logo após o reestabelecimento da democracia no Brazyl, formaram um breve período em que os burocratas não tinham ainda este poder – fortalecido pelo Cassino da Especulação Financeira.

Os atuais burocratas do Condephaat agem alegando que não existia, na data do Tombamento, este belíssimo espaço aberto dando para a Cidade: estão assim justificando a defesa da construção das Torres Assassinas do Bairro do Bexiga!
São esses paradoxos destes nossos tempos, desta Babel Feliciana, que me dão a sensação do absurdo e loucura das pessoas que ocupam cargos públicos para inverter sua função.
Você mesma, Ana Duarte Lanna, na FAU-USP revelou que não gosta das torres, que as acha horrendas. Pasmem: soubemos que você ainda faz parte da comissão da comemoração oficial do centenário de Lina Bardi!
E você pode ao mesmo tempo querer que se destrua o projeto arquitetônico urbanístico total, para o qual o Oficina foi tombado em 1982/83. O Teat(r)o Oficina prédio não existia mais à época, estava em ruínas, sem as poltronas azuis que oferecemos no 1º de Maio de 1980 ao Sindicato no ABC presidido pelo líder Vicentinho. As paredes estavam cheias de buracos pois nós começamos a construção do Terreiro Eletrôniko para tornar irreversível nosso movimento de transformação.
Todos vão poder ver como estava o Oficina no vídeo “Caderneta de Campo”, uma co-produção do Oficina Uzyna Uzona com a Fundação Padre Anchieta, vencedor do 1º Festival Videobrasil, que este ano comemora 30 anos. Este vídeo foi misteriosamente proibido pela Fundação Padre Anchieta, da TV Cultura, mas será exibido em outubro nesta cidade em comemoração a este aniversário. Aliás, há cenas do dia do Tombamento por Aziz Ab’Saber – que nos recebeu animadíssimo por termos entrado com a Compania Oficina Uzyna Uzona toda para acompanhar a sessão, com câmeras de vídeo – onde poderemos ver Lina Bardi com sua maquete em madeira do Terreiro Eletrôniko para o Oficina e do Teatro de Estádio para nosso entorno, então criado.

Aliás o ponto X é a discussão do diferente deste tombamento que revolucionou a questão da defesa do patrimônio cultural.

O Tombamento foi realizado exatamente em consequência da tentativa do Grupo Silvio Santos querer destruir o Oficina para construir um empreendimento imobiliário, inclusive, no fim do ano de 1980, visando comprar do antigo proprietário o Teatro, ao qual pagávamos aluguel.
Um grande movimento de opinião pública impediu esta possibilidade e inspirou os homens de cultura da Secretaria de Cultura, em 1982, a tombar o Oficina, ao mesmo tempo em que estes empenhavam-se em conseguir do Estado a desapropriação do terreno da Jaceguai e seu entorno para construir o projeto então criado por Lina Bardi.
Na sua citação do laudo do arquiteto e artista de Teatro Flávio Império: o Teatro Oficina passou por vários tipos de organização interna da relação palco platéia: atuante-espectador. Este fator constituiu-se em parte integrante de suas pesquisas: o ‘espaço’ da cena. Um dos elementos básicos de sua pesquisa de linguagem eminentemente teatral. Seu ‘tombamento’ não deveria, portanto, considerar fixo, congelado, o seu equipamento interno, para não estrangular as novas ou futuras propostas de pesquisa do grupo”
Há que se mencionar que não foi mencionado por você o trecho que finaliza o documento de Flávio: “Concordo com as medidas de urgência, no caso do seu tombamento, dada a iminência da incorporação da sua área de chão a um grande complexo comercial”.
E é obvio que não foi mencionado este granfinale do texto por referir-se ao “grande complexo comercial” que é o mesmo que sua gestão atual autorizou: a construção das torres.
Aliás, o mesmo “grande complexo comercial” derrubou duas casas de vila típicas do Bexiga, tombadas pelo Condephaat, vizinhas do Teat(r)o Oficina, que o projeto de Lina visava ocupar com a casa de Produção e com o Arquivo da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona.
Outra intervenção deste “grande complexo comercial” dói até hoje – ter tapado vitrais dos camarins superiores nos mezaninos ao norte que Lina pretendia que fossem transparentes à Cidade – locais de concentração dos atuadores abertos para a paisagem viva da Cidade e do Cosmos.
Além disso, uma abertura de uma janela no muro norte, feita e filmada no dia 6 de janeiro de 1980, logo que voltamos do exílio, tombada com o Teat(r)o Oficina em 1982, foi amurada por este futuro complexo comercial do Grupo SS no dia 9 de novembro de 1989 – dia da Queda do Muro de Berlim.
O Condephaat desta época já era o que parecia ter se tornado depois da última gestão autônoma do órgão pelo Dr. Modesto Carvalhosa – uma espécie de braço deste Complexo Comercial, pois nunca levou em conta estes crimes contra o Patrimônio Tombado.

janelas_abertas_1989_0006

Na época dizia-se, como se diz ainda hoje aí no Condephaat, que “Zé Celso é um velho decadente que é contra o progresso de São Paulo”.

Não acredito que as Torres valham mais que a Praça Cultural que a própria Ministra da Cultura Marta Suplicy vem negociando com Silvio Santos – por indicação do Laudo do Tombamento do IPHAN, onde pretende-se realizar não um Complexo Comercial, mas Cultural, ligando o Oficina, seu entorno, o TBC, a Casa de Dona Yaya, em direção ao AnhangaBaú – daí um dos nomes que demos à esta Praça da Paixão da Cultura: Anhangabaú da Feliz Cidade, que inspirou um presente para esta causa, um belíssimo Samba-Hino composto pelo poeta, músico e catedrático de Literatura na USP, José Miguel Wisnik..

Jurema Machado, atual Presidente do IPHAN, no seu Laudo de Tombamento, quando era conselheira e representava a UNESCO, escreve:

“O que não fica claro – e deveria merecer uma avaliação mais aprofundada – é porque uma cidade como São Paulo, onde se tem a maior e mais consolidada experiência de aplicação de instrumentos urbanísticos como a transferência do direito de construir e as operações urbanas não elegeu o Bexiga para a aplicação prioritária desses mecanismos, justo uma região tão bem localizada, que tem potencialmente muito mais valor para São Paulo – até mesmo sob o ponto vista estritamente financeiro – pela sua diversidade cultural do que pela quantidade de metros quadrados que se possa construir ali. Edificações com destinações comerciais e de serviços, que não tenham outros requisitos locacionais a não ser a acessibilidade, podem ser deslocadas dentro do espaço da cidade utilizando instrumentos dessa natureza. Já o lugar das práticas culturais é ali, e só ali. Se não for ali, o Bexiga como tal deixará de existir.” 

Lina Bardi, que se chama Aquilina – com seu olhar de Águia, estendeu um dos braços com os dedos apontando para os arcos romanos da rua pista cênica em direção ao Norte – ao Anhangabaú – derrubando virtualmente com os olhos os muros, atravessando o terreno do entorno, a Rua Japurá, chegando ao Vale do AnhangaBaú sobre o qual ela estava realizando seu excepcionalmente belo projeto para um concurso público, que para a infelicidade geral da saúde e beleza da metrópole de SamPã não foi contemplado.
Ela pretendia fazer verde novamente o Vale do Anhangabaú – era a razão mais forte de seu projeto para o Oficina ter um alcance urbano: um Teat(r)o que, através de uma das quatro ruas do entorno penetraria a Cidade em direção ao Vale do Anhangabaú.
O Tombamento se deu exatamente porque Azis Ab’Saber, Flávio Império e João Carlos Martins compartilhavam deste arrojado projeto. O Tombamento seria uma 1ª Etapa que se seguiria à desapropriação e à construção deste Complexo Cultural Urbano.
Flávio fez aquele texto exatamente abrindo caminhos para que construíssemos o projeto de Lina Bardi, do Terreiro Eletrôniko = rua dando para as “Catacumbas de Silvio Santos” ou Pista Rua (hoje denominada Rua Lina Bardi) dando para uma Ágora: o Teatro de Estádio – preconizado por Oswald de Andrade em seu manifesto “Do Teatro que é Bom”: um “Teatro de Estádio” como antídoto ao “Teatro de Câmara”. Texto que consta do Livro “Ponta de Lança”.

Há uma obssessão, não somente do Codephaat, mas de uma geração freqüentadora do Teatro Oficina nos anos 60 – e por isso seu texto é de interesse Público – exatamente a minha geração, hoje acomodada no poder, que não perdoa nós termos continuado a linha evolutiva brotada nos anos 60. Não aceitam o Teat(r)o que se faz hoje pela Companhia dos Artistas da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona como uma consequência, uma continuidade de tudo que no fim dos anos 60 começou a renascer no Teatro Oficina e no Mundo.

Esta é a Grande divisão entre essas duas visões do Destino dos Patrimônios Culturais e da Própria Vida com que hoje nos confrontamos.

O encontro do Oficina com Lina Bardi
Na encenação de “Na Selva das Cidades”, em 1969 – um ano após o AI-5, portanto 13 anos antes do Tombamento, Lina instalou um Ringue de Box no centro do espaço concebido por Flávio Império, dividindo o espaço em dois pontos: uma arquibancada com ingressos vendidos mais baratos e poltronas azuis vendidas a preço mais alto.
A peça do Jovem Brecht foi encenada exatamente quando o Bixiga era dividido em 2 pelo Elevado Costa e Silva. Lina Bardi, com os destroços das demolições e árvores cortadas, fez a Arquitetura Cênica Urbana da peça. A peça era dividida em 11 Rounds.
É a Luta entre um bilionário chinês que invade com sua gangue a livraria onde trabalha o jovem Garga, e lhe pede que venda por 50 dólares sua opinião sobre um livro. O jovem alega que está lá pra vender as opiniões de Rimbaud, Salinger etc… A oferta vai aumentando, mas o jovem Garga continua negando-se a vender sua opinião e toda a livraria é quebrada. Era então uma referência à invasão de “Roda Viva” pelo CCC.
Os destroços iam se acumulando numa área em que foi construída uma armação de arame para proteger o Público dos cacos das destruições que voavam pelo espaço nos próximos rounds.

Todas as instituições iam entrando em cena magnificadas para ser estilhaçadas, acumulando seus escombros num Lixão em redor do palco ringue: a Empresa do Bilionário, a Casa da Família de Garga no dia de seu casamento irrealizado e o bordel onde vai parar a irmã do herói, Maria Garga, interpretada passionalmente pela grande Ítala Nandi realizando o 1º nu frontal feminino do Teatro Brazyleiro. A personagem se apaixona pelo perseguidor de seu irmão que quer comprar sua opinião… As personagens, principalmente Femininas, cobre-se de jóias criadas com os cacos dos escombros da Destruição & Construção do Minhocão.

Num determinado momento as duas personagens aceitam encontrar-se num lago de Michigan, mítico deserto criado pelo Jovem Brecht.

Nesta cena o ringue é totalmente destruído em seu chão – são retiradas suas tábuas até se chegar ao chão de Terra do espaço da Rua Jaceguai 520.

Então Lina disse:

“Aí está o “Sertão” da Rua Jaceguay 520.”

Era pra termos montado juntos “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, o que não ocorreu devido à morte do arquiteto urbanista artista.
Ao mesmo tempo, ali, em Lina Bardi, nascia o espaço do Terreiro Eletrôniko do Teat(r)o Oficina.

Logo a seguir fomos, Lina, parte da Companhia do Oficina Uzyna Uzona e minha pessoa, filmar em Florianópolis “Prata Palomares”, filme do cineasta André Farias que tem Lina como diretora de arte. Numa folga da filmagem fomos a um Terreiro de Candomblé, estreito como a lâmina de uma gilete, e nasceu a Pista do Oficina. Juntos tivemos a Eureka! Lina emocionada com os tambores cobrindo sua voz disse: “Assim vai ser o Terreiro Eletrôniko do Teat(r)o Oficina.”

Bienal Internacional de Arquitetura SP 2013
Hoje o arquiteto Guilherme Wisnik, curador desta Bienal, cria um camping no terreno do entorno do Oficina Uzyna Uzona tombado para estudar o que descobrimos juntamente com Lina: as Catacumbas de Silvio Santos em direção ao Anhangabaú, o Teatro de Estádio, a Universidade Antropófaga, a Oficina de Florestas, a creche pro bairro da periferia central de SamPã, o Bixiga. A inspiração do conteúdo desta Bienal vem da Obra Prima de Arquitetura Cênica Urbana de Lina Bardi: o espaço cênico de “Na Selva das Cidades”, realizada em 1969 a partir da reciclagem da destruição do Bixiga na Construção do Minhocão.

Há inúmeros projetos para esta área – entre eles um mais completo feito pelos arquitetos João Batista Martinez Corrêa e Beatriz Pimenta Corrêa, respectivamente meu irmão e minha sobrinha. Esse projeto foi construído quando recusamos o de Marcelo Ferraz, da Brasil Arquitetura, que tentava conciliar o Shopping com um Teatro que não aprovamos por ser um Teatro de Palco Italiano cercado por muros muito altos, com aspecto de uma masmorra. Marcelo Ferraz havia me procurado porque havia sido chamado por um advogado do Grupo Silvio Santos para realizar um projeto que conciliasse as aspirações do Teat(r)o Oficina e o Shopping desejado pelo Grupo SS.

Na época quem havíamos convidado para fazer o projeto era Oscar Niemeyer, mas diante de Marcelo Ferraz que me disse que só aceitaria o trabalho se eu estivesse de acordo, concordei que ele tentasse esta conciliação. Como eu via ele sempre trabalhando com Lina, aceitei. Ele me pediu então um programa para a obra no entorno do Oficina. Eu trabalhei bastante e fiz. Mas o Resultado apresentado foi decepcionante. Então pedi para meu irmão, arquiteto João Batista, que fizesse um projeto baseado no programa que eu havia feito para publicarmos com meu texto numa edição bilíngüe, afim de a divulgarmos as possibilidades do local.

Ele fez um trabalho maravilhoso! De grande beleza, que quase foi construído na gestão do atual Secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Juca Ferreira, então Ministro da Cultura, mas Dilma não o chamou para continuar no Ministério.

Outros projetos apareceram como o do arquiteto Cristiane Cortílio, apresentado para sua graduação na FAU.

Surgiram muitos outros, inclusive de arquitetos internacionais.

Projeto do Teatro de Estádio por Jeremy Galván, arquiteto francês

Projeto do Teatro de Estádio por Jeremy Galván, arquiteto francês

Quando o Iphan tombou o Teat(r)o Oficina e seu entorno, Silvio Santos propôs a troca de seu Terreno no nosso entorno por outro da União, pois com o Tombamento ele percebeu que seria complicado continuar insistindo numa luta de 30 anos – nesse momento que estou revisando este texto me vêm à Lembrança a Luta entre Shilink, o bilionário chinês e o jovem Garga, que não queria vender sua Opinião – em que conseguimos impedir as torres da Família Jetsons, de Júlio Neves, os vários shoppings projetados e finalmente as Torres que haviam saído de cartaz e que em sua gestão, Ana Lanna, retornaram impositivas.

Esta Luta Épica de mais de 30 anos é chamada por você de “Luta por interesses particulares de integrantes e simpatizantes do grupo”.

Como se na construção das Torres o Condephaat estivesse defendendo Interesses não Particulares – mas Públicos.

Você escreve: “O Conselho do Condephaat é composto por representantes de diversos setores da sociedade civil e do Estado, todos com notório saber em suas áreas de atuação.”  Acrescento: porém escohidos pelo Governador numa lista tríplice, ou estou enganado?

“As decisões do Condephaat são fundamentadas por “pareceres técnicos” o Conselheiro Relator emite, após análise do processo, parecer votado por uma maioria de um Colegiado.” 

O que é uma “análise técnica”? Para mim este termo parece muito relativo, mesmo porque, no que são publicadas, revelam um desconhecimento absoluto de como analisam, como provam as análises feitas a propósito do Tombamento do Oficina.

Mesmo assim, sei que as arquitetas do DPH (departamento de preservação do patrimônio) Marcia Tancler e Marília Baubour fizeram pareceres contrários às Torres, mas o conselheiro Egídio Carlos leu os pareceres técnicos e ao elaborar o seu, replicou a área técnica dizendo que não podia ser levada em consideração devido à natureza do tombamento (imaterial). O parecer do conselheiro Egídio foi levado à votação pelo conselho e valeu sua posição e dos demais Conselheiros – 13 dos 24 que compõem o Conselho, aprovando a construção, com 3 abstenções.
Os critérios aprovados são inteiramente subjetivos e não têm nada a ver com o 1º Tombamento, feito por Aziz Ab’Saber, João Carlos Martins, Flávio Império. Nem com o Tombamento pelo Iphan, redigido por Jurema Machado – aliás, tenho impressão que esse texto sequer foi lido por você, pelo Conselho e pelo próprio Secretário, para quem entregamos o Projeto “Convênio Exemplar” que continha este texto e o Secretário teve o gesto maravilhoso de nos confessar num encontro que com ele tivemos dia 3/9/2013 que não o havia lido. Ainda há tempo para que o faça.

 

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Ocupação do Entorno com containers para o Convênio Exemplar. Projeto de Carila Matzenbacher e Marília Gallmeister

Os conceitos de Jurema Machado e dos 1ºs tombadores estão muito mais próximos dos significados do que é o Teat(r)o Oficina como as correntes mais antenadas que o Mundo tem produzido em relação à Arte, ao Meio Ambiente, Urbanismo, às transformações das Cidades e sobretudo das Metrópoles, em que Torres construídas pela Especulação Imobiliária no Mundo são vistas como nefastas à sobrevivência da respiração dos Seres Vivos asfixiados já pelo trânsito enfartado e pela poluição.

Você e principalmente sua visão “técnica” me inspiram a escrever um livro sobre a luta que nos transcende, a mim, a você, ao Condephaat, a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona.

Sou muito grato ao fato de você ter me feito perceber a relação matrimonial entre a Especulação Imobiliária Finaceira & a Especulação Técnica Burocrática do Estado versus a Concretude das Urgências Humanas dos Seres Verdes, Culturais, criadores de Áreas de Meditação nas Cidades espremidas como verdadeiros “Guarujás”.

O que vocês, neste Governo Alckmin, defendem tecnicamente é a preservação histórica do Oficina como se a história parasse numa determinada época e dela ficassem somente tijolos. Esses técnicos, com suas análises, tem horror ao Movimento contínuo da História que não para, como a própria Vida.

O Risco do Desaparecimento do Bairro do Bixiga
Quando tomei ciência que seu Governador quer erguer Torres em todo Bixiga, mesmo sendo para moradias populares, não pude deixar de ver nisto um interesse eleitoreiro que esmaga a vida de um Bairro como o Bixiga.

Há milhares de prédios vazios no Centro, desocupados, e eles devem ser passados como moradia para os Sem Teto que povoam as ruas desta Metrópole, a mais rica do Brazyl, como também é claro que isso não impede que sejam construídas novas moradias populares. Mas porque sacrificar um Bairro como o Bixiga, que nos seus Baixos tem moradores pobres que merecem a preservação dos inúmeros lugares maravilhosos que ainda sobraram depois da crueldade do Minhocão ter dividido o bairro como o Muro de Berlim e deteriorado as condições de Vida, estraçalhado pela Especulação Imobiliária Financeira de olho neste local.

Já foi um coração boêmio cosmopolita cultural de Sampã, este bairro de sua periferia Central. Porque não pode ser restaurado como a Lapa do Rio que hoje é um dos lugares mais deliciosos do Mundo? Lá se encontram todas as culturas, classes sociais, moradores de todo Rio e gentes do mundo inteiro. Como seria com a existência de um Teat(r)o que legasse ao bairro o Teat(r)o Oficina, o Estádio Ágora, o TBC, a Casa de Dona Iaiá interligados e uma Oficina de Florestas que reflorestasse todo este lugar de que foram arrancadas tantas árvores maravilhosas com a construção do Elevado Costa e Silva.

E porque sacrificar justamente a Árvore Cezalpina, que não vai sobreviver em 1m e 80cm?

É um crime hediondo o que está se propondo ser cometido exatamente por um Órgão de defesa do Patrimônio Histórico Artístico Arqueológico Turístico do Estado de SP.

A forças dos que Amam a Vida junto a todas as máquinas vivas d’Ela: os Animais, as Árvores, as Hortas, as Flores, os Seres Humanos, já não querem mais viver sob “Ordem e Progresso”.
Os movimentos de Junho antes de entrar em cena a sanguinária PM, resquício da Ditadura Militar que hoje contracena com os Black Blocs solitariamente, hão ainda de ganhar novos rumos.

O Gozo do Passe Livre com o Amor e com Tudo é a aspiração natural de quem está vivo, principalmente nesta Primavera Brazyleira que se aproxima.

Esses movimentos deverão ter Passe Livre nas sessões do Condephaat que vão examinar os inúmeros recursos que entrarão pedindo a revisão deste Tombamento que parece mesmo um Tombo, uma Queda, em que a entrada dos artistas, Lina Bardi e câmeras foi saudada e recebida com a maior alegria pelo sábio Azis Ab’Saber.

Não basta essas sessões serem “públicas no website da Secretaria da Cultura”. É esta ação antidemocrática que traz os privilégios não a um Cosmos Cultural como o Oficina, mas sim a Especulação Imobiliária. É aí que se distanciam das práticas democráticas.

É muita cara de pau, fala sério!, querer invocar Lina interpretando que “qualquer organização cultural que tenha a importância do Teatro Oficina, representante de um marco da história cultural de São Paulo, poderia pretender o mesmo procedimento” possa desqualificar o tombamento.

Quando foi derrubado o Teatro Phoenix no Rio de Janeiro, a belíssma atriz Maria Della Costa passou a dormir no Teatro pra impedir sua demolição. Mas Getúlio Vargas prometeu a Maria que ali se construiria um novo teatro, como aconteceu, e que se transformou num 1º auditório da TV Globo. E mais, promulgou um decreto obrigando todo lugar em que houvesse um Teatro como Espaço Público Cultural ser Tombado e se fosse derrubado, construir outro em seu lugar.

Na minha infância eu via as fotos de Maria e recebia este ensinamento dela e de Getúlio: o lugar onde existe por anos um teatro é um Terreno Sagrado, como as Terras dos Indígenas. Assim considero os mais de 50 anos que o Oficina tem ocupado a Rua Jaceguay 520 e estes últimos 3 anos em que tem ocupado também o Terreno do Entorno como Ocupações Sagradas.

É claro que o “Teatro Oficina se pautou por procedimentos legais, claros e decentes, sem nunca criar privilégios” como Lina afirmou na Seção do Tombamento do Teat(r)o em 1982.

Só que a concepção de procedimentos legais, claros, decentes é a de uma mulher como Lina, que durante o fascismo foi uma partigiani. Muito jovem pegou em armas pra derrubar o fascismo italiano e nos anos 60 apoiava todos os movimentos para derrubar a Ditadura Militar Brasileira. Somente fez Obras Públicas e duas únicas casas residenciais – a de um amigo e a sua própria “Casa de Vidro”. E assim como em 1980, quando concebeu seu projeto feito sem cobrar um tostão para o Oficina, colocou-se na Luta pra impedir que o Teatro Oficina fosse comprado por Silvio Santos, hoje estaria conosco contra os privilégios dados pelo Condephaat ao Mega Empreendimento Privado das Torres.

Ana Duarte Lanna, você tem a audácia de colocar o “Arquiteto” Lina Bardi contra “nossos privilégios” ao mesmo tempo que, diante da evidência do projeto de Lina parido do Tombamento de 1982/83, quer destruir a Árvore que a própria Lina plantou, o Janelão de sua última obra, e se recusa a perceber que o projeto de Lina para o Entorno já faz parte do Próprio Oficina. Não foi a toa que o “arquiteto”, em vez de respeitar os limites do Tombamento, rasgou aquela janela enorme antes mesmo do Grupo Silvio Santos entrar com seu projeto de comprar o Oficina do ex-proprietário e começar a pretender levantar Shoppings no entorno do Teatro.

Projeto de Lina Bardi e Marcelo Suzuki para o entorno do Oficina de 1980
Lina e o Arquiteto Marcelo Suzuki, no dia 24 de Agosto de 1980, projetaram em slides no Teat(r)o Oficina o 1º risco de uma rua que atravessava os arcos romanos do Oficina e instaurava o Teat(r)o de Estádio no entorno.

Depois criaram as maquetes do atual Terreiro do Oficina e do Teatro de Estádio. Mais Tarde quando Edson Elito começou a trabalhar com Lina, ele realizou um projeto muito belo no entorno de um Teatro de Estádio, que Lina até assinaria em baixo, acompanhando a inclinação natural do terreno.

Desapropriação do Teat(r)o Oficina pelo Governo Montoro
Em 1984 minha mãe ia perder a casa de minha família onde nascemos em Araraquara por ter assinado como fiadora o contrato de locação do Teat(r)o Oficina.
Nós estávamos devendo 3 meses de aluguel. Os ex-proprietários do terreno do Oficina entraram com uma ação de execução dos bens de minha mãe: nossa casa em Araraquara. O Oficina já estava Tombado.

Eu fui falar com Paulo Sérgio Pinheiro, hoje um dos expoentes internacionais nas questões dos Direitos Humanos. Paulo trabalhava na Secretaria de Governo de Franco Montoro com uma elite universitária que daria origem ao PSDB como um partido de centro esquerda extremamente competente. Escrevi uma carta a Paulo na época sobre esta situação do Oficina ameaçado tanto pelo ex-proprietário quanto pelo mega empreendimento do Grupo SS para a área.

Encontrei-me com ele que imediatamente informou o Governador Montoro que, com seus secretários, desapropriou o Oficina para que não nos submetêssemos mais às investidas da Especulação Financeira do mesmo mega grupo que continuava nos pressionando.

Enfim, os 3 Tombamentos – Compresp, Condephaat, Iphan – e a Desapropriação pelo Governador do Estado Franco Montoro foram procedimentos realizados para preservar o projeto do Oficina Uzyna Uzona, sempre ameaçado pela Especulação Imobiliária de seu vizinho.

Estes Atos reconheceram os direitos adquiridos pela Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona nos seus muitos anos de cuidado com o Teat(r)o Oficina somados às criações estéticas premiadas, aos elencos permanentes que deram seu Corpo-Alma por este Espaço, nele realizando-se artisticamente.

Baseada no parecer do Conselheiro relator Prof Dr. Ulpiano você afirma: “o edifício do Teatro Oficina precisamente contém valiosa carga de informação”, em 1982 era um prédio em ruínas mas ocupado e cuidado por um movimento provocado por nós mesmos que queríamos a transformação total do edifício, exigida por nossas descobertas da Arte Teat(r)al pois a nossa continuidade, de nossa história viva assim exigia. Queríamos não recuperar mas adequar o espaço à evolução do Oficina iniciada ainda nos anos 60.

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Porque Teat(r)o e nunca Teatro?
Sabe porque colocamos em parênteses o “r” do Teat(r)o?
Porque em 1970, no momento em que a repressão impunha a mensagem à força da Tortura e do Inferno Publicitário do “Ame-o ou Deixe-o”, as pessoas estavam sob o impacto violento que o AI-5 impunha ao querer dos brazyleiros. Nos trancamos todos por um mês no Oficina e começamos a tentar descobrir um meio de sair daquela repressão que nos deprimia e nos deixava descrentes. Criamos com nosso Corpo a Lição de Voltar a Querer – a Re-Volição – através do Te-Ato (de Ação) que é o existir fora da representação. Passavamos semanas sem nos falar somente nos comunicando por ações. Nesta época as pessoas não podiam mesmo falar nada, era tempo do “tá legal?”, “estou na minha”, “corta essa” – nem isso falávamos, e fomos descobrindo a energia poderosa do silêncio. Poderíamos nos comunicar com as pessoas simplesmente transmitindo as vibrações de nossos Corpos em Ação, nossos olhares e emanações de nossas eletricidades. Criamos então o Gracias Señor em Te-Ato, quase sem palavras – estávamos contra o Paredão, como o Beco Sem Saída do Oficina. Viajamos o Brasil levando nas capitais “Os Pequenos Burguêses” de Gorki, “O Rei da Vela” de Oswald de Andrade e “Galileu Galiei” de Brecht. Nos embrenhávamos no mato depois de nos apresentarmos nas capitais, penetrávamos os Sertões do Nordeste já pagando com as bilheterias das capitais as pesquisas de Te-Ato que começamos publicamente em Brasília, no Campus da UNB totalmente vigiado por um almirante da Marinha, reitor da Universidade.
Criamos a partir do que observávamos em caminhadas silenciosas pelo Campus com nossas ações ligadas ao que apreendíamos de mais decisivo vitalmente pra aquele momento em que a Universidade era um Campo de Concentração. De lá partimos para o Nordeste até Manaus fazendo, nos momentos comprados com nossos clássicos, ações ligadas ao campo – aos “Sertões” e íamos passando como Conselheiro e os Conselheiristas: mudos, construindo pontes, ligações entre as casas com, por exemplo: Colchas de Retalhos que fabricavam pra vender no Sul e que eram rivais na disputa do mercado. Com pedaços de tecidos de cada casa, sem dizer uma palavra, emendávamos os panos de rivais e fomos formando uma grande caminhada até formar com todos os habitantes um enorme tecido. É difícil dizer o que eram os Te-Atos naquele contexto. Mas é o que acontece, por exemplo, em “Cacilda !!!”, que está em cartaz no Oficina, com uma das 3 atrizes que fazem Cacilda – a Sylvia Prado, que tem um bebê de 7 meses. Se ele chora, ela apanha o filhinho, dá de mamar e continua atuando mas interpretando, incorporando as ações da personagem às novas interpretações que nascem na hora que ela deve dar de mamar. Sem dizer, sem explicar nada, somente incorporando essa circunstância às da personagem. Então são estes os “aspectos essenciais da trajetória recente do teatro brasileiro e paulista e do peso que ele teve…”. Não! Não se trata do passado. Corrija este seu novo equívoco Ana Lanna e troque por o “que ele tem de atual hoje, em 2013, em nossa Vida Cultural”. Não o “das representações que uma parcela da sociedade fez dela toda” como você escreve. Não como num “Museu Histórico” mas com poucas representações e muitas presentações. Quer dizer: muito Te-Ato ou mais precisamente “Teat(r)os” – com ações vitais dos aqui agora de cada instante.

Nós continuamos a influenciar até hoje o Teatro no Brasil e no Mundo. Isso não ficou no passado, ou melhor, é passado futuro presente.

Vocês deviam ver nossas peças para nos entender.

Produzimos DVD’s profissionais e transmitimos pela internet, com legendas em inglês, todos os nossos espetáculos e trabalhos, como foi o encontro com você na USP e a “Audiência Publica” do dia 5/9 em que se percebe, nos vídeos e nas fotos, que você e o Secretário de Cultura estão, mas não estão “presentes”, não estão ouvindo ninguém, paranóicos, achando que todos estão contra vocês. Basta ver suas caras nas inúmeras fotos vindas de muitos fotógrafos que nos enviam.

Essas gravações e transmissões diretas revelam o Te-Ato através de nossos Corpos, nossas posturas. No Teato não existe somente a palavra falada – está mais presente do que nunca no Corpo Presente, em seus Silêncios ou na falta de atenção, concentração, ligação. Tudo isso é muito teatalmente visível. Nos anos 60 a Polícia Federal publicou matéria paga nos jornais com o título:

“Como Eles Agem”

Escreveram que nós tínhamos sido treinados por hipnotismo por comunistas chineses, pois não compreendiam como o público chegava a atuar conosco sem que pronunciássemos uma palavra.

“O tombamento do Teatro Oficina pelo Condephaat não se refere ao valor arquitetônico do edifício”.

Tem razão, pois o edifício que hoje abriga as atividades da Companhia Teat(r)al não existia em 1982. Existia sim, o projeto, que continua a existir, hoje realizado em parte. É este projeto que precisa da complementação no entorno do bem tombado. Agora o Condephaat está ameaçando querer destruir mais o projeto total de Lina e do Oficina Uzyna Uzona.

“A desapropriação do Teatro Oficina, ato diverso do tombamento, ocorreu em 1984 e em nada alterou a resolução de tombamento do Condephaat. Alterou apenas o proprietário do imóvel, que agora é o Estado de São Paulo.”

Sei que você Ana entende o “Teatro Oficina” como uma Propriedade e trabalha Stalinisticamente para as Propriedade do Estado, não para os que cultivam o Local.

Você por acaso já leu a peça de Brecht “Circulo de Giz Caucasiano”?

Esta peça clarifica que as crianças, como a Terra, pertencem não aos seus proprietários, mas a quem as cultivam.

O Oficina cria esse pomar, que são as Obras Primas, os frutos maravilhosos do Oficina Uzyna Uzona.

Não foi mesmo o Estado que criou, nem mesmo quem manteve estes anos todos este local, foram os Tecno-Artistas e o Público, que continuaram, principalmente o enorme Público sempre jovem, que ainda não aburguesou-se e ocupa sempre o Oficina e agora seu Entorno.

Você escreve “Não há nenhum processo ou solicitação junto ao Condephaat para eventual alteração da resolução de tombamento”.

Mas este destombamento foi feito na moita, não nos foi informado.

Você afirma:

1. Não cabe ao Condephaat pronunciar-se sobre possibilidade de desapropriação do terreno vizinho ao Teatro Oficina (processo 57791/2008) . Tratar-se-ia de atribuição de outras instâncias de governo e não do órgão de preservação do patrimônio. 

Mas este Orgão, se tivesse a mínima noção do que lhe cabe ou não, estaria participando, como recomenda o Tombamento pelo Iphan, defendido por Jurema Machado na conclusão de seu parecer, da busca de uma solução para a destinação do terreno envoltório a Cultura. O texto de Jurema:

Considerando o Parecer da Relatora e após discussão do Conselho, foi a seguinte a decisão final: 

Pela inscrição do Teatro Oficina no Livro de Tombo Histórico e no Livro de Tombo das Belas Artes.

Pela re-avaliação posterior, pelo IPHAN, da delimitação do entorno, tendo em vista tratar-se de bem a ser inscrito também no Livro de Belas Artes e não exclusivamente no Livro Histórico.

Pela manifestação, ao Ministro da Cultura, de que o Ministério e o governo federal identifiquem mecanismos que viabilizem a destinação do terreno contiguo ao Teatro Oficina para um equipamento cultural de uso público, utilizando mecanismos tais como a aquisição, a desapropriação ou a conjugação destes com instrumentos urbanísticos a serem identificados em cooperação com o Município e com o Estado de São Paulo. 

2. o projeto substitutivo apresentado pela SISAN em 2008 (processo 53330/2006) , referente a construção de torres no terreno situado a Rua Jaceguai nº 530 pode ser aprovado, do ponto de vista das restrições estabelecidas pelo tombamento, condicionado à apresentação prévia do projeto de servidão”.

Isto é, traduzindo em miúdos, realmente: 1m e 80cm – um muro fazendo desaparecer a paisagem do Janelão; o corte da Árvore Sagrada do Terreiro: a Cesalpina, que não sobrevive nesse corredor de prisão – e ainda o fechamento da perspectiva da fachada mais bela na obra de Lina Bardi e Edson Elito – a do lado da Rua Abolição, que hoje revela a beleza ímpar do edifício. E o pior de tudo, a extinção da contribuição milionária da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona para SamPã, Brasil e Mundo: a Arte Teatal, enfim.

3. Esse item é risível diante do tamanho da Destruição:

 “A empreendedora deve transferir, em caráter permanente e irrevogável, uma faixa de 1, 80 cm de largura em todo o comprimento do lote de forma a instituir uma servidão de passagem para a construção de adequada rota de fuga e proteção a incêndio, para uso do teatro.”

Que magnanimidade de generosa hipocrisia !!!

O projeto apresentado pelo proprietário do terreno já foi aprovado pelo Compresp em 2009, na gestão de Kassab, mas a atual gestão do Prefeito Fernando Haddad, do secretário Juca Ferreira e do Compresp de Nádia Somekh programa tombar de fato todo o Bairro do Bixiga.

Vai haver conflito entre estas visões do Governo Alckmin e sua intimidade com a Especulação Finaceira revelada descaradamente pelo Condephaat.

“Por fim, cabe lembrar que o Estado de São Paulo desapropriou o bem tombado de forma a viabilizar as atividades do Teat(r)o Oficina. Desde então responsabilizou-se pelo bem tombado.”

Minha cara Fonte de Argumentos, somente nas gestões dos Secretários com Cultura, como Ricardo Othake, que concluiu parte do projeto de Lina Bardi e Edson Elito e estabeleceu um convênio com o Teat(r)o Oficina para mantê-lo, exigindo que fizéssemos uma peça por ano que a Secretaria de Cultura bancaria. Este convênio foi considerado inválido na gestão nefasta de Marcos Mendonça, o burocrataço que hoje está no poder na TV Cultura.

Tivemos ainda a gestão ótima de Fernando de Moraes que começou a encaminhar a construção do Terreiro Eletrônico, que agora completa 20 anos, iniciado no Governo Quércia.
Fernando cercou-se não de burocratas nomeados pelo Estado, mas de grandes artistas de SamPã como Mário Prata, Lélia Abramo, Marisa Orth no Teatro; Tadeu Jungle na área do vídeo; Arrigo Barnabé na área da Música.

Nesta gestão ganhei o prêmio máximo de dramaturgia com minha peça Cacilda !-!!-!!!-!!!! exclamações – uma Teatralogia em torno de Cacilda Becker – que já está em sua terceira exclamação e vai comemorar os 20 anos deste Terreiro Eletrôniko no dia 3 de outubro de 2013.

A gestão do cineasta João Batista de Andrade na Secretaria da Cultura e Cláudio Lembo – em seu breve governo interino – encaminhou uma proposta ao Legislativo de ocupação por 99 anos na Rua Jaceguay 520 para a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona.

E mesmo a rápida gestão de Andrea Matarazzo tentou abrir o caminho totalmente fechado nesta Secretaria de Cultura – porque acham que somos do PT. Artista não é de partido nenhum, ponham isso na cabeça, por amor aos fatos!

A Paupérrima Permissão de Uso a Título Precário para a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Sempre me recusei a assinar esta permissão. Óbvio que não assino mesmo. Todos os Tombamentos: o Municipal, o Estadual, o Federal pelo IPHAN, a desapropriação pelo Governo do Estado, todas estas medidas jurídicas foram tomadas para que continuássemos como Companhia Permanente ocupando o Oficina. Desde que fizemos 25 anos, quando ainda não estávamos ameaçados pelo Mega Grupo SS, fomos nós que fizemos o nome do Teatro, que lá produzimos nossas consagradas Obras Primas. Como é que vou assinar a permissão de uso de um lugar onde estamos há mais de 50 anos?

Não somos culpados da mediocridade do Departamento Jurídico e dos Secretários de Cultura do PSDB do interior de SP não criarem instrumentos júrídicos à altura dos Tombamentos e da desapropriação decretados para assegurar a continuidade de nosso trabalho de criação e garantir que não fossêmos destruídos, como se pretende agora, pela especulação burocrática atual do Condephaat somada à Especulação Imobiliária!

Ainda por cima, na gestão Mendonça, queriam que aceitássemos funcionários públicos como os do Teatro Sérgio Cardoso de então, nas áreas de luz, som, maquinistas em que o Estado pagaria salários baixíssimos e que teriam horário pra trabalhar como “funcionários”.

Ora, não aceitamos.

Não somos uma casa de exibição de Teatro como o Teatro Sérgio Cardoso. A Jaceguay 520 é um Lugar de criação, de produção e também exibição do que criamos. Nossa equipe trabalha com pessoas apaixonadas pelo Teat(r)o, como sócios e somos uma Associação auto gerida – anárquica no sentido mais responsável e libertário da palavra.

As mais de 60 pessoas que estão hoje no Oficina Uzyna Uzona ensaiam as vezes mais de 8 horas, como na Cia. Teatro Oficina Ltda nos anos 60 fazíamos – varando noites, criando nossas Obras de Arte.

Vocês do Condephaat, que tem atualmente esta visão Estatista-Stalinista, não compreendem o Oficina Uzyna Uzona ou deliberadamente não querem, nem têm interesse de compreender.

O Stalinismo odiava e invejava, como vocês, os grandes artistas criadores da Arte Pública do começo da Revolução Soviética. Foram todos, com exceção de Eisenstein e Stanislawiski, destruídos, torturados até a morte na URSS, como vocês querem fazer conosco agora.

Nunca assinei este contrato servil de permissão de usufruir do que nós mesmos criamos e muito nos orgulhamos disso.

Quanto ao cumprimento das exigências de segurança do público que frequenta o imóvel (saída de incêndio), quantas vezes nossa auto-coroada produtora Ana Rúbia não se dirigiu ao Estado nestas gestões do PSDB não mais da USP, mas de Sertanejo UniversOtário, dos Coronéis do Estado de São Paulo, pedindo ao Estado que criasse conosco as saídas de segurança e regulassem, como proprietários, as normas de segurança. As saídas reais de incêndio, não esses ridículos 1m e 80cm de agora, que dependem de nossa destruição como Cosmos Cultural para existir!

Teat(r)o_Oficina_foto_Marcos_Camargo

A Farsa
“Neste exato momento tramita na Secretaria da Cultura um processo atendendo à solicitação do grupo Usyna Uzona (sic) para contratação de projetos para a realização de obras no bem tombado.”

Só que esse momento dura anos e mais anos. O Teatro é uma arte viva, não bate com o tempo irreal da burocracia cultural do atual Governo de SP. Quisemos até fazer um trabalho com vocês sobre a Burocracia em que vocês seriam também Atores / Personagens – “O Contrato (Ou Convênio) Exemplar”. Claro que não passou. Entregamos os Cadernos desta Proposta Maravilhosa nas mãos do Secretário Marcelo Araújo.

Esta Secretaria somente nos paga os porteiros e ainda afirmam que é somente por este ano. Água, luz, limpeza, enfim, melhoramentos, somos nós que fazemos sempre. Se fôssemos esperar pelo atendimento da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de SP a Árvore Cesalpina já teria morrido, o chão do Teatro já teria caído de podre, as galerias desmoronado.

Nós reconstruímos quase tudo este ano com as quotas da geração que hoje faz o brilho de “Cacilda !!!” – Refizemos a pista conforme Lina concebeu, com a mesma madeira que inaugurou o Terreiro há 20 anos atrás. E sempre com o sacrifício dos pagamentos ínfimos que nós Associados hoje recebemos.

Nunca vimos este dinheiro que o Estado destinou – mais de meio milhão de reais para a realização deste projeto.

Depois você Ana Lanna escreve que essas obras, para as quais esse dinheiro se destina, deverão ser analisadas e “obter a aprovação do Condephaat para a realização das obras desse custo, bem como dos demais órgãos de patrimônio junto aos quais o bem é tombado.” 

Não temos condições de esperar este Godot, pois talvez nunca venha mesmo com esta boa vontade com que somos tratado pelo Condephaat e o Departamento Jurídico desta Secretaria de Cultura!!!

E vamos tocando com o que podemos, que não é quase nada. Mas não esperamos estas – palavras de Ana Lanna novamente – “Dinâmicas das leis que expressam os pactos possíveis que a sociedade institui”.

Quem está interpretando estas leis a favor dos privilégios da Especulação Imobiliária são vocês – pessoas de Poder nesta Secult.

E que autoridade vocês tem em falar de democracia que, segundo você, nós desrespeitamos e estamos sempre colocando em risco o estado de direito?!
Vocês que criam interpretações das Leis para impor a violência da Especulação Imobiliária.

Na Revista de Antropfagia de 1928 nós vemos este texto:

“O Direito Antropofágico”. O jurisconsulto Pontes de Miranda, tomando a frente da Escola Antropophagica, lançará dentro de pouco tempo, as bases para a reforma dos Códigos que nos regem actualmente, substituindo-os pelo direito biológico, que admite a lei emergindo da terra e semelhante ás plantas.”

O Teatro desde a Grécia é em si um Poder – o Poder Humano de Antígone diante de Creonte, o Governador – e não somente o Teatro – A Cultura em si é um Poder – não um enfeite, um Museu Histórico do Oficina dos anos 60. O Oficina nem nesta época abdicou de seu Poder Teat(r)al nem agora que é Oficina Uzyna Uzona.

Leia se conseguir com atenção estas falas de Cacilda Becker em Cacilda!!!

Cacilda Antígone Chanel em 68 Aqui Agora:
Foi a Justiça dos deuses subterrâneos que criou nossas leis
Os soterrados vieram à luz
a justiça acolheu, enxergou
Nas tuas leis Governador Creonte
não reconheço força para violar as leis divinas
sempre da hora
não escritas, sem nome
não são de hoje
mas do Etherno Agora
ninguém sabe nem sequer se foram promulgadas
nossa vida de estúpidas penas
mesmo assim não atrofiou nossas antenas…

Vocês não entendem a grandeza do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Somos um Cosmos de mais de 50 anos, uma das Cias. mais longevas do mundo. Não somos diferentes do “Berliner Ensemble” criado por Brecht, que continua até hoje trabalhando em torno da linha deste Autor.
Ainda este ano o vimos com “A Ópera dos 3 Vinténs”, dirigida por Bob Wilson, peça trazida pelo SESC, a única instituição – dirigida pelo grande Danilo Miranda –  que tem mantido o Teatro Arte vivo em Sampã .

Nos anos 60 o Brasil, mesmo ainda na Ditadura Militar, tinha companhias assim. Como o Teatro de Arena, o TBC, O Teatro Maria Della Costa, o Teatro Sérgio Cardoso e Nydia Licia, a Companhia Tônia Celi Autran, o Grupo Decisão, dirigido por Antônio Abujamra.

Das Companhias permanentes que eram como Repúblicas Anárquicas auto geridas, com repertório e estilo próprio independente, Cosmos que brilharam nos anos 60, só restou o Oficina, que em sua re-existência tornou-se a Associacão Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona e fez florir o que plantou: o que surgiu nos anos 60. Cuidou do Teat(r)o Oficina e manteve sempre seu Tyazo ativo. Mesmo no exílio, quando o Teatro ficou funcionando sob a direção de uma bilheteira à época, a maravilhosa Tereza Bastos, que hoje é funcionária aposentada do Teatro Sérgio Cardoso. Em sua gestão ela transformou o Oficina, por necessidade de sobrevivência, numa casa de exibição, oferecendo pautas, alugando o espaço para várias Cias. de São Paulo, independentemente da linha teatral que elas criavam. Meu irmão, o grande artista Luiz Antônio Martinez Corrêa, também ocupou o Oficina por mais de um ano com sua Companhia, a Pão e Circo e depois foi sediar-se no Rio de Janeiro.

Nós, no exílio, re-existimos como Oficina Samba e trabalhamos na Revolução Portuguesa fazendo Te-Atos, “Galileu Galilei” no Teatro São Luiz, que é um teatro municipal como o de São Paulo, em Lisboa. Filmamos “O Parto” sobre os 9 meses da “Revolução dos Cravos” exibido na Rádio e Televisão Portiguesa, a RTP, depois fomos para Moçambique onde filmamos a Independência do País – “25” é o nome do filme. Este foi o ganhador do prêmio de público no 1º Festival de Cinema no MASP inaugurado por Leon Cakoff.

Quando regressamos do exílio, Tereza Bastos entregou-me o Teat(r)o Oficina e eu assumi a direção criando com, além das pessoas exiladas comigo, um novo Tyazo com grandes artistas nordestinos de SamPã, como o sambista parceiro de Jackson do Pandeiro, Edgard Ferreira, o cirandeiro e artista plástico Surubim Feliciano da Paixão, a grande cantora Sandy Celeste, todos 3 de Pernambuco. Eles criaram no Oficina o “Forró do Avanço”, que funcionava com gente de todas as tribos populares de SamPã. Havia a cozinheira alagoana Zuria, que dirigia a Cantina Cabaret.

Com eles apreendemos o Amor às Terras do Oficina e nos tornamos defensores dela diante das 1as investidas do Grupo SS. Esse era o que chamávamos o Tyazo que semeava Os Sertões.

Vieram de todos pontos do Brasil jovens atores, atrizes, músicos jovens que constituíam o Tyazo das Bacantes.

E os criadores da Arte do Vídeo no Te-Ato: Noilton Nunes, Edson Elito que depois iria trabalhar com Lina Bardi, Tadeu Jungle e Walter da Silveira. Esse era o Tyazo do Homem e o Cavalo, de Oswald de Andrade.

O Tyazo da Memória, criador do Arquivo Oficina 20 Anos: Ana Helena D’Staal e Gilles d’Staal, francês que estivera conosco em Portugal no Oficina Samba.

O Tyazo do Circo dirigido pela 1ª geração de renovação do Circo em SamPã: Veronika Tamaoki, hoje a grande pesquisadora e animadora da ethernidade do Circo em SamPã.

Catherine Hirsch, francesa que está há 30 anos conosco e produziu a reengenharia do Oficina em Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona.

Com todos estes novos sócios acima mencionados, em várias mídias, inauguramos o Oficina Terreiro Eletrônico de Lina Bardi e Edson Elito, qu e levou 13 anos para ser levantado com Ham-let, com Marcelo Drummond trazendo sua geração de artistas brilhantes: Alleyona Cavalli, Julia Lemmertz, Alexandre Borges, Adão Filho, Denise Assunção, Paschoal da Conceição.

Neste 20 anos criamos, além de Ham-let, Mistérios Gozozos, de Oswald de Andrade; Taniko – Nô Bossa Nova Trans Zen Iko, do Japonês de ZenXico; Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, de Antonin Artaud, fundamento da Obra prima dos filósofos franceses do Século XX Deleuze e Guatarri; Ela, de Jean Genet, por ocasião da visita do Papa ao Brasil em 1997; Cacilda!, de José Celso Martinez Correa; Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues; as 5 peças de Os Sertões, de Euclides da Cunha no Teat(r)o Oficina e 2 vezes na Alemanha, depois levadas em tendas para as capitais do Brasil até Quixeramobim, terra de Antonio Conselheiro e Canudos, cidade onde se passa o Livro de Euclides, massacrada pelo Exército e reconstruída várias vezes. Esta peça de 5 partes foi construída e permaneceu em cartaz durante 5 anos, de 2002 a 2007 e em 2005 Berlim a elegeu como maior acontecimento cultural do ano.

Em 2001 fundamos o Movimento Bixigão – projeto social com oficinas de teatro, circo, capoeira, música, Teat(r)o, tendo como público alvo crianças e adolescentes moradores do Bixiga. Seu embrião foi uma comunidade de Sem Teto que ocupava um prédio da Caixa Econômica, depois derrubado pelo Mega Grupo Financeiro Grupo SS.

No seu jubileu de ouro de 50 anos o Oficina produziu O Assalto, de Zé Vicente, com direção de Marcelo Drummond, que excursionou pelo Brasil e Europa; leitura encenada no Volksbühne de Berlim, com atores da Cia. daquele teatro, em alemão, de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade; Santidade, de Zé Vicente, também com direção de Marcelo Drummond; Os Bandidos, de Friedrich Schiller, que estreou no National Theatre de Manheim durante o Festival Schiller e depois entrou em carreira no Brasil; Cypriano & Chantalan ou Sensações e Folias de 1973, de Luis Antônio Martinez Corrêa e Analu Prestes, com direção e luz Marcelo Drummond, que teve no elenco atores da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona e do Movimento Bixigão; Vento Forte pra um Papagaio Subir, de José Celso Martinez Correa; Labrinco 50 – Rito Cyber Teatal Viagem, rito das 50 voltas em torno do Sol do Oficina Uzyna no dia 28 de outubro de 2008 – o grupo amador Teatro Oficina nasceu dia 28 de outubro de 1958 no Teatro Novos Comediantes, situado no mesmo local onde o Oficina existe hoje; Vento Forte – exposição virtual Oficina 50 Anos, inaugurada dia 3 de dezembro de 2008 no prédio do Centro Cultural dos Correios no Rio de Janeiro, um projeto-presente da catedrática em literatura da UFRJ Heloisa Buarque de Holanda com curadoria de Camila Mota, Lucas Weglinski e Alberto Renault; O Banquete, de Platão, estreado no Queer Festival em Zagreb, na Croácia, depois em temporada em SamPã e apresentado no FIT BH, onde ocupou o Museu de Arte da Pampulha, obra de arte de Oscar Niemeyer; Cacilda!! – Estrela Brazyleira a Vagar, de Zé Celso, com estreia no Rio de Janeiro no Teatro Tom Jobim dentro do parque Jardim Botânico e depois temporada em Sampã.

Em 2010 saímos em turnê nacional com as Dionizíacas: Taniko, o Rito do Mar, Cacilda!! – Estrela Brazyleira a Vagar, O Banquete e Bacantes. Neste projeto, patrocinado pelo Ministério da Cultura, em que a Cia. excursionou por 7 capitais do Brasil apresentando estes 4 espetáculos de seu repertório gratuitamente em tendas de 2000 lugares, além de dar oficinas gratuitas de todas as artes que compõem os cyberespetáculos: atuação, direção, música, luz, video, arquitetura cênica, figurino, direção de arte, produção, divulgação e difusão. Depois do Tombamento do IPHAN, no dia 24 de junho de 2010, a tenda foi montada em Sampã, a 8ª capital, no Entorno do Oficina Tombado, no terreno cedido em Comodato até este ano pelo próprio Silvio Santos.

No mesmo ano de 2010 fizemos O Bailado do Deus Morto, de Flávio de Carvalho em encenação apresentada durante a 29ª Bienal de Arte de Sampã no Pavilhão da Bienal no Ibirapuera e a Macumba Antropófaga, de Oswald de Andrade. Encenação do “Manifesto Antropófago” criada durante uma semana de ensaios e laboratórios no Inhotim Centro de Arte Contemporânea, localizado em Brumadinho MG, apresentada na obra de arte de Magic Square #5 de Helio Oiticica durante a turnê Dionizíacas. Esta peça entrou em cartaz no Terreno do Entorno do Teat(r)o Oficina num Circo instalado com essa finalidade. Em Sampã o espetáculo acontecia, além do Teatro, nas ruas do Bixiga, na Casa de Dona Yayá, no TBC e no prédio onde morou Oswald de Andrade na rua Ricardo Batista. Em janeiro de 2012 Bacantes, de Eurípedes, seguiu em, em turnê europeia por em Liége, na Bélgica, no Teatre de la Place e em Portugal, Lisboa, no Teatro São Luiz. No mesmo ano foram feitos os Acordes, de Bertolt Brecht e Paul Hindemith, encenada no Oficina, em seu entorno e em turnê pelo interios de São Paulo, também patrocinada pelo Sesc. Atualmente fazemos Cacilda!!! – Glória no TBC e em 68 Aqui Agora, de Zé Celso, também no Teat(r)o Oficina e no terreno do entorno cedido por Silvio Santos.

Isso é um resumo de nosso Currículo.

Não mencionamos os vídeos gravados profissionalmente, distribuídos pela Trama, nem os vídeos de Os Sertões
– 5 DVD’s, por enquanto somente adquiridos no próprio Oficina, nem a caixa comemorativa dos 50 anos com 4 vídeos gravados em 2008. O trabalho de produção audiovisual da Cia. ainda vai lançar em breve O Rei da Vela, o filme e pelo menos outras 4 peças do repertório já gravadas profissionalmente, em fase de montagem e finalização.

Além do Oficina Uzyna Uzona, nos tempos atuais, surgiram muitas outras Companhias permanentes que não nos deixam mais a sós hoje: Vertigem que atuou no Tietê, em prisões, igrejas, hospitais; o XPTO, Grupo Tapa, Latão, Parlapatões, Satyros, Os Fofos, Os Crespos, BR116, Cia. Mundana, Cia. Livre, Folias, Cia. do Feijão, Club Noir… Inúmeros outros Tyazos = Companhias Corais na terminologia da Tragédia Grega Dionisíaca Apolínea e de Pã, aqui em SamPã e também no Rio de Janeiro além de Cia. Armazém, no Paraná, outras no Piauí, atualmemente pelo Brasil todo. Elas são como as Escolas de Samba e os Times de Futebol: Cosmos. Tem uma linha própria que evolui no tempo.

E não resta a menor dúvida: todos estes Tyazos e os da mesma qualidade aqui não mencionados podem, se desejarem, atuar com o Oficina Uzyna Uzona, no Teat(r)o Oficina tombado e no seu entorno.

Como é possível um órgão que defende o Patrimônio Cultural do Estado ter tamanho desprezo pelo Oficina Uzyna Uzona e manifestar-se grosseiramente, sem Arte, neste documento, como se fôssemos usurpadores do Teatro Oficina.

É mais que Ignorância.

Nossa Companhia e nosso Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, seu projeto total de expansão, são hoje objeto de estudo no mundo todo. As Grandes revistas de Arquitetura como Domus, na Itália, 2G na Espanha, dedicaram números inteiros saudando o Projeto do Teat(r)o Oficina e sua extensão urbana no Anhangabaú da Feliz Cidade.

Vocês deviam se inteirar mais de quem somos para não nos entregar assim, com esta brutalidade, para a Especulação Imobiliária. Isso, por nossa Luta e do público brazyleiro e internacional, felizmente não vai acontecer, para a sorte de vocês. Porque se acontecer, vocês serão os neonazistas da América do Sul e irão sofrer muito quando caírem em si.

Hoje uma geração formada por nossas encenações, que são já consideradas cursos da Universidade Antropófaga, revela uma equipe de sócios do mais alto grau de talento. Todo público que viu a 1ª temporada de Cacilda!!!  ficou surpreendido com o talento das atrizes, dos atores, cantores, acrobatas, dançarinos, músicos, instrumentistas, ao mesmo tempo dos talentosos iluminadores, da qualidade do som, dos vídeos, dos  câmeras, figurinistas, camareiras, qualidade da produção e administração, das arquitetas do espaço cênico, dos operadores das transmissões diretas por nosso site, dos protagonistas e dos coros.

Peço que vocês, público, e vocês do Condephaat, se pluguem ao nosso site para conhecer estes maravilhosos artistas de Teat(r)o Multimídia, seus nomes, suas fotos e as transmissões online dos espetáculos de Cacilda!!!, de volta a partir de 3 de outubro.

Ana Lanna, seu texto me inspirou estas noites de réplica e de Insônia, a Deusa da Vida Alerta.

Não somos do PT, mas de esquerda.

“Ser de esquerda é saber que a maioria é ninguém e a minoria é todo mundo.” – Gilles Deleuze

José Celso Martinez Corrêa

Presidente da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona

Segunda Feira, 16 de setembro de 2013 – 2h51’

Evoé!