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Cacilda!!!!

Há um desentendimento absoluto entre a Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona – que cuida do Teat(r)o Oficina há mais de 50 anos e nele realiza suas produções artísticas – e o atual Governo do Estado de São Paulo. Assim como todos que estiveram no poder pertencentes ao PSDB posterior a Franco Montoro – governador que desapropriou o Teatro Oficina em 1984 para que não fosse engolido pelo Baú da Felicidade do Grupo Silvio Santos – o atual governo não tem a menor ideia do valor histórico, artístico, arqueológico e turístico do Oficina.

O que prova esta ignorância advinda nos sucessivos governos do PSDB pós-Montoro é esta Guerra deflagrada pelo atual Governo do Estado contra o Teat(r)o Oficina com o ATO praticado pela atual Presidente do CONDEPHAAT, Ana Lucia Lanna: em vez de defender o Teatro como seu Patrimônio Cultural – objetivo do Conselho – faz como Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Federal e inverte seu papel ao aprovar a construção do empreendimento da Sisan, braço da especulação imobiliária do Grupo SS, que pretende simplesmente assassinar a Obra de Arte de Lina Bardi e a vida em plena produtividade dos 60 atuadores multimídia do Teat(r)o Oficina.
O projeto das torres encaixota a Obra de Arte do “Arquiteto” Lina Bardi e impede sua complementação e sua existência de mais de 50 anos de criação de um dos mais fortes Coletivos de Teatro do Mundo desde o Século XX até hoje, 2013.
Além do mais pretende entregar o entorno tombado do Teatro Oficina pelo próprio CONDEPHAAT em 1983, na gestão do geógrafo Azis Ab’Saber, do pianista João Carlos Martins, tendo como autor do Laudo Técnico de Tombamento o artista, homem de teatro e arquiteto Flávio Império.

Simulação das edificações autorizadas pelo CONDEPHAAT no entorno do Oficina (destacado em vermelho)

Simulação das edificações autorizadas pelo CONDEPHAAT no entorno do Oficina (destacado em vermelho)

O empreendimento da Sisan foi aprovado em uma reunião obscura, em maio deste ano, com votos de apenas 13 dos 24 conselheiros, e um texto reles e mal escrito, incomparável com os laudos de seus antecessores acima mencionados e mesmo com o documento da atual Presidente do IPHAN, Jurema Machado, apresentado em 24 de junho de 2010, no dia do tombamento federal do Oficina quando ela era ainda representante da UNESCO. É um dos melhores textos escritos sobre o Teat(r)o Oficina e conseguiu a aprovação unânime dos membros daquele conselho.

A aprovação do parecer de Jurema termina com as diretrizes consequentes:

Considerando o Parecer da Relatora e após discussão do Conselho, foi a seguinte a decisão final:

· Pela inscrição do Teatro Oficina no Livro de Tombo Histórico e no Livro de Tombo das Belas Artes.

· Pela re-avaliação posterior, pelo IPHAN, da delimitação do entorno, tendo em vista tratar-se de bem a ser inscrito também no Livro de Belas Artes e não exclusivamente no Livro Histórico, e

· Pela manifestação, ao Ministro da Cultura, de que o Ministério e o governo federal identifiquem mecanismos que viabilizem a destinação do terreno contíguo ao Teatro Oficina para um equipamento cultural de uso público, utilizando mecanismos tais como a aquisição, a desapropriação ou a conjugação destes com instrumentos urbanísticos a serem identificados em cooperação com o Município e com o Estado de São Paulo.

A decisão do Órgão de Defesa do Patrimonio Cultural do Governo do Estado de São Paulo de assassinar o Teat(r)o Oficina e seu
entorno demonstra por si o apogeu deste desentendimento entre este Estado e o Oficina. Nunca quisemos assinar um Contrato de Permissão de Uso do Teatro Oficina a Título Precário com o Governo do Estado de São Paulo porque a própria incompreensão já revelada neste documento do Departamento Jurídico da Secretaria de Cultura não compreendia que já existíamos muito antes do Tombamento e posterior desapropriação pelo Governo Montoro.
Estas medidas jurídicas tomadas pelo Governo do Estado com o retorno da democracia e nosso retorno do Exílio imposto por este mesmo Estado no Período Militar visavam garantir nossa permanência no local que criamos: o Oficina na Rua Jaceguay 520.

Exatamente por nos tratarem desta maneira nunca assinei este documento de “Permissão de Uso a Título Precário” e nos garantimos até hoje com o Tombamento e a Desapropriação como garantia jurídica de nossa permanência por mais de 50 anos.

Durante estes últimos anos o Estado recusou uma proposta por nós feita de um Trabalho Teatral em torno de nossas relações burocráticas e jurídicas em que fiossemos personagens, assim como o Corpo Humano que trabalha na sua Administração, com o objetivo de realizar um “Convênio Exemplar” (nome da peça de Vídeo, Teatro e Debates que faríamos). No Lugar desta peça então trocamos o projeto por 4 semanas de leituras encenadas da peça “Cacilda !!!”. Fora isso não tivemos mais nada do Proprietário Estatal da Rua Jaceguay 520. Tivemos que nós mesmos fazer obras necessárias no Teatro como trocar toda a madeira da pista que já estava corroída pelos 20 anos consecutivos de uso; salvar a vida da Cezalpina plantada por Lina que nasce no nosso jardim e atravessa o muro e os vidros do Janelão que Lina criou e avança com sua generosa sombra sobre o Terreno pertencente ao grupo Silvio Santos, além de inúmeras outras obras de manutenção e consertos.
O Estado de São Paulo nos oferece somente o porteiro do Teatro, sendo que pagamos Luz, Água, Telefone, Internet, enfim todas as imensas despesas de manutenção de um Espaço Obra de Arte como o Oficina.
Depois de termos pedido há anos que regulem a situação de segurança do Teatro com o Corpo de Bombeiros – responsabilidade esta do proprietário – pois não temos saída de incêndio, a Secretaria no oferece esta monstruosidade de trancar toda esta Obra de Arte e nossa Atuação de Artistas com esta Torres e as outras por todo o Terreno, com uma saída de emergência com 1 metro e 80 cm., que ao mesmo tempo destrói o Janelão MASP criado por Lina Bardi e corta a Cezalpina plantada por ela. Nos fecha de novo sem Sol, sem ar, assim como todo o envoltório do Teatro atingindo a “Casa de Dona Yayá”, restaurada pela própria Presidente do CONDEPHAAT que aprovou estas Torres.

janela linabobardi cezalpina

A Cezalpina que atravessa o Janelão do Oficina. Foto Jennifer Glass

Mas sei que no ápice deste desentendimento e desta Guerra poderá dar-se o início de uma outra relação. Esta guerra vomita tudo que não é dito publicamente. Por decisão da Comissão de Cultura da Asssembléia Legislativa do Estado de São Paulo, o Deputado Paulo Rillo teve sua proposta de realização de uma “AUDIÊNCIA PÚBLICA” aprovada. Será no dia 5, ás 14:30h, no Teatro Oficina com a Presidente do CONDEPHAAT a propósito desta tentativa de destombamento e massacre do Teatro. A audiência teve o apoio dos Deputados do PSDB, do PC do B e de todos os Partidos enfim que compõem a Comissão de Cultura.
É um ato público em que é desejável a presença de todos os defensores deste Patrimônio: o Teatro Oficina. Os que aqui atuaram nestes 50 anos, os que aqui vieram ver e viver nossos trabalhos, o grande Público do Oficina Uzyna Uzona e todos que desejam também o Tombamento da Área Verde do Parque da Augusta e a entrada de nossa Metrópole nesta Era Ecológica Digital, portanto Pós Industrial.

Estas Torres enfartam ainda mais não somente todo BIXIGA como toda SamPã. Nesta audiência devemos tratar também do bem vindo plano de construção de moradias populares no Bairro do Bixiga pelo Governador Alckmin, mas precisamos estar certos de que não se repetirão casos como o do Teat(r)o Oficina: a derrubada dos lugares preciosos que dão a personalidade magnífica deste Bairro irmão da Lapa, hoje reconquistada no Rio de Janeiro como Espaço Cultural restaurado e frequentado por Multidões de toda Cidade.

Queremos o mesmo pro Bixiga. Estou certo que, como vivemos uma Época magnífica de transição de um Capitalismo que esgotou as reservas do Planeta e que precisa abandonar seu “ismo”, ficando com o Capital somente, para que nós todos possamos cuidar dos estragos feitos no Planeta Terra e aprender a viver de uma maneira mais culta – mais simples.

Na peça que fazemos agora, Cacilda!!!, Franco Zampari declara que a Cidade do seu tempo começava a descobrir a Indústria dos Séculos Futuros: a Cultura. E realmente ele trocou toda sua fortuna para criar a modernização do Teatro e do Cinema Brasileiro no TBC, aqui no Bixiga, e na Vera Cruz. No fim dos anos 40 e nos 50 a Burguesia Paulista deu uma Infraestrutura que é a que existe até hoje em SamPã: a Bienal, o Ibirapuera, o MAM, o Cultura Artística, o MASP.

Hoje temos o SESC. Sem Danilo Miranda essa cidade não produziria mais Teatro Arte. Mas temos que ir mais longe – a própria condição desesperadora da Metrópole Caótica e Enfartada em que vivemos precisa de mais – de uma Infraestrutura Cultural que é a da própria Vida da Cidade, de seu ar, de suas terras vazias de Torres, das Águas de seus Rios fedidos despoluídas no Fogo de uma Virada Cultural intensa de todos os 365 dias do Ano.

Talvez desse desentendimento entre o Oficina e a Cultura do Governo do Estado possa nascer uma nova compreensão do que é uma CULTURA VIVA – não sujeita às burocracias – tendo suas leis interpretadas a favor de nós todos humanos que aqui vivemos. Esta AUDIÊNCIA pode ser o início de um Marco Zero no movimento para a Cultura atravessar toda nossa vida URBANA, SUBJETIVA, MATERIAL E IMATERIAL. Talvez desse encontro comecem a germinar sementes que superem este desentendimento entre Cultura e o Peso Irracional dos Departamentos Jurídicos sem a presença do Poder Subjetivo na Interpretação das Leis.
Não há leis Pétreas. Se fosse assim não haveria necessidade de ninguém em postos como os de Preservação do Patrimônio Cultural e nas Secretarias e Ministérios da Cultura. A Intervenção do fator humano no Poder hoje é decisiva nesta nossa luta diária para não deixar que esta Cidade e este Planeta apodreçam acabando de vez com a Cultura Nova, pós industrial.

O momento exige a mudança de nós todos.

As ruas vão clamar por esta nova Independência neste 7 de setembro – Primavera de 2013.

José Celso Martinez Corrêa
Uma pessoa chamada Zé,

MERDA

Rap composto e ensaiado no final do espetáculo de Cacilda !!! – Gloria no TBC & 68, com o Público, dia 18 de Agosto de 2013

Para ver o vídeo clique aqui: http://new.livestream.com/uzyna/cacildasampa1/videos/27699786

O Ai 5 já Era
agora a Terra
vive
outra Guerra

A Praça da Turkia : Taksim
no Brasil é no Oficina

Táki Sim Taki Sim

 O Oficina Lina Bardi ameaçado
de ser encaixotado
pelo Condephaat
do Governo do Estado

Comprado
pela  Especulação Imobiliária
da SISAN
enfarta  o Bixiga e toda SamPã

Felicidade Guerreira
Vem Primeira
Lutar Corpo & Alma pra ganhar

Vamos juntos  já
ocupar
o  Nick Bar

Devorar esse Répão
feito hoje na Improvisação

Fora Ana Lanna
Infeliz Feliciana

A PRESIDENTE DO CONDEPHAAT, ANA LUCIA LANNA, É O NOVO FELICIANO A INVERTER SUA FUNÇÃO NO CARGO Q OCUPA.

AO INVÉS DE CUMPRIR SEU DEVER DE DEFENDER O PATRIMONIO HISTÓRICO, ARQUEOLÓGICO, ARTISTICO E TURÍSTICO DO ESTADO DE SÃO PAULO ELA PERMITE AO GRUPO DE ESPECULAÇÃO IMOBLIÁRIA SISAN CONSTRUIR TORRES GIGANTESCAS NO ENTORNO DO TEAT(R)O OFICINA.

A FOTO DO PROJETO DO GRUPO Q ESTÁ NA ATA DA REUNIÃO DE 20 DE MAIO DE 2013 PARECE UM CARTOON DE ANGELI. GOSTARIA MUITO Q ELE FIZESSE UMA TRANS-CHARGE ACEITANDO O DESAFIO DE SUPERAR ESTA IMAGEM, Q FALA POR SI DAS BOAS INTENÇÕES DA CONSELHEIRA DO PATRIMÔNIO.

Simulação das edificações autorizadas pelo CONDEPHAAT no entorno do Oficina (destacado em vermelho)

Simulação das edificações autorizadas pelo CONDEPHAAT no entorno do Oficina (destacado em vermelho)

NINGUÉM PODE NEGAR Q O TEAT(R)O OFICINA É UM PATRIMÔNIO DA HISTÓRIA DO BRASIL NÃO SOMENTE POR TER LUTADO CONTRA A DITADURA MILITAR MAS POR ESTAR AGORA LUTANDO COM A DITADURA DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA Q TOMOU O APARELHO DO ESTADO DE SÃO PAULO OCUPADO POR AGENTES COMO DONA ANA LUCIA LANNA, QUE USA SEU PODER NO PRÓPRIO ORGÃO DE DEFESA DO PATRIMÔNIO CULTURAL PARA DELAPIDÁ-LO. UMA FORMA CONTEMPORÂNEA DE CORRUPÇÃO, TALVEZ A MAIS MONSTRUOSA DA HISTÓRIA DO BRASIL.

O TEATRO OFICINA, O 3º Q SE CONTRÓI NO LOCAL, É PROJETO DOS ARQUITETOS LINA BARDI E EDSON ELITO E COMPLETA 20 ANOS NO DIA 3 DE OUTUBRO. LINA BARDI DEFENDE A TRANSCRIAÇÃO DOS ESPAÇOS EXISTENTES A PARTIR DO SEU CONCEITO DE ARQUEOLOGIA URBANA: FEZ PERMANECER OS ARCOS ROMANOS DO PRÉDIO ANTIGO DO LOCAL, ANTERIOR AO TEAT(R)O OFICINA, E CONCEBEU UMA OBRA DE ARTE DE ARQUITETURA URBANÍSTICA DE TEAT(R)O QUE GANHOU VÁRIOS PRÊMIOS INTERNACIONAIS E ESTÁ PRESENTE NAS GRANDES REVISTAS DE ARQUITETURA DO MUNDO.

SEU PROJETO PRESSUPÕE SUA COMPLEMENTAÇÃO NO ENTORNO TOMBADO PELO PRÓPRIO CONDEPHAAT, POR CIDADÃOS DA ESTATURA DE JOÃO CARLOS MARTINS, SECRETÁRIO DE CULTURA, DO GEÓGRAFO AZIZ AB’SABER E DO ARTISTA DE TEATRO, PINTOR E ARQUITETO FLAVIO IMPÉRIO.

O COMPRESP, ÓRGÃO MUNICIPAL DE CULTURA, TAMBÉM TOMBOU O OFICINA HÁ 20 ANOS ATRÁS. ASSIM COMO O FEZ O INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, O IPHAN, NO DIA 24 DE JUNHO DE 2010, INCLUINDO A RECOMENDAÇÃO EXPRESSA PARA QUE OS ORGÃOS DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMˆONIO CULTURAL DO ESTADO DE SÃO PAULO, DA PREFEITURA DE SÃO PAULO E O MINISTÉRIO DA CULTURA NEGOCIASSEM SEJA A DESAPROPIAÇÃO OU OUTRO MEIO PARA DESTINAR O ENTORNO DO OFICINA À COMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO INICIAL URBANÍSTICO DE LINA.

SOMOS ARTISTAS Q HÁ MAIS DE MEIO SÉCULO VEM PRODUZINDO OBRAS DE ARTE, SOMENTE INTERROMPIDOS COM A PRISÃO E TORTURA DE MUITOS DO OFICINA Q ENTRETANTO, EXILADOS, CONTINUARAM SEUS TRABALHOS EM PORTUGAL, MOÇAMBIQUE, INGLATERRA E FRANÇA. NA ABERTURA ESTREITA, GRADUAL E RESTRITA RETORNARAM À DEFESA DE SEU ESPAÇO Q COMEÇOU A SER COBIÇADO PELO GRUPO SILVIO SANTOS E OCUPARAM-SE EM DESENVOLVER AS OBRAS PRIMAS Q ESTÃO PRATICANDO NO LOCAL.

A MINISTRA MARTA SYPLICY ESTAVA – E SEI Q CONTINUARÁ – NEGOCIANDO UM TERRENO DA UNIÃO PARA TROCAR COM SÍLVIO SANTOS PELO TERRENO DO ENTORNO Q JÁ OCUPAMOS. ENTRETANTO LEIO HOJE NA MÍDIA Q SILVIO SANTOS, Q PROPÔS A TROCA, ESTÁ DESAPARECIDO HÁ DOIS MESES.

FELIZMENTE ESTAMOS COM CACILDA BECKER NOS INSPIRANDO EM CACILDA!!!, NOSSA NOVA PEÇA QUE ESTREIA DIA 3 DE OUTUBRO, ANIVERSÁRIO DE 52 ANOS DO TEATRO OFICINA. NESSE DIA VAMOS ESTAR COM O NICK BAR INSTALADO NO NOSSO ENTORNO.

TERMINO LEMBRANDO Q A PROTETORA DO PATRIMÔNIO DO ESTADO DE SÃO PAULO DETERMINOU UM METRO E OITENA CENTÍMETROS PARA PRESERVAR O Q? O JANELÃO LARGURA MASP Q LINA RASGOU NO ESPAÇO DO TEATRO RUA? OU PARA CORTAR A ÁRVORE SAGRADA, TÓTEM, A PRIMEIRA A DAR SUA SOMBRA AO TERRENO DO NOSSO ENTORNO? ELA QUER CORTAR A CEZALPINA, O PAU BRASIL, Q SIGNIFICA TODO TRABALHO ECOLÓGICO DA ASSOCIAÇÃO TEATRO OFICINA UZYNA UZONA.

ZÉ CELSO

Simulação da circulação que restaria no entorno do Oficina com a construção das torres da Sisan

Simulação da circulação que restaria no entorno do Oficina com a construção das torres da Sisan

Cena de 68 de Cacilda !!!! (4!s – 4 exclamações) para talvez nos inspirar em alguma coisa agora. 68 é 2013 em termos de transformação da Sociedade Mundial e Brasileira.

ATO 3

68

(O cenário é a torre da Av. Paulista)

RUTH
Eu não fiz EAD, sou portuguesa,
Tamaqueira, esquisita.
Não tenho carteirinha do Partidão.
Não participei do CPC nem da UNE.
Nem fui adotada pelo Alfredo Mesquita.
Mas você me inspira vontade de fazer coisas importantes,
E não há pessoas como você, o bastante,
pra você poder ficar arrasada, malamada, querendo mamita.

CACILDA
Eu não tenho mais nada Ruth.
Devia, mas não foi proibida,
a peça não fez goal, foi só chute.
E nem serviu pro que foi concebida:
enchertar mais vida no nosso amor,
meu e do Walmor.
Acabou a temporada. Dessa vez, foi o fim.
Não quer saber mais de mim.
Por uns tempos nem como atriz,
pra nunca mais como mulher.

RUTH
Mas ele não é único Homem…
é tempo de mutações
Você é linda, ainda. Capaz de despertar Paixões.
Você mesma se impede.
“Meu Mito não permite” Outro amor não pede.
Aí fica tudo em cima do Walmor.
Não é fácil, até eu entendo o terror.
Você e você de uma vez
e todas as personagens que você fez.
Um harém, um bacanal inteiro,
todo teatro brasileiro.
Quem sozinho, toma todo esse vinho?
e dar pra todo o mundo.
O que está censurado no seu ser mais profundo!
Aceitar tudo que te compromete
O Convite do Décio, pra CET…

CACILDA
Fazer o Papel de Secretária?

RUTH
Claro, nessa situação extraordinária,
na conjuntura atual
uma secretária de uma comissãozinha
do Governo do Estado,
com a foráa da nossa classe,
tem poder Ministerial.
E você vai por a máquina do Estado
não para servir os Imbecís
como estão acostumados…

CACILDA
Mas pra produzir
o Anarquista Coroado!
O poder do Ator!
Já falo como se tivesse aceitado.
Cacilda! Calma, você está um horror!

RUTH
Aceita o meu convite pra fazer Irmã
no Balcão de Jean Genet. A dona do Bordel.

CACILDA
Deste Balcão da Paulista
já faço esse papel.

RUTH
Neste latifúndio aéreo, a platéia é a cidade.
Qual o papel da Madame nesse camarote super fino?
Falar e ser ouvida pelo General Cupertino.
O Segundo Exército, o Governador, o Cardeal de toda a Cristandade!
(pausa)
Ou o Chefe de Segurança…
Acho que voce deve aceitar o convite
dessa pessoa de excelsa importância.
Cacilda! Não seja criança.

CACILDA
Não, com Creonte eu não facilito,
conheço a personagem.
Estão tramando com a TV
uma nova linha de montagem,
em que a cabeça do Teatro será apresentada,
pra descerebração.
Vai virar salchicha .
Sem nenhuma contemplação.
Navalha na Carne” foi liberada aqui nessa Incubadeira.
Estavam conosco no Rio.
Nós comparamos os bordereux e Dissemos:
“Maquinista, desmonte!”
Soltamos a Iguana!
Nunca tinha acontecido assim em terra brasileira.
Não é que me ufana, um movimento!
Eu até posso falar horas,
por que estou por fora
mais veio da nossa plantação
da minha barriga…
E eu vou entrar nessa briga,
pra não ser abortada.
Posso estar superada.
Mas vou lutar
pelo que pode me devorar.
ê como defender a vida.
Sermos cremadas, comidas.
Há os que não fazem nada no Brasil,
a não ser prender o balanço do quadril.
Mas há os que fazem.
Nos entendemos e desentendemos, em cada batida,
Esse vai e vem do coração,
joga o teatro paulista na vida.

RUTH
Vamos a passeata com estudantes, solidariedade
freiras de mini saia, operários em contrução!
Só o ABC de uma grande confusão.
Mas o que me traz aqui matriz
É o sentimento materno e filial,
amizade, amor e adoração! Incondicional!

CACILDA
Mas tudo assim de uma vez, potra?
Coisa contradit¢ria com outras.
CET Passeata, Excelso do S.N.I.?!
Portuguesa Maluca, o que é que deu em ti?

RUTH
Não você é uma atriz, tem direito
e dever de viver suas palpitações,
na contramãoo das contradições…

CACILDA
Mas por quê você está assim,
Histórica, como eles agem?

RUTH
Porque só você pode dar coragem
que nós precisamos neste momento.
(pausa)
Que eu preciso, sem fingimento,
Mais que ninguém… olha meu sofrimento!
(levanta a saia)

CACILDA
O que é isso? Que descaramento?!

RUTH
Um cinturão de castidade.
Não é de couro e ferro, mas é de verdade.
Ele é cenógrafo figurinista. Criou pra não dar na vista!
O Cinto se adapta a todas as minhas calcinhas.
Tem esse cadeado e uma chavinha…

CACILDA
Essa calça parece uma cuecona de marchadeira!
Aonde está a chave dessa tamanqueira?

RUTH
Carrega com ele no pescoáo amarrada.
A calcinha tem várias aberturas caseadas.
Quatro na frente e quatro atrás.
Exigiu assim meu capataz.
Rente a cintura. Por onde o cinto perfura.

CACILDA
E como você urina, evacua?

RUTH
Só quando meu amo não estiver na rua.
Eu me levanto antes dele, tomo banho,
visto a calcinha, a chave apanho,
antes dele sair entrego a sorrir.
Acabei pegando uma prisão de ventre crìnica,
colite, sistite,
só tomo água tônica!

CACILDA
Mas por quê?

RUTH
Como não ser escrava de quem inventa essa coisa incrível?!
que os outros mortais nem sabem que é possível?
Ele me sussurava. “Vou te possuir, sou mais forte!”
Eu me matava no fatalismo da entrega. Desejo e Morte.

CACILDA
E você representando esse papel de fera,
levantando essas catedrais com as altas esferas!
Flávio de Carvalho fez pra mim um cinto,
mas me deixava livre, instinto,
“Coroa, oh! esperta, tua cabeça, aberta!
Mas é a Inês do Gil Vicente…
Eu fiz esta personagem…
A Farsa de Inês Pereira…
Você vai, imediatamente, tirar essa besteira.
Imagina se souberem a Escobar,
dona de teatro, líder desde o Tejo
anda com esse arreio do desejo.
E o Doi Codi, A Oban,
se souberem amanhã?
Já pensou que prato
Pro Torturador, pro rato!

Será esse o meu fado, a falta de amor me mata!
O que inspira é um desejo animal de mãe, de Gata!
Belicosa por seus filhos.

De uma Desilusão imensa
nasce um grande entusiasmo.
Mas falta o que me convença
De sair deste marasmo!
Estou madura só me mecho pra saída
se encontrar minha terceira vida.
Joga essa porcaria na Lata de Lixo da Privada.
Vamos chamar o chaveiro.

RUTH
Ai Jesus…
Do modo caseiro.

CACILDA
Tesoura. Tu que serves a censura,
vai abrir a abertura.
(enquanto corta o cinturão de castidade)
(ouve-se evoés de passeata vindo da rua )
Se for presa, não quero ficar envergonhada
de ter estado com uma mulher de teatro,
que quer fazer uma revolução
e é pega sem a chave da calça na mão,
não vai poder nem dar, nessa idade
com o cinto de castidade.
Ah Nem te faáo mais a feira
Só no Teatro, se for o papel de Inês Pereira.

RUTH e CACILDA
Inês Perera
Da-me cá essa chave
e i buscar vossa vida.
Agora quero tomar
quero tomar por esposo
quem se tenha por ditoso
de cada vez que me veja.
Por usar de siso mero
asno que me leve quero
e não cavalo folero,
antes lebre que lero,
antes lavrador que Nero.
(A Ruth sai montada no marido, desfilando na Pista, solta as Tranças)

RUTH
Estuda esses novos papéis
Te poupa
Se eu fosse você,
Começava a pensar, pelas roupas.
Um Chanel, um Dior. Um Balanciagá
Militiância na Elengância, minha Maga!

CACILDA
Estou feia, Cacilda! finge que desemperra,
Usa esses casacos de Floradas na Serra
aproveita a indicação, pra esse ato
tailleur francês e esses sapatos.
Talvez seja este do teatro o destino!
Como no meu tempo antigo, tudo só figurino!
Paixão quer dizer movimento
Risco ação.
Vai bater este vento?
Vou entregar meu coração?
(Vai à janela com a atração do suicídio)

CACILDA ALMA
Eu preciso telefonar para deus.
Ah! minhas pílulas…
(pega o estojinho de comprimidos)
São infinitamente misericordiosas…
Número da receita: 96.814.
Eu acho que esses números
É o do telefone de Deus.
(toma a pílula)
A vida está cheia de misericórdias como esta.
Não “grandes” – pequeninas, mas confortáveis…
E a gente vai indo…
(fecha os olhos – deixa cair o papel da receita)
Sinto-me como uma planta aquática numa lagoa chinesa.
Hablas espanhol?
Vamos ao Cassino Moon Lake?: É alegre, muito alegre.

(A jovem atriz apanha a receita e olha para o apartamento da avenida Paulista iluminado árvore de Godot. Entram. Cleyde Rosa Gonzales dançando o flamengo como num palquinho em forma de uma imensa cama de casal onde Ziembinski com as roupas do Sr Iaconis se diverte bebendo “uso”, anizette, e aterram na pista aberta em toda sua dimensão de teatro do lago como quintal de Pirassununga da Fazenda onde Mamita lecionava: “Paiol Velho”.
O a Jovem atriz e o Rizzo, dançam mandraxados, parodiando uma tourada, em que vão se despindo, Rizzo começa uma dansa de espelho, mulher se espelhando no menino, até virar menino. O contra-regra entra e traz como os paramentos de toureiro a peruca de Pega Fogo, e um esparadrapo que cruza nos seios da jovem Cacilda, enquanto que as camareiras maquillam todo seu corpo até virar a entidade, quase um Sacy, de corpo vermelho, cabelo de fogo, para Rizzo uma cabeça de Touro. São dois meninos que dançam agora. Um é Pega Fogo e outro é um cabeça de Touro. Ziembienski o diretor está vestido de Monsieur Lepic, como que na paquera, passam os dois meninos.O Touro Rizzo, abraça Ziembinski por três, enfia a mão no seu bolso e passa uma caixa de fosforo para Pega fogo. Logo a seguir o Touro corre para a árvore e começa a bater as patas na terra com Cleyde Rosa num flamenco quase surdina e pura percussão. Ziembinski e Pega fogo vão para o palco cama as luzes se apagam.Zimba e Pega fogo estão na cama.Em rodas em torno do palco cama Rosa Cleyde e o Touro continuam com a percussão dos pés. Na escuridão o Touro grita: Sacy! Sacy! – bem mântrico, xamânico Cacilda Pega Fogo acende um fósforo.)

CACILDA PEGA FOGO
Eu sou Pega fogo.
(acende o cigarro de palha do pai e o seu, os dois vão fumar durante a cena)

ROSA CLEYDE
Não é um nome cristão.
O sr, deve ter um nome de batismo.

CACILDA PEGA FOGO
Mas nunca foi usado. Até se esqueceram.
Existem crianças infelizes que se matam.

ZIMBA LEPIC
Queres te suicidar?

C.PEGA FOGO
Às vezes.

ZIMBA LEPIC
Experimentastes?

CACILDA PEGA FOGO
Eu quis me enforcar.
(vai se encaminhando para a árvore)
Subi nesta árvore,
fiquei com os pés no galho mais abaixo
e no mais alto amarrei uma corda,
fiz um no corredio e passei em volta do pescoço.
Com os pes juntos e os braáos cruzados, assim.

ZIMBA LEPIC (baixinho)
Pega Fogo !

(Zimba e pega fogo param com estátuas de museu de cera)

CACILDA (Na janela do apartamento)
Daqui eu vejo, o lago, a cidade, o hospital, o Nick Bar,
a cadeia, o inferno , o Paiol Velho, as queimadas,
Rizzo: o touro preto.
Eu me atirar no espaço… quem está me chamando?

ELIZABETH (gritando de baixo)
Cacilda mataram o Pega Fogo.

(O corpo de Edson Luis- o Pega Fogo – vem carregado pelos coros de 68: os guerrilheiros, camponeses e operários, cangaceiros, metalúrgicos da Feira de Opinião, as mulheres de preto dos Fuzis da Senhora Carrar, puxados pela Mãe Carrar, os padres de passeata e freiras de mini saia.
O comando da passeata é dos muito jovens, crianças, pivetes, liderados por Silvinha de primavera de Botticelli com pedaço de pau na mão na mão, Pivetes, carregando um corpo da criança envolvida numa bandeira brasileira ensopada de sangue que passa de mão em mão, colo em colo.
Quando o corpo passa é esfregado no corpo de Cacilda, que se esfrega no corpo dando balidos de cabra ferida despertando sua preparação de guerrilheira no Teatro, iniciada no TBC, de Antígone, depois da grande desilusão com Celi, no nascimento deste entusiasmo pela defesa da protagonista da tragédia na defesa dos bodes trágicos de um massacre que vem vindo, se apaixona.)

CORO
Mataram um estudante
podia ser seu filho
Nesse luto
Começa nossa luta!

(Cacilda apanha a tesoura, esconde na bolsa e desce pra avenida pra passeata. Encontra Maria Della, Ruth Escobar, vai com a passeata até o palco no extremo oposto do teatro, que está com uma tarja de censura na boca de cena, carimbado em letras gigantes: Proibida a Ronda dos Malandros no TBC. Ela sobe no Palco censurado cercada pela multidão, a Polícia com escudos, espera para não permitir o espetáculo.)

CACILDA
A representação
da Primeira feira Paulista de Opinião
é um ATO de rebeldia e desobediência civil.
Não aceitamos a censura.
Conclamos o povo
a defender a liberdade de expressão artística.
(falando para Creonte)
Arcaremos com a responsabilidade deste ato,
que é legítimo e honroso.
O espetáculo vai começar.

(Em outro palco começa A Feira Paulista de Opinião. No extremo oposto. Nos primeiros acordes da Tropicália, com Guerrilheiros, Gorila com pinico e artistas plásticos – cantam)

CORO DOS MILITANTES
Eu organizo o movimento.

(A Polícia se dirige para o palco onde se dá a representação.
Cacilda aproveita que tá limpo, a polícia foi embora, apanha a Tesoura)

CACILDA (apresentando na moita)
“A Ronda dos Malandros”,
Polly, meus amigos,
Entrou de castigo
na tesoura da censura.
Eu disse comigo.
ele vão pagar pra ver.
Ruggero me falou: não é o momento
essa gente, é um poáo de ressentimento.
Ponha a máscara da tia Oscar Wilde,
levanta o queixo, adiamo toca em frente.
Aprenda “A importâcia de ser Prudente”
Chegou o dia, TBC.
Agora voce vai se fuder.

(Corta a Tarja da censura, na boca da cena. Tambores, Clarins. Sai de trás da tarja o corifeu Grande Othelo)

CORIFEU GRANDE OTHELO
Sou o GRANDE OTH E L O
Xodeo do Orson U E L E S
Príncipe da República de Ve-Nega
O Cinema, Guia de Cego
Luz dos olhos do Brasil!
Da Atlântida, ires
que nos Mares Submergiu!
Quebro a rima do Macunaima
boto no Cinema Novo.
Mas desse teatro eu sou o ovo.

(Os coros dionisíacos de Teatro são vomitados com os de Roda Viva, O dos Regimales do Cemitério de Autom¢veis com metaleiros, menades com cobras, crianças, coros de possessos, tomando espaáo todo, anarquistas coroados, a libertação da Roda Viva, coros ligando todas as energias da sala pela dança, transe, possessão, alegria, se alastrando pelo espaço todo. Contagiando como uma peste.)

CORO DOS ANARQUISTAS COROADOS (samba enredo)
Abra as Jaulas! Abra!
Aqui no Trópico das Cabras!
Dionizios nos Hemisférios!
Começa de novo seus mistérios!
Verdade crua.
É só a Inciação
Da Grécia Brasileira
que dá nas ruas.
Cacilda Come Tragédia
Toma o Fio
O teatro de possessão,
Das Rodas Vivas te vomita no Brasil
Vem toma Parte!
A Tragédia é puro amor a Arte!
Teatro Brasileiro de Tragicomédia
O r g y a.

(Duas linhas, duas linguagens teatrais completamente diferentes: Os Militantes com passeatas organizadas. E os Arquistas Coroados com dervishes, guerrilheiros da ocupação física espaço, ações de surpresa, rápidas.)

ALGUÉM
Bomba no Estado.

OUTRO ALGUÉM
Apedrejaram o governador Creonte na Praça da Sé.

OUTRO
Maria Stuart Antônia e o Elizabeth do Mackenzie em guerra.

(Numa extremidade o estádio da Bandeirantes, na outra o Teatro Ruth Escobar. O Teatro no Ruth Escobar – Assembléia – O palco é dos representativos e dos porra loucas. Da regimália e dos coros engajados que tomam todo o espaço. O Palco italiano Rasgado por Cacilda é uma moldura, vasada, furada, um arco, o teatro é uma rua por onde passa o mundo. Não há mais centro. Mesa, burocracia na condução das assembléias. Cacilda é líder natural Emerge nas ações, protagonista, poder Imperial pro lado dos Coros.
Carro vindo da Bandeirantes, no Traçado Imaginário da Marginal. Marilda Benzinho, Bráulio Nick, Walmor Jorge e Cacilda Marta)

CACILDA MARTA
O Estado de São Paulo
É o único jornal que conferiu à classe teatral,
um prêmio.

MARILDA BENZINHO
Mas depois desse Editorial cínico
não tem mais sentido.
O Estadão está do lado da censura,
contra nós.

BRÁULIO NICK
O que que você quer?
Devolver os sacys?

WALMOR (breca o Carro)
O Sacy é o pega fogo.

CACILDA (acende um cigarro)
O Pega fogo sou eu.

WALMOR GEORGE
A devolução, taí a revolução.

CACILDA MARTA
Mas Walmor todos esses moços tão bonitos, tão adorados,
to nossos amigos.

WALMOR GEORGE
Pau na bunda deles.

BRÁULIO NICK
Muitos vão gostar.

WALMOR GEORGE
Todos.
Essa filha de professorinha de roça,
Fica vendo da escolinha do Paiol Velho,
os filhos de Fazendeiro que vem de Paris.
Cacilda!
A Fifi não quer
que a gente fale mais palavrão.
Teu Nome é um palavrão!
Cacilda!

CACILDA MARTA
Oxalá vire uma palavra maior: Paixão.
Quando alguém disser Cacilda!
Quero que se traduza como
invocação do maior palavrão que eu conheço,
o mais subversivo:
Paixão.

MARILDA BENZINHO
Só que já virou lugar comum.
Paixão… Paixãozinha…
Vamos mudar o dicionário.
Cacilda! Cabra da Paixão!

CACILDA
Ah ah ahh
Méééééé
Paixão de Cabra!

BRÁULIO NICK
Chegamos na boca!
Que situação extraordinária.
A atriz, a porra louca
e a senhora secretária.

WALMOR HAMLET
É um gozo ser o engenheiro
E Voar com o próprio engenho.
Só muito azar me impedirá

De cavar embaixo,
na mina deles,
Explodindo até a lua,
Oh que bonito é ver num mesmo cordão,
duas intrigas, dois teatros,
se chocando.
Isso devia ser proibido,
mas vai acontecer.
Boa noite mãe.

CACILDA (Acaba de chegar da gravação da Tv Bandeirantes. Tem ainda a maquillagem pesada e a peruca da Rainha Morta, faz frio traz a sua capa real.)
Que emoção este teatro.
E as bambolinas?
A cortina?
Subterrâneos.
Me inpirem os deuses
Infernos de Elêusis.
O teto não existe,
os urdimentos desaparareceram
Até sinto o céu dessa noite fria de junho.
Do teatro do mundo.
Esses coros são protagonistas,
não cabem mais nas salinhas do teatro paulista.
O teatros pelas ruas deflorados,
caem tamponas, filtros à granel
Todas que eu sou, eu invoco:
Atigone, a primeira,
não a clássica,
a de classe: Antígone Chanel
(Dá uma girada de modelo. Aplausos cantos, mantras de passeata)
O Realismo da Velha Senhora.
(Vaia)
Vão existir teatros abertos assim.
Onde se joga a sorte do mundo.
Agora sou a presidente da
Comissão Estadual de Teatro
(Silêncio e suspense. Estão dividida com um traáo na metade de seu corpo, de um lado é o figurino das secretária elegante, o lado com manto de rainha e coroa na cabeça)
Quando soube da ideia, achei molecagem.
Foi por Walmor.
Era como se fosse uma segunda separação entre nós
depois da do casamento
Fui procurada pelos meus amigos do Estadão.
Como presidente da CET, aconselho o diálogo com o jornal
(Silêncio)
Eles querem que eu me coloque ao lado deles,
contra nossa classe.
Eles tem razão em muitos pontos,
Mas entre ser usada corretamente por eles,
ou erradamente por minha classe….
Não sei ….
Estou vivendo um momento de decisão
o mais dramático de todos que vivi
dentro e fora de cena.
Não se .
Como atriz…..

ZIMBA PELIC (A estátua se volta pra Cacilda)
Pega Fogo.

CACILDA
A atriz….

(As estátuas do museu de cera, começam a se mexer novamente)

CACILDA PEGA FOGO
Alguém está me chamando

(A assembléia e Cacilda viram museu de cera)

ZIMBA PELIC
Tua mãe te salvou a vida.

CACILDA PEGA FOGO
Se fosse mamãe que tivesse me chamado eu já estaria longe!
Eu desci papai
por que era o senhor que estava me chamando.

ZIMBA LEPIC (absolutamente surpreendido com a revelação)
É mesmo!
Menino Querido
O poder é teu!
Nossa paixão cênica
É coisa ainda desconhecida.

(Se abraçam e se beijam longamente como amantes: Um senhor e um menino cercados nas proximidades da cama pela Rosa Carmem de Cleyde e o menino touro, a cena é um presépio, vem agora os três reis magos para adoração do menino de três pontos diferentes do espaço.)

DECIO (falando sussuradamente, traz como presente sua critica, vem com ela na mão deposita na cama.)
Alma seria o ponto mais alto,
estavamos equivocados
em admitir limites
para voce Cacilda.
Suas imensas possibilidades
são ainda mais vastas.
Quanto mais se volta pra dentro
Mais parece crescer.

MICHEL SIMON (vindo do hemisfério Norte)
Monstro de teatro
De Max, Gaby Morlay,
Charles Chaplin, Charles Laughton.
Médium
Mãe de Santos do orixá do teatro.
(bate a cabeça no chão da pista – gargalhadas, castanholas, mugidos, sem perder o fervor sereno e em pedal.)
Depurada, contida, quase avarenta
torce o pescoço da eloqüencia teatral
A personagem não pode ter mais outro rosto.
Você criou um ícone,uma entidade
pra se comprar em estatuetas
nas casas de Umbanda,
é Poil de Carotte.
(oferece uma cenoura imensa com um talo verde grande como um rabo de foguete)

CACILDA PEGA FOGO
Onde o sr. roubou isso?

MICHEL
Como advinhou.
(Cleyde e Cacilda se olham e rieem muito)

CLEYDE ROSA GOZALES
Tenemos experiência hombre.
Anda enterre otra vez el talo, nadie se dará cuenta!

(Cacilda Pega Fogo dá uma dentada.Vem o terceiro rei mago, mancando, com um belo rosto de Erol Flyn, um copo de wisky na mão)

CARLÃO MESQUITA
Ele tem razão, vamos criar o Oscar brasileiro
para cinema e teatro. E a Estatueta será um sacy.

CACILDA PEGA FOGO
E que tem pega fogo a ver com isto ?

CARLÃO MESQUITA
Baco knows! Evoé!

CACILDA PEGA FOGO
Luis Carlos, Michel, Decio,
Não sei até onde vou poder chegar com as minhas chagas.
Estou sendo adorado como no presépio menino jesus,
mas Zimba me tire o esparadrapo.
Vejam aqui já está a cruz.

(Zimba tira os esparadrapos carinhosamente)

CACILDA PEGA FOGO
De uma vez, assim doi mais , até ja tem pés.

(Zimba agora puxa de uma vez – Ela dá um berro – o touro grita Sacy. Rosa Cleyde Toca as castalholas)

(BREQUE)

CACILDA (poe as mãos no peito)
Carne Viva!
Como atriz, entrego o meu Sacy é Assembléia.
(A Maior Ovação de suas atividades políticas)

ROBESPIERRE
Vou ter que ligar pra Araraquara, pra minha mãe.
Todos os meus prêmios eu mando para ela.
Pra não dar azar ficando comigo!
Assim ganho mais.
Meu Deus, como este ator está chorando abraçado a estátua!

(Tarde Chuvosa em frente o Estado De São Paulo. Atores com Sacys, de guarda-chuvas sombrinhas, ferradura em frente ao luminoso do Estadão, embaixo o Painel de Di Cavalvanti, os atores fazem uma ferradura e depositam.)

CACILDA
Não o queremos mais.
Que volte para o Estado de São Paulo,
como símbolo de uma solidadierade
que não tiveram
num momento difícil nossa luta.
De hoje em diante
na estrutura de Brecheret conterá
o pensamento dos homens que querem e pedem,
liberdade para todos.

FLAVIO RANGEL
A maior oração de sua vida.

LIANA DUVAL (de capa plástico e galochas amarelas, Bate a Porta de Vidro, atrás um guarda, o Painel Elektrônico da Notícias do Agravamento da Crise de 68 no Teatro, no mundo e no Brasil)
Não vão receber os colonos.
(abrindo bem as pernas em cima do seu sacizinho, arreia as cacinhas, faz uma posição de jorei com as mãos e Mija, ri e chora!)

MIJA! ÁGUA DO MEU CÉU!

CORO da TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO (música religiosa Bachica)
Nem a Levitação
De Laura Betti,
A empregada de Teorema,
Tem Tanta Religiosidade.
Sagrada Boceta
Santa
Puta
Camponesa
de Presidente Prudente
Mija
em Frente a Casa Grande
No Obrigado Senhor
Como um passarinho cagando na minha cabeça
Quando estou na rua, sonâmbulo.
Aí eu digo obrigado passarinho
O jorei, a teologia da libertação
Poesia de amoração.

LIANA
Eu Colona
Que sempre fui apaixonada pelos meninos
da varanda da Casa Grande.
Meu grande amor.
Os padres, os diretores, os críticos,
Nesse momento Décão
Professo minha Paixão!
Recebe minha doce
Poesia de amoração
Por outro Teatro
O Sagrado.
Profano
Sem medo da pobreza,
Nem da safadeza.
O Pega Fogo pretinho
Pau Preto
Pau Queimado
Com chuvas abençoado,
Oscar brasileiro é assim,
Orações, Amorações, preces.
Glórias de deuses
Que Holywood desconhece!

DÉCIO (Na redação no plano Superior da Barca do Céu para o Anjo)
N e s t e d i a em que os atores depositam seus sacys,
a p r o v e i t o também
p a r a d e p o s i t a r
m i n h a f u n ção o
d e c r í t i c o d e t e a t r o.
Se não qerem saber de nós, o que é que podemos fazer?

(Saem todos, Ficam as Noticias do Painel Eletrìnico: Greve em Osasco, Tomada a Fábrica da Cobrasma pelos Operários o Exército intervém. Ataque a “Roda Viva” e os Sacys abandonados na Chuva)

(A Tv Bandeirantes – cenários de Tele Teatro – Castelos de Papel – Estação pintada. Salas Chic Brega pós-Tupyupa. Câmeras Gigantes, Pesadas, Luz de Derreter Maquillagem, Perucas, Base. Stress. Cafiaspirinas. Num dos camarins dos gols da pista , no extremo oposto, está o Camarim de Creonte com seu Trono)

ELIZABETH HARTMANN
Eu não dormi, emendei de novo.

CACILDA
Eu também.
Me acordaram de madrugada, me dizendo que fosse apanhar no Trianon, uma diretora de teatro ferida pela polícia pra levar pra casa, que iam passar as 3 horas…

ELIZABETH
Mas era gente de confiança? Você conhecia?

CACILDA
Claro, muito!
E estou muito preocupada, nem sei o que possa ter acontecido… se ela foi presa…
É aquela moáa diretora em São Bernardo…
Que fez um Moliére muito bonito… com aquela dentucinha que fala em dididi nas assembléias. “Entende? Questão de ordem, Percebe…

ELIZABETH
A Sônia Braga!

CACILDA
Linda ela!
Mas eu vou precisar de quilos do creme da véia!
Máscara tripla!
Cafiaspirina.
Me sinto uma Dercy Gonçalves dramática!

ELIZABETH
A gente fazendo esses dramalhões.
E os nossos colegas se divertindo, lá no Roda Viva,
curtindo com o público…

CACILDA
Comendo Sanduíche de Mortadela!

ELIZABETH
O Final de Cena Mais lindo que já vi na vida em teatro!

CACILDA
São Marcos mesmo da teatro novo.
Esse meu afilhado maluco.
Desde que eu vi Rutinéia fazendo na Incubadeira da Paulista essa cena…

ELIZABETH
Você começou arfar…
pensei que fosse ter um ataque de asma…
aí vi suas lágrimas correndo e fiquei feliz.
Nem Becket que fizemos tanto
na Universidade em Porto Alegre
tem essa simplicidade!
Aliás hoje você está alegre…
Já sei…

CACILDA
Conforme eu vou voltando a atividade revolucionária,
eu sinto um calor perto,
um certo conforto, vou olhar…
o Walmor está por perto.

ELIZABETH
Ontem eu ouvi, “Vai dar Cacilda”. Grosso!

CACILDA
Desabusado! na frente do Sábato Magaldi!

ELIZABETH
E você super otária!

CACILDA E ELIZABETH (juntas)
Não, eu ainda te amo.

ELIZABETH
Você bem que gosta destas madames apaixonadas
e rejetadas da Novela Hein…
Tua cara!

CACILDA
Será mesmo eu eu sou tão superada assim?
Não é verdade…
Aqui sou rainha e faço rainhas.
A intimidade com a realeza faz parte da dignidade do ator.
Mas nem por isso eu deixo de estar um horror,
uma velha senhora…
Vou fazer uma floresta de Rimel em cima de minhas olheiras Coitado do meu galã!

SUITE (Off)
Atenção! Gravando!

CACILDA
Toma meu texto meu não decorei…
“Não, eu ainda te amo!”

ELIZABETH
Não disse, você tem que renovar seu repertório.

CACILDA
A portuguesa quer que eu vá namorar sabem quem?
Um sujeito que imaginam ser o diretor do S.N.I.

ELIZABETH
Tem coisa Melhor… No teatro de Agressão.

CACILDA
Outro amor platônico!

ELIZABETH
Chama a Gata!

CACILDA
Agora chamo a Véia!

ELIZABETH
Desculpe quem sou eu pra falar, já que você me ouve?!
Não faça tudo tão depressa, tão sem ponto e vírgula
pra acabar de pressa e ir pra Assembléia. Ponhas umas…

CACILDA
Menopausas… Não!

(Cacilda está no estúdio da Bandeirantes, caracterizada de Inês de Castro, essa cena acontece numa extremidade, da pista, um estádio de TV, gravando um Teleteatro. As câmeras da TV Ligadas, entram nos Vídeos.)

SAMUKA (corifeu dos anarquistas – chamando como um sino humano, como pêndulo de uma corda)
Creon atacou de Quadrado Morto
a Roda Viva!
Prum aborto.
Pra silenciar os zum zum zum dos Evoés!
No palco da profanação
ocupação da posseção.
Baixa Baco deus das mudanças,
plantando São Paulo,
na danças dos pés.
(Solta da corda e dança com os pés no chão)

CACILDA ANTIGONE RAINHA
Estou preocupada com tudo isso.

(No Gol de um palco antagìnico da mesma altura está o Trono de Creonte de Antigone, que será ocupado por Generais, Governadores, até por fim pelos camaradas Stalins, Timoneiros – Creons – da Mídia, Cacilda fala de Gol a Gol, com a multidão na pista em abaixo. Dois goleiros. Ela e Creonte.)

CACILDA ANTIGONE RAINHA
Creonte!
Tomarei providências para garantir não apenas o meu,
mas todos os teatros.
Qualquer Teatro, é meu teatro.
O tempo está mudado,
sou Antígone, sou rainha,
o anarquista está coroado.

CREONTE
Sem obediência não se pode governar,
o Homem que obedece saberá mandar.

SAMUKA
As febres estão queimando nos corpos
como tochas.
Vem uma força desconhecida!
A multidão se embriaga
mesmo ameaçada
vem pra jogada
de poder de paixão.
A bola viva do mundo
no gol da revolução.
E se dá muita risada!

SILVINHA WERNECK (Da rua em baixo, falando diretamente com o governador)
Sou roda viva.
o Cú !
A que mais conheçemos.
Como diz nosso Profeta Pereios

PEREIOS
Quem tem cú tem medo!

SILVINHA VERNECK
Não sou representiva.
Estou aqui
a segurança está na mão,
(mostra um pedaço de pau)
destes pedaços que são os teatros.
Não tenho tempo pra ser estudante come Era,
meu palco é aonde eu estou,
mas a minha fera Silvia é a primavera.
E mais alguma coisa.

(A TV-direta sem centro, debATOS sem mesa, toma todo o espaço, vai tudo pro ar: o que se passar na sala, nos banheiros, as conversas que não ganham os espaços mais centrais)

CREONTE
A anarquia é o pior de todos os flagelos,
ela destrói as cidades.
Subverte os lares,
desbarata as tropas na batalha.
Como ousas falar assim com teu Governador?
Pirralha!

SILVINHA
Governar os homens é um serviço
medíocre.
Que deve ser deixado pra gente
medíocre.

CREONTE
Aquele que ama, de coração, esta cidade,
vivo ou morto saberei honrar.
Outra ordem: não ficar ao lado da desordem.
Uma das senhoras mais representativas da sociedade paulista, e do teatro brasileiro,
Uma mulher moderna,
não compreendo o prazer de participar desta baderna.
Eu era seu fã no TBC.
Tenho seu autógrafo, seu retrato.
Era uma distração fina, o teatro.
Vulgaridade, baixo nível, palavrão.
Bancado pelo Banco Estado!
Que a senhora levou da comissão
A linguagem que se fala! Não com teatro, parei
A senhora ousou infringir a minha lei.

CACILDA ANTÍGONE RAINHA
Por que não?
Foi a Justiça dos deuses subterrâneos que tomou?
Os soterrados vieram à luz, a justiça enxergou.
Nas tuas leis não reconheço força
para violar as divinas
não escritas, sem nome.
Não são de hoje.
Ninguém sabe nem se foram promulgadas.
Nossa vida estúpidas penas, atrofiou nossas antenas…

SILVINHA
Como um anel de Saturno,
rodearemos o seu Palácio soturno.
Com cobras vivas. Um bambolê.

TODOS (aprovando)
ACORDS!
EVOê!
Cacilda! Vem pro chão.

(Aplausos Crepitantes – Cacilda desce e é ovacionada)

CONCEIÇÃO DA COSTA NEVES
Como admites que está ralé,
dirija a palavra ao general Creonte.

SILVINHA
Quem é esta mulher?
Que beleza a tua peruca de holandeza.

CONCEIÇÃO DA COSTA NEVES (de mãos na cintura)
Como ousas chamar-me Mulher.
Sou Conceição da Costa Neves.
Quem és tu? Pergunto eu.
Como te atreves?
Na Bíblia, interpretações do mau
relacionam a mulher só a prática animal.
A mulher é mãe de todos.
Donde viemos afinal.

AURÉLIO CAMPOS
Animais, cara deputada
fazem necessidades e escondem com areia.
Essa canalha expõe, alardeia.

TUPY
Nós os tupis estamos garantindo essa transmissão.
Há pressão
a audiência agora é de quase l00 por cento.
O que está acontecendo aqui?

BETTY
O evoés de 68.

TUPY
O que é isso?

BETTY (balançando as mãos, perto dos ouvidos, como se fossem antenas – falando baixinho)
Em grego é esse zum zum elétrico,
essa fofoca sem nome.
Sem assunto escolhido
a ondulação da informação viva
alimenta a fome
no restaurante
da bacante.
Voz de povo, voz do deus.
Como esse teatro também é comida.
Dá uma ouvida.
Agora Cacilda desce do Balcão
Que emoção
e vai receber do Coro, ninguem espera….
Uma Coroa de Hera.
(com afastamento brechtiano, fala com o público)
um minuto de evoé…escutem 68.
(gravação de uma cena, com falas já escritas, gravadas com simultaneamente, que rolavam no teatro Gil Vicente, texto mixado de um minuto.)
um minuto de evoé de agora .
(durante o evoé e a dispersão o corifeu Samuka balança com um pêndulo de relógio.)

EVOÉS DE 68

TUPY
Zona na tupi.
Vejam eles estão focalizando as jóias de Conceições da Costa Neves. Agora as calcinhas.
Até a mulher que serve cafezinho está se metendo…

MULHER DO CAFEZINHO
Essa muié ficou peidando o tempo todo no meu namorado,
a senhora pensa que por eu sou pobre, eu não sinto cheiro…

CONCEIÇÃO DA COSTA NEVES
Isto não é liberdade é licenciosidade.
Isto não fica assim…

LUCA
Sujì, o Fernandinho filho do Creonte.

FERNANDINHO MACKENZIE
Vou fazer hand ball com o saco destes comunistas.
Esses pederastas tàm de ser castrados
ontem enchemos a casa de Robespierre de catchupe
ele nem vai mais pra casa.
Guilhotina!

CONCEIÇÃO DA COSTA NEVES (põe as mãos na cadeiras)
Escória!

MULHER DO CAFEZINHO
Caguei pra você,
você é de teatro porno português, fica dando de Madame…

CACILDA
(em cima de uma estrela, recebe uma coroa de Hera e um Pedaço de Pau das Mãos sde Silvinha.)
Você Menina parece comigo.
é uma Cabra
Uma protagonista dos Coros,
os Protagonistas,
nos revelamos na carne da ação.

SILVINHA
E na ação da carne.
Eu sou vegetariana, mais gosto muito de carne de gata, principalmente de uma cheirosa como você.
Você se alimenta só de frutas?

CACILDA
Não eu como pouco.

SILVINHA
Sua alma cheira bem.
Vamos um dia ao macrobiótico dançante,
tem um lado que tem carne de porco,
mas eu trago meu lanche aqui.
Se me prenderem já estou preparada…
Vem ao nosso apartamento na Rio Branco.
Eu te ensino músicas lindas.
Estou fazendo um trabalho pra namorada do meu pai
com todas as músicas que falam, do amanhã,
essas canções de prostesto chilenas, brasileiras também,
o dia virá… um dia um dia…
Mas tem uma músicas que até
dá pra ficar esperando um pouco… um dia…
Não … não dá…

CACILDA
Você fala como eu, na disparada…

SILVINHA
Eu tì rouca.
Tenho um namorado, que é casado com um general do SNI que é fonoaudiólogo, ele está cuidando da minha garganta…
Ah… Gata…
Mas a música brasileira não precisa protestar
ela já é um protesto em si.
Eu começo trazendo estes ritmistas
que chegaram da Colômbia,
tocam os ritmos negros do Caribe…
para Ercilla…do Haiti
(pro Caetano)
Não é?

CAETANO
Silvinha, você está linda.
Eu não consigo mais sair daqui deste teatro,
passeata está meio perigoso,
ontem Prenderam o Rogério Duarte com duas meninas,
eles foram torturados…
Acho que a coisa agora está começando
a ir para um outro fio Mas por enquanto,
apesar destas bombas, do CCC…

ROBESPIERRE
Se é com Rogério é grave,
É o Rimbaud ,
quando mexem com ele é porque é começo de alguma coisa.
Rogério. Saldanha e Helio OIticica,
são as três bruxas da tropicália,
tudo começou no Caldeirão deles.

ÍTALA
Nós não podemos mais comer nos jardins,
os CCC ficam ameaçando de castrar, comer,
matar sei lá.
O único lugar seguro é a zona!

ZUBEIDE
Você me empresta sua peruca
que eu preciso assaltar um banco…

ÍTALA
Peça a Cacilda Becker, ela tem lindas.

ZUBEIDE
Está vendo aquele lourão comendo uma maçã?
É da CIA participou do comando que mantou o Chà.

ITALA
Pode? Eu sou de outra organização.

ZUBEIDE
Vou ver o que eu consigo com o Meirelles…

CAETANO
Ninguém querer mais saber de lugar, nenhum.
é a praia de São Paulo.
Nem restaurante só assembléia,
como se diverte…
Trouxe até minha mesa de Ping Pong
pra Jogar com a Gracinha.
João não quer vir aqui
diz que prefere os novos baianos
“Tì mais com comunismo”

SERGINHO MAMBERTI
Gente! Minha casa eu não sei mais onde é
se é aqui, se é lá…

TUPY
O que você acha da situação política
e cultual deste momento. Gracinha.

GRACINHA (traz um telefone na cabeça)
Sei lá. Pergunte aos meninos…

CACILDA
Nós somos neste lugar, agora, este corpo.
Um Poder. Meu Deus, Instransferível.
São Paulo! Nós estamos conseguindo ter o privilégio
de experimentar esta força desconhecida: o Teatro.
É tão forte ela está aqui,
em qualquer direção que eu olhe,
eu quase sou uma coadjuvante, uma figurante,
quando isso aconteceu?

RUTH
É ótimo isso vamos ao Gigetho,
vamos arranjar uns namorados…
Que é isso você está olhando para esses porra loucas?
Ontem rasgaram todas as roupas de Roda Viva
por que não tivemos tempo de lavar…

ERICO
Pode tirar o seu sapo da chuva,
nós não vamos fazer o espetáculo de sábado
se você continuar vendendo tudo,
não temos como circular,
a ação se passa pelos corredores, escadas.
vem com essa que você vai ver…
Vai ter que fazer cemitério de Bicicletas.

SAMUKA
Não é que você aplicou toda a renda no Cemitério
e não está pagando as atores.

ROBESPIERRE
Queremos receber nossos direitos autorais
há mais de uma semana…

RUTH
Não vamos tratar deste assunto aqui numa assembléia
não podemos estar divididos.

LUCA
Poder-se servir nesta bandeja!

RUTH
Que escandalo, é o caixa da empresa, não é uma bandeja
que anarquia.

LUCA
Aqui, sirva-se:
O caixa.
(vem com o caixa da bilheteria na mão)
Aliás estou aqui com o a caixa…
ofereço os direitos que Flávio Império
Roberpierre tem.
Eles estão me cobrando
e eu sou um admininstrador a serviço da produções
e não sou seu empregado.
O importante é as peça rolar da melhor forma possível profissionalmente.
Ditribuindo bem a grana, justiça!

RUTH
Você está demitido.

ROBERSPIERRE
Vem trabalhar comigo.

SILVINHA
Que ato. É teu retrato.
(Tira a câmera e fotografa ele)

LUCA
Você saiu da primavera de Botticelli.

SILVINHA
Saí, volto logo pra lá.
(Se apaixonam no meio dos evoés)

CACILDA
Meu Deus que eu nunca esqueça esta noite.
Eu fui abrir tuas porteiras
você quer namorar todo mundo,
eu fui abrir as portas do teatro
virou essa anarquia.
Que maravilha.
Adoro estar no poder neste momento na Comissão
porque eu sei trabalhar com a anarquia,
acho muito produtivo..
OH Estado, meu antagonista .
Nunca pagaram uma funcionaria pública
imperial,
pro lado da cultura.
Estou Apaixonada!

RUTH
São as contradições não antagônicas.

CACILDA
Agônicas.
Eu te pago a feira amanha não se incomode,
Os meninos também precisam, você da tudo
pro teu espetáculo de vanguarda ?!

RUTH
Je m’en fous, eu acho muito divertido…Tudo!

BETTY
Corta!

(Samuka cai – silenciam os evoés)

CACILDA
Mas esses olhos
Eu vejo no que os seus olhos tentam me dizer
e na amazônia de seus cabelos
uma força desconhecida.
O que é?

(Samuka não responde – o coro responde por ele)

CORO DE RODA VIVA
O exército em Porto Alegre
Invadiu o hotel.
Bateu, sequestrou
Os advogados quiseram chegar perto
o General não deixou
Enfiados dentro do ìnibus
Sem curativos, feridas dando pés.
O gordo do Mangue
parecia uma cachoeira de sangue
O coro foi remetido pra São Paulo,
sem um Ai!

CORIFEU SAMUKA (distante)
Sempre imaginei assim, o regresso
dos voluntários da Guerra do Paraguay.
Minha irmã, meus irmãos.
Agora pras cordas, por um fio.
(Vai subindo para os pontos mais altos do teatro, através da galerias, para apanhar uma corda que deixou amarrada nas alturas, centrada ao meio do espaço.)
Vamos dar os últimos saltos,
Sem Rede
Vem aí a quarta parede.
(aponta uma grade descendo lentamente num dos palcos da pista, a “cortina” de Galileu Galilei)

CORO
Somos o nervo do dente
De uma revolução copérnicana.

SAMUKA
Por isso vamos entrar
Logo nos Canos!
Adeus linda Rainha!
Silvinha, vamos…

(Ela pega outra corda e os dois começam a subir.)

SILVINHA
Rebento do Deus da Zona!
O’Baco
Agora
uma virulenta peste infesta São Paulo!
Vem com teus pés, tu que dança.
Chega o Rei aos nossos olhos,
com teu sequito todo.
(grita)
IACO!
(subindo na corda)
Persofone está sendo levada com o fio…
E quem perde a alegria,
esse é para mim
um homem que não vive.

CACILDA (ao coro)
E o édito proibitório?

CORO
Geração que mal nasceu
Emparedada viva, se prepara pra morrer.
Hoje Foi proibida Afinal
Pelo Exército
A Roda Viva do teatro do mundo
Em todo território nacional.

(O coro a partir desse momento os coros vão se separando. O de Roda Viva acompanham Samuka no Galileu. Os Estudantes saem algemados, presos pela polícia. E as Cias vão pras suas carroças deixando a Rainha sozinha.
Samuka se atira da Corda e se balança, ondulando, rindo em cima da platéia, com luvas escura nas mãos, farda Mao cinza de Galileu, e capa de estopa.)

Noticiário de TV nos vídeos texto ou imagens mudas
Mais de mil estudantes foram presos esta manhã, quando realizavam o congresso nacional da entidade, proibido pela Polícia Federal.
A Polícia Federal considerou subversivas interpretações da atriz Cacilda Becker na TV. Exigindo transferencia para o horário 23 e 3O, fora do horário nobre, visando preservar nossas crianças.

(Entra uma cortejo do SNI, armados e com uma gaivota morta, empalhada, que joga no meio da pista)

VÍDEO SUB- TEXTO DE CACILDA
Reconheço no defunto
até o meu presunto
Burra! Burra!
Estava na Cara no TBC
Quando fazia Antigone
Fazia meu treinamento de Guerrilheira do Teatro,
De uma Grande desilusão com Eros
Ficou preparado um vazio no meu coração pasmo
Onde nasceria agora todo um novo entusiasmo

Como eu não via
Que o corpo de Policenes.
Multi Cenas
É o cadaver sem sepultura
dos mortos pra cultura.
Cadáver da Cultura.
Desplantado
Iluminação nesta encruzilhada,
estou aqui para plantar e ser plantada.
Toda ernore desossada de Osasco
começa a ser empilhada.
O cadáver gangrenado de tudo
que ronda sem nunca ter sido devorado.
Meu dedo eu finco
Meu assassinato cultural
Aides 5
eu morri deste mal.
O Edito Proibitório

(Cena de conversa de vídeo texo entre Robespierre e Cacilda)

VÍDEO SUB- TEXTO DE ROBESPIERRE
Vamos fazer a Gaivota de Tchecov.
Você faz Arkadina
Estrela russa dos palcos italianos
Traz cenários, roupas, fotografias,
da tua cia.
Silvinha faz Nina.
Pássaros que querem voar.
Teus filhos e as meninas
O Teatro do Lago
A Revolução do Teatro soviético
Esmagada foi também pelas botas
Mas nos podemos passar a Limpo
Lá foi a primeira, aqui no século,
pode ser a derradeira.
Agora, no Teatro Coro e Olympo
Criar com essa força, viva aqui,
Outro vìo para as Gaivotas.

VÍDEO SUB-TEXTO DE CACILDA
Acho que é tarde ….

(Tirando os paramentos de Secretária, óculos escuros, paletó do tailleur, sapatos, ficando só com a capa e a coroa de Rainha)

CACILDA
Quadruplicamos a dotação da Comissão
Mas foi Impossível assinar contrato
com peças não liberadas pela censura.
que do ponto de vista cultural,
preenchiam todos os requisitos.
Polônio no Tribunal de Recursos
impediu.

VÍDEO TEXTO
“VIVA CACILDA BECKER”

(Cacilda não entende)

(Som off da Noticia do Ai-5, os atores de Galileu, do Coro de Roda Viva estão atrás das Grades. Galileu surge atrás delas, a grade começa ser levantada ao som dos sussuros passados em circuitos de cumplicidade da rebelião dos encarcerados.)

P a r e d ã o – Vídeo-Wall formando o Vaticano Global.
(O Muro do Pim-plim. Um só centro. Um só Deus. Imagens do Camarada Timoneiro da Mídia.
Costa e Silva na capa do Time.
Fossas em Perus acolhem sacos de cadáveres.
Imagem intermitente entre as platinadas no Vídeo Wall!
Cacilda está no Centro vestida de Rainha, descalça, a sua volta vários palcos, como uma Estrela do Labirinto de Flávio Império. Cada ponta vai se virando no sentido contrário, até sumir.
Reaparecerem em palquinhos, quitandas, carroças de mascates,
de cachorro quente de praia, ou tendas.
Com um ou dois atores, em desordem, sem referência, centro ou direção, um movimento aos poucos vai dominado tudo.
Uma fila pra se vender no merchandising.
Um cercado com uma decoração em acrílico, os que passam vêem seus rostos indo para o Vídeo Wall, os que não vão ficam pairando, almas penadas pelo espaço outros fazem “teatro do oprimido”, “de rua”.
Nas Galeria nos Balcões como em Jean Genet, se vê o General
e O Camarada Stalin de Summer Branco. Coroado pela coroa Global. Sentado na Cadeira de Creonte.
Aleluia Coral de Handel. Musica do Fim do Balcão, de Garcia, explode o silêncio. Atores que passaram nos testes de marchandising vão subindo pelo vídeo Wall para chegar lá, no Balcão onde estão os donos.
A música para com um corte brusco, se ouve barulho de picaretas.
Num outro palco no centro, um rinke de box, em que atores começam a destruir o rinke até encontrar terra. Marilda benzinho acompanha com um livro preto de Contabilidade.
Cacilda fica só, e vai tirando a coroa, a peruca, o vestido de rainha.
Olha pro trono de Creonte onde fica a luz, mais concentrada.
Walmor e Ruth se aproximam de Cacilda, um de cada lado, falam bem baixo)

RUTH
Nova Iorque

CACILDA
Não vão me dar o visto de entrada.

WALMOR
O importante é uma pausa.