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Arquivo da tag: Cacilda!!!! A Fábrica de Cinema & Teatro

Todo processo catártico implica em uma pequena morte do corpo, como um orgasmo, onde exaustão e prazer são componentes quase indissociáveis. A partir dessa falência, desse esvaziamento, o corpo está pronto para um renascimento. O ser humano necessita de experiências catárticas e as encontra em festas religiosas, em terreiros, nos bailes funks onde se dança a noite toda, nos ensaios de escola de samba que varam as madrugadas e até na saída semanal para balançar os esqueletos em festas como o Santo Forte do DJ Tutu. A longa duração é característica comum à todos esses eventos e nunca é questionada, pois é condição do processo de transformação por que passa o corpo. A catarse é fundamental, é necessidade física! A apatia a que é submetido o ser humano muitas vezes gera violência pois substitui uma experiência estética que produz catarse e a violência é também uma experiência física, que supre a falta de transformações indispensáveis ao corpo Alma.

As peças Cacilda!!! e !!!! têm longa duração, por volta de 5h30 cada uma. São extenuantes e propiciam ao público a possibilidade de uma revolução nos corpos semelhante à provocada pelas baladas, mas são de outra natureza. São espetáculos de teatro, uzynas geradoras de energia e transformação criadas por um coro, banda, tecnologia, uma pequena multidão da Cia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona que há 55 anos tem como uma das bases de seu trabalho o cultivo do poder humano, das permanentes transformações do corpo.

É catarse com roteiro: começo, meio e fim para as infinitas absorções de cada sessão.

Teat(r)o é atuação ritual com o corpo.

Não foi a toa que Lina Bardi criou cadeiras desconfortáveis em seus teatros: ela desejava as pessoas das multidões com a coluna erguida. Nas cadeiras do Sesc Pompéia apoiam-se em colunas vertebrais, totalmente explícitas no mobiliário. Claro que há pessoas que precisam de um apoio mais confortável, Haroldo Campos ia ver nossos ritos levando um travesseirinho para sua coluna e uma garrafa d’água, o mais esperto exemplo para os que se queixam da falta de conforto.

Nós sempre chamamos o público a vir atuar conosco, pois atuamos com as pessoas do chamado público e não para o público.

O OficinaUzynaUzona  quer cada vez mais música, dança!

O público, quer dizer, as pessoas presentes em nossos espetáculos, têm sempre a possibilidade de entrar na mágica arte da atuação, mas há os que se recusam entrar nas rodas, no coro, na gira. Todos vivem a liberdade de atuar ou atuar vendo, mas perdem um pouco com o poupar de seus corpos, deixam de viver o rito no livre espaço do  “anarquista coroado”

Camila Mota

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Camila Mota interpretando Cacilda Alma em “Anjo de Pedra”, peça da peça de Cacilda!!!! Fábrica de Cinema & Teatro.
Fotografia de Jennifer Glass